Cidade Gentil: campanha valoriza as boas ações

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Quem anda a pé por grandes cidades e nunca teve receio de atravessar a rua, na faixa, quando não há semáforo para garantir a travessia? E quando agraciado pela gentileza de um motorista: já celebrou e mostrou sua gratidão ou acha que é “obrigação dele, mesmo”?

Foi por viver e presenciar experiências, assim, tão antagônicas, e também por acreditar que, um dia, todos os motoristas serão gentis com os pedestres, que a diretora criativa Flávia Sakai não parou mais de prestar atenção às pequenas gentilezas. E foi quando se mudou para Moema, bairro de classe média alta em São Paulo – em boa parte, muito acolhedor por conta da abundância de árvores e das ruas largas -, que suas ideias de ‘mudar o mundo’ ganharam maior vigor. “Sempre usei muito o carro, mas quando me mudei para cá, quis andar mais. Logo percebi a rudeza com que as pessoas se tratam no trânsito, nas ruas”. A cada passeio, muita decepção sim, mas não foi isso que a tocou profundamente. “Às vezes, ficava desanimada e inconformada, mas não tinha vontade de brigar com quem não respeitava a faixa. Sentia-me tão feliz toda vez que algum carro parava, que minha vontade era conversar com o motorista, entregar-lhe uma carta, um mimo”.

Ao contrário do que a maioria faz, Flavia queria só contar boas histórias. E, em pouco tempo, descobriu que não estava sozinha: o namorado, a irmã, amigos, vizinhos e muitas pessoas à sua volta pensavam igual.

Sua admiração pelas intervenções urbanas artísticas e performáticas (como as de Eduardo Srur) e pelos movimentos de teatro, happenings e improvisos se intensificou. “Eu sempre acreditei que é possível causar reflexão pela surpresa”, conta. Assim, reuniu algumas pessoas que se identificavam com seus pensamentos e que engajaram outras pessoas criativas para lançar o movimento Cidade Gentil, no Dia do Pedestre (8 de agosto), com uma ação muito amorosa: presentear os bons motoristas com cataventos e uma cartinha simpática, com o título Somos todos pedestres. Eis o texto nele contido: Respeitar o pedestre é uma atitude de amor-próprio. É uma boa ação que desperta a gratidão do próximo e torna nossa cidade mais gentil. Se todos compartilharem essa ideia, teremos uma cidade melhor, mais segura e mais humana. Que tal fazer essa gentileza? A iniciativa teve a parceria da AMAM – Associação dos Moradores e Amigos de Moema

Uma semana antes, Flavia, a irmã Lia, o sobrinho Lucas (e seu amigo Felipe), a amiga Sandra Bisetto, os designers Ed Santana, Naná de Freitas e Renata Almeida (que criou o lindo logotipo), os jornalistas José Roosevelt Junior, Tatti Maeda e Katia Shimabukuro e o vídeo maker Alex Osai e sua equipe se reuniram para ensaiar a performance. “Fizemos dois ensaios, na verdade. Um deles, para marcação. O segundo, pra valer, exatamente no local onde faríamos a filmagem definitiva: nas esquinas das avenidas Pavão e Pintassilgo. E a receptividade foi ótima”.

Mas no dia da ação de fato, o clima mudou. “Era véspera do dia dos pais e o humor estava diferente. A gente sentia no ar”. Foram vários os motoristas que agiram agressivamente com os ativistas do bem: uma mulher buzinou e gritou para que todos saíssem da frente (“estava atrasada para um casamento”), um senhor ameaçou atropelar um dos participantes que estava de bike, e outro ainda saiu cantando os pneus. “Nós usamos o tempo exato da travessia ali, cronometramos tudo justamente para não dar motivos para reclamação. Por aí, você percebe o nível de doença das pessoas. Todo mundo está carente”. Claro que esse clima de mau humor mexeu um pouco com todos do grupo, mas não para desanimá-los. “Tivemos mais reações positivas do que negativas, mas as negativas pesam, viu? As crianças que estavam com a gente ficaram um pouco nervosas, nós também, mas isso, no final, acabou sendo motivador”, ressalta Flávia. “O que fizemos foi muito gratificante porque ajudou a trazer à tona o que a maioria das pessoas tem de bom”.

O resultado está no singelo vídeo de divulgação do movimento, que você pode assistir abaixo. “Nosso intuito com a edição desse vídeo é emocionar”, diz a designer. E pra não perder o ritmo, eles já estão preparando algo especial para o Dia da Gentileza, em 13 de novembro. Acompanhe as novidades do grupo pela página do Facebook.

“Nossa ideia de Cidade Gentil não se limita ao trânsito!”, ressalta Flávia. “Queremos chamar a atenção para os gestos amorosos que podem construir a cidade que queremos”. Por isso, não só os integrantes estão revelando histórias inspiradoras pela rede social: amigos, familiares e quem mais estiver interessado em contar sobre momentos emocionantes que viveu ou presenciou e transformam a rotina nas cidades, pode participar.

Agora, assista ao vídeo que resume a ação no Dia do Pedestre. Em seguida, destaco o logotipo da iniciativa, os cartazes usados na campanha e a foto de um dos motoristas mais simpáticos que receberam o “mimo” dos ativistas.

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Imagens: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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