Chicago elege a primeira prefeita negra e lésbica da história dos Estados Unidos

Há de chegar o dia em que este tipo de fato não será mais notícia, nem tenha que ser celebrado como conquista. Um período em que será corriqueiro ter pessoas de qualquer raça ou gênero à frente de cargos de gestão públicaeleitas pelo povo.

Mas, enquanto isso não acontece, comemoremos mais esta vitória: a eleição da americana Lori Lightfoot, que se tornou prefeita de uma das maiores e violentas cidades dos Estados Unidos, Chicago, sendo lésbica e negra. Esta não é apenas a conquista de alguém dedicado à luta pelos direitos humanos: é também uma vitória contra o preconceito, neste momento em que o país é comandado por um homem machista, racista e homofóbico, só para citar algumas de suas falhas de caráter.

Mas, antes mesmo da vitória de Lori – que conquistou 74% dos votos -, estas eleições em Chicago já revelavam importante cenário de mudança. A outra candidata à prefeitura, Toni Preckwinckle, também é negra é lésbica, e conquistou a simpatia de 26% da população. Com mais um detalhe: ambas não são jovens: Lori tem 56 anos e Toni, 72.

As duas são democratas e disputaram o segundo turno depois de obterem a maior quantidade de votos entre 14 candidatos nas eleições de fevereiro. O prefeito atual, Rahm Emanuel, não buscou a reeleição.

Ao contrário de Toni, que foi vereadora da cidade por quase 20 anos, Lori nunca ocupou cargo político, nem havia disputado um cargo eletivo. Foi promotora federal. “Vocês não se limitaram a fazer história, criaram um movimento de mudança”, disse ela em ato público logo que soube do resultado.

Com o apoio já declarado de sua adversária nas urnas, Lori assume a prefeitura em 20 de maio com projeto bastante focado no combate à corrupção e à violência. Ela disse que quer reconstruir Chicago com todos.

É um desafio e tanto, realmente, se pensarmos apenas na violência que corrói a cidade. No ano passado, num único fim de semana, foram registrados pela polícia 60 feriados a tiros. Em uma única noite, em agosto, foram mais de 40 pessoas baleadas em ataques por gangues; quatro morreram. De acordo com a revista Forbes, “em 2016, ocorreram 762 assassinatos, 3.500 incidentes com tiros e 4.331 vítimas de disparos (ou uma média de 12 pessoas feridas por dia). A Cidade dos Ventos, como é conhecida, vivenciou mais assassinatos que Nova York e Los Angeles juntas no último ano. O número de homicídios por lá, desde 2001, ultrapassou, também, a quantidade de norte-americanos mortos na guerra, no Iraque e no Afeganistão, em novembro de 2016”.

Mas não só corrupção e criminalidade vão tirar o sono de Lori. A cidade tem um déficit de orçamento estimado em 252 milhões de dólares para o ano fiscal de 2020, além de passivo não capitalizado de 28 milhões de dólares e a crescente contribuição anual para o fundo de pensões que atingirá 2 milhões de dólares em 2023, de acordo com a Reuters.

Já estamos, aqui, torcendo para que faça um lindo trabalho, apesar de tantas adversidades. E que esta eleição ajude a transformar o olhar dos americanos para o preconceito e a desigualdade de gênero.

Foto: Divulgação/Lori for Chicago

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta