Chef Olivier Anquier se recusa a adotar medidas para conter o coronavírus, que chama de ‘paranoia injetada à força’

“Eu me recuso! Eu me recuso a aceitar essa paranóia injetada a força. Eu me recuso a ser hipócrita. Eu me recuso a ser covarde. Me recuso a ser mais um boi do rebanho. Me recuso a me esconder em casa e abandonar meus clientes que saíram de casa e foram nas minhas padarias ou restaurantes”. Este é apenas um trecho do post publicado hoje, em suas redes sociais – Facebook e Instagram -, pelo chef de cozinha e apresentador francês, naturalizado brasileiro, Olivier Anquier, que mora no Brasil desde 1979 e tem dois restaurantes na capital paulista.

Ele criticou, de forma irresponsável, as medidas de prevenção contra o coronavírus, para que a doença não se alastre – entre elas, ficar em casa -, tomadas e indicadas pelo Ministério da Saúde e pelo SUS. Lembrando que esta orientação é corroborada por inúmeros especialistas, de diversas áreas, não só infectologistas.

“Faço questão de estar presente e de cumprimentar cada um dos meus clientes, como fiz ontem de manhã antes de viajar para São Sebastião para que, no final da tarde, pudesse apresentar o meu show a uma plateia composta de gente simples de todas as idades que veio, em peso e feliz, e pensa como eu. Até porque, para muitos, a realidade da vida é muito mais cruel e violenta que o corona”, acrescentou o chef.

Ele disse que não aceita argumentos de quem nunca fez nada para conter problemas que, segundo ele, são infinitamente maiores, como epidemia de dengue, assassinato por criminalidade, acidentes rodoviários, barragens que se abrem, tragédias causadas pelas chuvas, entre outros. Disse: “No Brasil, nem chegamos a 200 casos de infetados e temos zero falecimento em um população que beira os 200 milhões. Essa realidade é pífia comparada a realidade das misérias do nosso pais. Não embarco nessa e a notoriedade que a população me ofereceu não me obriga a mugir no meio do rebanho”.

Podemos, até, entender sua revolta. Mas isso em nada contribui para lutar contra o problema que se apresenta e que assola o mundo, sem distinção. ,E ele quer dizer que devemos agir apenas quando o quadro é grave? Os casos apontados por ele continuarão a existir, independente de sua atitude. E, se o Brasil não se empenhar para evitar que o contágio se alastre, continuará tendo todos esses problemas para resolver e mais o coronavírus.

Com um detalhe: isso, em um sistema de saúde pública, que já foi considerado modelo em diversas partes do mundo, mas foi desmantelado pelo governo Bolsonaro e está sem dinheiro, equipamentos, equipes de enfermagem e médicos. Quanto menos doentes tivermos pra tratar, melhor. E é esse o objetivo da campanha do ministério.

Reação imediata

No Instagram, Olivier tem mais de 600 mil seguidores. E claro que a reação a seus comentários obtusos e irresponsáveis foi rápida, entre celebridades e fãs:-

“Que você consiga ler e entender o que está acontecendo. Que pena”, desejou Antonia Fontenelle, atriz e vlogueira‘;

– “É delicada a linha entre o não entrar em pânico e ser irresponsável. Todo cuidado é pouco”, alertou a apresentadora e cineasta Marina Person;

– “Uma pena, uma temeridade você não reconhecer a gravidade da situação. Estamos só no começo da chegada do vírus aqui. Todos os países que desconsideraram sua importância estão numa severa crise sanitária agora. Isso se chama egoísmo e irresponsabilidade”, lamentou a atriz Julia Lemmertz;

“Vai ver o mundo inteiro deva estar com a visão quadrada!! Quando a maioria dos países decide fechar suas fronteiras e tentar conter o avanço de uma pandemia sem precedentes, cujo combate, no Brasil é ainda mais difícil, só sendo muito quadrado. Quem não pensa no coletivo e não tem nenhum senso de solidariedade, só tendo a visão voltada para o dinheiro, é o que???”, disse Maria Luísa Costa.

“Para que está feio. Releia o que você escreveu e faça uma autocrítica. É o mínimo que se espera de uma pessoa sempre tão elegante no falar e agir”, comentou Cidadão7175.

“Despencou no meu conceito, você pode até não fechar seu estabelecimento, mas pode ter certeza que, por esta postura, mesmo aberto, muitos potenciais clientes não pisarão em seus estabelecimentos, inclusive eu”, sentenciou Samuel Rakse;

“Está preocupado em perder dinheiro? Devia estar preocupado com as milhares de pessoas que irão morrer por falta de leito nos hospitais!”, escreveu Babi Caramez.

Olivier é um cara culto e bem informado, mas fez o mesmo que Bolsonaro: contrariou as orientações de médicos, teve contato físico com outras pessoas e, assim, colocou inúmeras pessoas em risco, que também não têm noção do perigo e da importância de se conter o avanço do contágio.

OMS revela que há registros de morte de crianças por coronavírus

Claro que não se deve entrar em pânico – o que só piora o cenário -, mas ignorar medidas de contenção da doença que já atingiu 114 países, já matou mais de 7 mil pessoas, sendo 3.271 na China, e tem 170 mil casos confirmados no mundo, 81 mil na China. Mais: nesta segunda-feira, a o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, revelou que há registro de morte de crianças pelo vírus, sem dar maiores detalhes.

“Não podemos dizer universalmente que é leve em crianças. Então, é importante que protejamos as crianças como uma população vulnerável”, acrescentou Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS. “O que não sabemos ainda – porque ainda não temos o resultado de enquetes sorológicas – é a extensão da infecção assintomática em crianças”.

O Brasil tem 234 casos confirmados e mais de 2 mil suspeitos de Covid-19 até hoje, 16/3. O vírus está presente em 14 estados e mais no Distrito Federal. É pouco perto de outros países? É, mas não estamos numa competição. E a missão de todos, agora, é evitar que os casos se alastrem. E isso é muito fácil.

O primeiro brasileiro com coronavírus foi diagnosticado assim que chegou de uma viagem à Itália – um dos países mais castigados pela doença -, tratado e curado. Mas isto não significa que ele pode relaxar. Não está imune á doença novamente. E pode ter sequelas nos pulmões, que já foram identificadas por médicos chineses, mas ainda serão confirmadas.

Quando se trata de saúde e de proteger a vida, em geral, esperamos um mínimo de empatia dos seres humanos. Mas sempre há quem nos surpreenda negativamente e que se supere em atitudes e declarações maldosas e egoístas. E negacionistas. Devemos lamentar, mas apelar para o bom senso, para que repensem e reconsiderem, para que compreendam a real dimensão da situação.

Mas quando essa pessoa é o presidente do país, além de nos preocuparmos fortemente, é importante fortalecemos nossos ideais e o que desejamos no futuro, já nos preparando para as próximas eleições. Melhor: cobrar de instituições como o STF e políticos como os parlamentares do Congresso para que lutem para neutralizar decisões tão vis, e ainda pautadas em mentiras. Com a vida não se brinca, e Bolsonaro não tem feito outra coisa desde que assumiu o governo. Só não vê, quem não quer.

Abaixo, o post “sem noção”, no Instagram:

Foto: Reprodução/Facebook

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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