Cerveja e chocolate com pimenta Baniwa: valorização da sociobiodiversidade amazônica

Neste verão de temperaturas acima da média, uma cerveja gelada cai bem. As artesanais são minhas preferidas. Adoro saborear, perceber amargor, elementos e especiarias agregados para dar um toque único a cada uma delas. Mas a cerveja da qual vou falar, hoje, eu ainda não experimentei. É a Baniwa Chilli Saison, lançada pela Hopfully Brewing, microcervejaria irlandesa.

Nem preciso, mas já digo qual é seu ingrediente de destaque: a pimenta Baniwa. E eu fiquei cá com água na boca.

A Baniwa Chilli Saison é feita com abacaxi, hortelã e pimenta. Lançada em 2018 na Alltech Craft Brews & Food Fair em Dublin, foi vendida também em pubs locais de cervejas artesanais irlandesas. Sendo uma cerveja sazonal, a produção, em volume reduzido, foi logo vendida. Mas a Hopfully Brewing pensa em voltar a produzi-la, com possibilidade de exportação para o Brasil e uso de outros ingredientes amazônicos em suas receitas. Vi um ou dois depoimentos de críticos que elegeram essa como a melhor cerveja da série saison da Hopfully Brewing.

A aproximação entre a cervejaria e a Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI) foi intermediada pelo Instituto Socioambiental (ISA). Em acordo com a OIBI, a microcervejaria, além de comprar a pimenta Baniwa, se comprometeu a repassar 10% do valor da produção à Organização, apoiando a Rede de Casas de Pimenta.

André Baniwa, presidente e cofundador da OIBI, avalia que a experiência pioneira com a microcervejaria irlandesa vai inspirar outras possibilidades para a pimenta além da venda para uso gastronômico, e também novos arranjos econômicos. Uma desas possibilidades eu conheci no final do ano passado, e até contei aqui no Conexão: a parceria com os chocolates Na’kau, que produziu uma variedade com a pimenta dos Baniwa.

“O caso da cerveja virou modelo para outros acordos de cessão do nome Baniwa. Isso está ficando interessante. Acho que temos chance de produzir e lançar novos produtos. A diversidade que temos na roça é grande, tem muita coisa da gastronomia indígena para trazer para o mercado brasileiro, e até para o internacional”.

A Pimenta Baniwa é composta por mais de 70 variedades cultivadas pelas mulheres em roças e quintais agroflorestais no noroeste amazônico. Para valorizar esse alimento, uma rede de parceiros que envolve o ISA, o Instituto ATÁ e a OIBI se uniram em torno de um acordo de cogestão com associações de base, escolas e comunidades do rio Içana. Foi criada a Rede da Casas de Pimenta para manipular e preparar esse alimento para a comercialização.

Segundo informações do ISA, na publicação Pimenta Jequitaia Baniwa, lançada no fim de 2015, o projeto contava com aproximadamente 30 parceiros comerciais nos estados do Amazonas, Roraima, Distrito Federal, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Também no mesmo ano, a partir da ampliação da quantidade de Casas de Pimenta e do aumento consequente da produção, foi realizada a primeira transação internacional, com exportação de pimenta Baniwa para Amsterdã, na Holanda.

André Baniwa diz que, com essas experiências, os jovens já se desenvolvem a partir de um olhar mais empreendedor para a valorização da cultura indígena. A OIBI também trabalha com cestarias e essa experiência ajudou a estruturar a cadeia da pimenta Baniwa. “A nossa ideia é formular uma estratégia de sustentabilidade para o povo Baniwa. E as escolas aqui ajudaram a envolver os jovens em pesquisa científica, ao mesmo tempo em que aprendem sobre a comunidade, a associação, a questão cultural e a organização social e política. Podemos gerar sustentabilidade com os produtos da nossa cultura”.

A pimenta é uma delícia que eu já provei, incrivelmente saborosa. Eu trouxe da Amazônia, mas ela é encontrada em vários pontos de venda em São Paulo e pelo Brasil, além de ter um representante nos Estados Unidos e oser vendida online (clique aqui para saber todos os endereços). E o chocolate da Nak’au também. Agora, aguardo ansiosamente a possibilidade de provar a Baniwa Chilli Saison.

Esses arranjos demonstram que a valorização da sociobiodiversidade da floresta Amazônica não só é possível como já está acontecendo.

Foto: Hopfully Brewing/Divulgação

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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