Cheirinho fatal é a salvação do arroz

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A habilidade dos químicos em imitar um “cheirinho” liberado pelos machos para atrair as fêmeas pode livrar as plantações de arroz do percevejo-do-colmo (Tibraca limbativentris). Com armadilhas de feromônio, os produtores, os consumidores e o meio ambiente também se livram dos pesticidas, atualmente empregados no combate a essa praga, cujo dano pode reduzir a produção de grãos de arroz em 80%.

Os percevejos são insetos sugadores e os dessa espécie, em particular, se posicionam bem no coração da planta, sugando a seiva na base dos caules (colmos). Ali, fica difícil tanto localizar a praga como combatê-la com a pulverização de inseticidas (e, por isso, se gasta muito veneno para obter pouco resultado). A vantagem do feromônio – o tal “cheirinho” – é que ele tira as fêmeas lá do meio do arrozal e as faz cair numa armadilha. O produtor consegue, a um tempo, avaliar o grau de infestação e eliminar a próxima geração de percevejos.

“Depois que extraímos esse feromônio dos percevejos machos, estudamos sua composição química, sintetizamos a molécula em laboratório e testamos sua eficiência”, conta Miguel Borges, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. “Agora temos uma síntese química que imita o feromônio do percevejo-do-colmo macho e pode ser colocada num substrato – uma borracha, por exemplo – liberando o “cheirinho” ao longo do dia, na mesma proporção que o inseto liberaria”. O feromônio é específico: não atrai nenhuma outra espécie e não é sequer sentido pelo homem.

O substrato é colocado dentro de uma armadilha para onde são atraídas as fêmeas, que deixam de procriar e são eliminadas. Diversos modelos de armadilhas foram testados e o mais eficiente foi o tipo caseiro: uma garrafa PET transparente, de 2 litros, com a boca cortada e invertida, como um funil, de modo a facilitar a entrada das fêmeas, mas dificultar sua saída. As armadilhas são suspensas em uma estaca, nos limites da plantação de arroz. E servem tanto para o arroz irrigado como para o arroz de sequeiro, pois ambos são atacados pelo percevejo-do-colmo.

A tecnologia ainda não está disponível no mercado, mas acaba de obter patente junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Quer dizer, está tudo pronto para a produção em escala e comercialização, o que deve ser feito por uma empresa privada após o estabelecimento de parceria com a pesquisa. A autoria da patente é de Miguel Borges, Maria Carolina Blassioli Moraes, Raul Alberto Laumann e José Alexandre Freitas Barrigossi, sendo os três primeiros da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e o último da Embrapa Arroz e Feijão.

De acordo com Miguel Borges, o ideal seria ainda investir em estudos sobre a ecologia do percevejo. “Sabemos que ele hiberna no solo, nas regiões mais frias, como o Rio Grande do Sul. Se conhecermos melhor o período de hibernação, em qual tipo de ambiente ele hiberna e de onde esse percevejo sai para atacar os arrozais, podemos sugerir uma estratégia de barreira de atração com feromônio, de modo a impedir a praga de chegar à lavoura”, explica o pesquisador.

De qualquer forma, as armadilhas com o cheirinho fatal já podem fazer uma grande diferença, como aconteceu na soja, com o percevejo-marrom (Euschistus heros). Dos 6 milhões de litros de inseticidas antes utilizados anualmente no combate a essa praga, o Brasil já eliminou metade, utilizando tecnologia semelhante à patenteada para o percevejo do arroz, igualmente desenvolvida pela Embrapa.

E os pesquisadores também estão trabalhando para sintetizar uma molécula capaz de atrair as fêmeas do bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis), outra praga de grande relevância econômica, responsável pela redução drástica da cultura do algodão no país desde os anos 1990. O bicudo ataca a flor do algodoeiro, penetrando em seu interior, onde dificilmente é atingido pelos pesticidas.

Assim, de cheiro em cheiro, a pesquisa vai substituindo os venenos por tecnologia limpa e eficiente!

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Fotos: Liana John (lavoura de arroz irrigado, ao alto)

             Diones Krinski (percevejo-do-colmo, acima)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Um comentário em “Cheirinho fatal é a salvação do arroz

  • 19 de maio de 2016 em 12:13 PM
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    Excelente. Parabéns aos incansáveis pesquisadores da Embrapa.

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