Cidade “amiga das crianças” é uma cidade melhor para todos!

Quem nasceu nos anos 70, talvez ainda no começo dos 80, com certeza se lembra de que nessa época a rua ainda era também das crianças. Inclusive numa cidade como São Paulo. Ela não era apenas um cenário e, sim, uma protagonista das brincadeiras: mãe da rua e carrinho de rolimã, por exemplo, tinham que ser na rua. No meio da rua, mais precisamente. De repente, passava um carro e todos sabiam o que fazer: ir para o lado e esperar. O carro também passava devagar. Além disso, era normal circular pelo bairro, saber os pontos mais seguros para atravessar a rua, ir até a escola ou à padaria sozinho, comprar pão e picolé com o troco.

Quem diria que toda a geografia das crianças urbanas ia encolher tanto, para dentro das casas e dos carros! E sabemos que essa é uma dinâmica global das grandes cidades. Para devolver a rua para as crianças há que lutar contra a maré e estar disposto a não agradar a todos. E funciona!

No estado de Nordrhein-Westphalen, (NRW) na Alemanha, é política pública desde 2015, quando foi lançada a campanha Mehr freiraum Für Kinder: ein Gewinn für Alle (Mais espaço livre para as crianças: um ganho para todos). Os municípios recebem apoio técnico para criar condições adequadas para a mobilidade e o brincar livre e seguro de suas crianças nas ruas das cidades.

No início de abril, estive presente em um evento da campanha em Dusseldorf, onde cerca de 20 cidades estavam reunidas para trocar experiências sobre suas estratégias.

Muitos dos projetos giravam em torno de gerar estímulo, autonomia e segurança para os trajetos casa-escola a pé, com soluções bem simples. Quase todos os municípios começaram, por exemplo, um estudo em parceria com as escolas e famílias, para identificar os trajetos possíveis e os fatores que inibem essa mobilidade. Muitas vezes é a pressa dos familiares, outras um cruzamento perigoso.

Para cada caso uma alternativa: conversa durante reunião com os pais, mapas digitais e aplicativos sugerindo os melhores caminhos e até pedrinhas incrustadas no chão ou túneis de vegetação tornando o caminho mais atrativo para as crianças. Áreas para deixar e buscar as crianças foram a solução encontrada por várias cidades, também para desafogar o tráfego nas zonas imediatamente próximas à escola. Funciona como um ponto de ônibus a pé: a partir dali, as crianças seguem com um familiar voluntário ou funcionário da escola. Assim como já acontece na escola Equipe em São Paulo (veja o site do Carona a).

As ruas de brincar temporárias também foram a estrela em vários projetos. Como no nosso “dia da feira”, são trechos de ruas fechadas para o tráfego durante algumas horas, uma ou mais vezes por semana. Especialmente em cidades que perderam quase totalmente essa cultura, no começo é importante planejar ações especiais para esses dias, com voluntários para organizar brincadeiras com as crianças.

A cidade de Dortmund, por exemplo, oferece oficina de formação e materiais para quem quiser fazer esse trabalho. Também há um programa para formar multiplicadores mais especializados que atuam em grupos de pais, tentando ajudá-los a superar medos e preconceitos sobre deixar seus filhos brincarem nas ruas.

Espaços naturais de brincar nos arredores das escolas também se mostraram efetivos para estimular os professores a usarem mais o ambiente externo para suas aulas, e áreas-modelo dentro de bairros para servir de teste e vitrine de soluções e alternativas.

Para que sejam eficazes, as medidas precisam da aceitação e engajamento da comunidade local e de grupos de moradores. Envolver crianças e jovens no planejamento de espaços públicos e em projetos de mobilidade pode gerar soluções criativas e efetivas que não surgiriam da cabeça dos “técnicos-especialistas”.

Outro aprendizado gerado pela campanha mostra que o interesse das crianças não pode ser tratado como uma questão apenas de secretarias da infância ou da educação, e sim como um tema transversal na agenda local. Esse diálogo entre diferentes áreas do governo (educação, transporte, planejamento), e também junto a outras instituições e setores privados e da sociedade civil, é fundamental para ancorar o tema na política, garantir eficiência na alocação de recursos e gerar o máximo de seu potencial: é mais fácil e mais barato do que parece incluir um elemento “amigável à criança” em uma obra já planejada pelo município, inclusive com a participação de crianças no projeto.

A mensagem que levei para casa é de que uma cidade “amigável à criança” é possível com medidas descomplicadas e muito engajamento, mas vale a pena! Quase sempre significa uma vantagem competitiva para os municípios: atrai ou retém mais famílias e jovens e revitaliza a cidade, trazendo melhoria para a vida de todos os seus habitantes. Ela é um bom branding, temos que aprender a melhor promovê-la!

Nas fotos deste post, alguns momentos do encontro de crianças nas ruas da cidade de Kerpen, na Alemanha.

Fotos: Michele Maske/Kerpen

Geógrafa, mestre em Governança Ambiental, profissional na área da cooperação para o desenvolvimento com experiência em temas como energia, mudanças climáticas e desenvolvimento de capacidades. Cofundadora do projeto Nosso Quintal, no Rio de Janeiro, mora com a família na Alemanha e colabora com o programa Criança e Natureza do Alana

Tatiana Cyro Costa

Geógrafa, mestre em Governança Ambiental, profissional na área da cooperação para o desenvolvimento com experiência em temas como energia, mudanças climáticas e desenvolvimento de capacidades. Cofundadora do projeto Nosso Quintal, no Rio de Janeiro, mora com a família na Alemanha e colabora com o programa Criança e Natureza do Alana

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