Cientistas adiantam o Relógio do Fim do Mundo


O governo de Donald Trump é o fim do mundo. E agora, literalmente: hoje, 26/1, o Boletim dos Cientistas Atômicos adiantou em 30 segundos o relógio simbólico que mede quão distantes nós estamos do apocalipse. Ele agora marca dois minutos e meio para a meia-noite. E uma das principais razões para o avanço do ponteiro é justamente o aprendiz de fascista* que ora ocupa a Casa Branca.

Segundo a associação de cientistas sediada nos EUA, no ano de 2016 o panorama da segurança global ficou mais tenebroso, porque a comunidade internacional “fracassou em lidar efetivamente com as ameaças existenciais mais urgentes da humanidade, as armas nucleares e a mudança climática”. Daí a decisão, sem precedentes, de alterar em 30 segundos o ponteiro do chamado Relógio do Fim do Mundo, que até então marcava três minutos para a meia-noite.

A eleição de Trump, seus comentários sobre o uso e a proliferação de armas nucleares e seu professo negacionismo das mudanças climáticas, dizem os cientistas atômicos, agravaram uma situação internacional que já era delicada devido às tensões entre Índia e Paquistão, entre EUA e Rússia sobre a Crimeia e a Síria e à aparente escalada atômica da Coreia do Norte.

“Mesmo que ele tenha acabado de assumir, as declarações destemperadas do presidente, sua falta de abertura a conselhos de especialistas e suas nomeações questionáveis para o gabinete já tornaram pior uma situação de segurança internacional que era muito ruim”.

A história do Relógio

O Relógio do Fim do Mundo foi criado há exatos 70 anos, em 1947, por alguns dos cientistas que desenvolveram a bomba atômica – e que entenderam antes de todo mundo o tamanho da ameaça que a arma representava. Desde então, ele é adiantado ou atrasado de acordo com o tamanho do risco de aniquilação da humanidade (representado pela meia-noite) por uma guerra nuclear e, mais recentemente, pelas ameaças combinadas entre guerra nuclear e mudança global do clima.

Sobre esta, embora reconheça o avanço representado pela ratificação do Acordo de Paris e pelo fato de as emissões de gases de efeito estufa terem se mantido estagnadas em 2016 no setor de energia, o Boletim dos Cientistas Atômicos afirma que as elas ainda não começaram a cair, como seria necessário para evitar um aquecimento global em níveis perigosos. O mundo continua a esquentar. E a equipe de Trump, lembra o boletim, conta com nomeações, “em especial para a Agência de Proteção Ambiental”, que “permitem vislumbrar a possibilidade de que a nova administração venha a ser abertamente hostil ao progresso no rumo, até mesmo, dos esforços mais modestos para evitar a mudança climática catastrófica”. Bingo.

A última vez em que o relógio esteve tão perto da meia-noite (três minutos) foi em 1984, durante o governo de outro republicano que, como Trump, saiu das telas de TV para a Casa Branca: Ronald Reagan. Foi o ponto mais tenso das relações americano-soviéticas desde a Crise dos Mísseis, com a proposta de Reagan de construir um escudo antimísseis no espaço – a chamada Guerra nas Estrelas. O ponto mais próximo (dois minutos) ocorreu em 1953, quando os americanos fizeram o primeiro teste da bomba de hidrogênio, o primeiro armamento capaz de destruir o planeta.

EUA, Rússia e China têm atualmente um estoque de bombas H capazes de aniquilar a Terra várias vezes (há 10 mil ogivas atômicas no mundo hoje, entre bombas H e A). O maior desses estoques está, hoje, nas mãos de Donald J. Trump que, entre outras boutades, sugeriu que Japão e Coreia do Sul, países não-nucleares, adquiram a bomba para fazer frente à Coreia do Norte. Pode se preocupar.

Ajudando a engrossar o caldo de ameaças globais está mais uma que também tem relação com Trump: o ciberespaço. O boletim cita a produção de notícias falsas e os ataques de hackers, como o que interferiu na eleição americana em favor do republicano – e que a inteligência dos EUA reputa a uma encomenda do governo russo – como elementos potencialmente desestabilizadores da civilização, isto somado a tecnologias de edição genética e a automação.

A nota dos cientistas atômicos termina com um chamado à razão dirigido aos líderes mundiais, em especial a Trump e Vladimir Putin: retomar as negociações de desarmamento, reduzam seus estoques de bombas, prestem atenção aos fatos e à ciência e cortem suas emissões. “Líderes públicos sábios deveriam agir imediatamente, tirando a humanidade da beira do abismo”, escreveram. E terminam com um sentimento que tem ecoado nos EUA nos últimos dias: “Se não o fizerem, cidadãos sábios devem dar um passo à frente e liderar”.

* Sim, nós sabemos que palavras como “fascista” não devem ser banalizadas. Mas as declarações e ações de Donald Trump contra grupos religiosos, imigrantes e a liberdade de expressão deixam pouca alternativa.

Foto: Divulgação

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Texto publicado originalmente no site do Observatório do Clima, em 26/1/2017

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