Cerrado, o jardim do Brasil

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Nos recônditos do Cerrado, a região centro-norte mineira, chamada de Grande Sertão pelo escritor João Guimarães Rosa, guarda o caminho das flores das Gerais. São centenas de plantas a espalhar as sementes de uma tradição secular nos altos da Serra do Espinhaço. Entre tantas que se alastram pela imensidão de campos rupestres, a sempre-viva se destaca pela beleza, simplicidade e resistência ao tempo.

A flor não perde a graça, a forma e a cor mesmo depois de colhida, razão pela qual se tornou a principal fonte de renda das famílias residentes. Mais de três mil pessoas se alimentam da mesma cadeia de produção. Flores, frutos, folhas – a fartura da terra embala o ritmo de vida da população que busca na natureza recursos para a subsistência. Dezenas de vilarejos se distribuem pelo território no qual floresce, nas palavras do paisagista Roberto Burle Marx, o jardim do Brasil.

Galheiros foi a primeira comunidade a dar passos no desenvolvimento de estudos sobre o manejo adequado da flora. Lá, um grupo de mulheres da mesma família atentou para a importância de realinhar o trabalho. Por meio da produção artesanal, criaram amplas oportunidades de comércio.

cerrado-o-jardim-do-brasil-juracy-ivete-ivanete-andre-dib-conexao-planetaIvete Borges da Silva, 45 anos (na foto ao lado, entre as primas Juracy e Ivanete), tem o olhar firme de uma líder dentro da Associação dos Artesãos de Sempre-Vivas – fundada em 2001. Coletora e artesã desde menina, ela conta que a manipulação consciente das flores foi o passo assertivo para o alcance de bons resultados. “A sempre-viva é uma tradição que passa de mãe/pai para filhos. A partir do surgimento do artesanato, paramos de agredir a natureza. Hoje, todos sabem como colher as flores sem causar danos”.

Sua história se entrelaça com a da maioria na vila. Um pedaço de chão verde, com ruelas entrecruzadas e casas dispersas. Pelos quintais, as sempre-vivas marcam presença como amigas de longa data. Ivete é filha de Maria Araújo (na foto que abre este post), matriarca da família Borges. Com 88 anos, a senhora doce como o vento primaveril que soprava naquele maio, fala que antigamente se coletava e levava para vender em cima de mula. “A gente levantava cedo. Meu pai e as meninas mais velhas saíam pra acampar nas lapas. Eu ficava com a minha mãe em casa por ser a mais nova. Saía pra colher nas portas, mais perto, né? Eu colho desde os dez anos. Depois, na adolescência, já acompanhava a turma”.

Os coletores passavam uma semana arranchados na serra. Voltavam com os cargueiros cheios de flor. “O costume era subir sempre que tinha colheita. A gente só pegava a pé de ouro, que é a sempre-viva verdadeira. Os campos ficavam carregados de tanta flor. Tinha flor até aqui na porta de casa. Por isso, quando menor, saía só pela vizinhança. Apanhava uns pacotões. Já dava uma quantidade boa. O problema era que tiravam muita e do jeito errado. Então ela foi diminuindo”, afirma Maria.

A ação conjunta entre artesãos e agentes como empresas particulares e Universidades vêm transformando a realidade social da região, localizada na zona rural de Diamantina. Maria relata que a equipe de técnicos chegou com o objetivo de capacitar os moradores para a realização de um projeto ambientalmente viável . “Os especialistas foram acolhidos aqui. Marcaram reunião. Pediram pra gente fazer um levantamento das plantas. Qual que tava acabando? Qual que poderia ser colhida? Mostraram que a gente não tava deixando semente no campo, tava colhendo de qualquer jeito, queimando em época errada. Ficamos dois anos só de curso. Depois é que eles trouxeram um professor pra ensinar o artesanato”.

Os moradores cultivam as espécies ameaçadas de extinção como pé-de-ouro e chuveirinho em um campo experimental de 300 metros quadrados. A colheita é realizada também em campos naturais, espalhados pela serra. “Cada mês, colhe-se um tipo de flor e cada um colhe de 20 a 30 quilos por espécie. Para nós, é um privilégio servir de exemplo para as novas gerações, que terão condições de dar continuidade a essa história. Sou orgulhosa do meu trabalho”, diz Ivete. O negócio deu tão certo que as peças produzidas são expostas em feiras e lojas de Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes e Belo Horizonte, e em eventos de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife. Há três anos, ganharam o mundo na mostra Mulher Artesã Brasileira, promovida na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Juracy Borges da Silva representou Galheiros na exposição. “Foi uma grande alegria poder levar o nosso trabalho para fora, mostrando para todos a simplicidade do nosso povo”.

Na região de biodiversidade farta, o vínculo do sertanejo com as flores tem a medida certa para a manutenção da cultura popular integrada ao meio ambiente. Há que se ter atenção a este movimento, pois a tradição tem um espaço de direito que deve ser assegurado hoje para que a perspectiva de futuro seja a de multiplicação.

Políticas públicas que instrumentalizem as comunidades para que consigam se autogerir sem que precisem abrir mão da prática extrativista seriam iniciativas fundamentais. Afinal, estabelecer o homem no campo é dar a ele estabilidade no lugar que escolheu para ser feliz. Trata-se de um caminho para muitos que habitam este Brasil distante, porém auspicioso.

Agora, delicie-se com os retratos que André Dib fez de alguns dos personagens que encontramos pelo caminho. Na imagem que abre este post, Maria Araújo separa as sempre-vivas por tipo na varanda de sua casa, em Galheiros.

sempre-vivas-flores-do-sertao-mulher-com-flores-na-cabeca-foto-andre-dib-conexao-planetaA matriarca da família Borges, aqui também, transportando molhos de flores para o galpão da Associação,
onde é produzido todo o artesanato de Galheiros

sempre-vivas-flores-do-sertao-mulher-foto-andre-dib-conexao-planetaA coletora de flores Anita Rodrigues, que segura dois ramalhetes de sempre-vivas no depósito
ao lado de sua casa, em Capivari, município do Serro (ela é quem ilustra o primeiro post deste blog, lembra?).

sempre-vivas-flores-do-sertao-homem-colhendo-foto-andre-dib-conexao-planetaAntônio Borges coleta flores no campo experimental de Galheiros, 
comunidade modelo em desenvolvimento sustentável no Brasil e no mundo

sempre-vivas-flores-do-sertao-homem-foto-andre-dib-conexao-planetaColeta de maio em campo natural de sempre-vivas, na Serra do Espinhaço

Fotos: André Dib

Carolina Pinheiro

Jornalista e documentarista, colabora com importantes publicações nacionais e internacionais. Viaja o Brasil atrás das histórias do povo, de cantos que não constam no mapa, de lugares distantes das principais rodovias. Traz a reportagem na veia. Em 2014, fundou a Nascente Casa Editorial, onde trabalha com a produção de conteúdo sobre cultura popular, meio ambiente e turismo sustentável no país.

2 comentários em “Cerrado, o jardim do Brasil

  • 6 de dezembro de 2016 em 5:50 PM
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    Que bom conhecer estas histórias e abrir os olhos para outras realidades deste nosso Brasil! Parabéns!

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    • 7 de dezembro de 2016 em 8:05 AM
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      Esta é a ideia, irmã! Obrigada pelas palavras! Beijos

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