Cercado por três furacões e uma tempestade, Havaí tem chuva recorde


Cercado por três furacões e uma tempestade, Havaí tem chuva recorde

Uma sequência de quatro tempestades tropicais no Pacífico norte — a segunda delas um furacão com grande carga d’água — está dando amostra neste verão de como o Havaí pode vir a ser afetado pelas mudanças climáticas. Após a passagem do furacão Lane, a Grande Ilha do arquipélago registrou no fim de semana passado o terceiro maior volume de chuva já visto em sua história.

A cidade havaiana de Hilo, que em média já é a mais chuvosa de todo território americano, teve durante quatro dias um total de 1,30 metro de chuva numa de suas estações meteorológicas. Volume de água igual só tinha sido visto com o furacão Harvey, no ano passado, e antes disso só com o Hiki, em 1950.

O recorde foi registrado dois meses após a publicação de um estudo propondo explicar em parte o que acontece ali. À medida que a mudança climática avança, os furacões, mesmo quando são muito fortes, tendem a se deslocar mais devagar, de forma que coletam mais água por onde passam.

O Lane foi o segundo furacão da região a atingir categoria 5 (a mais forte), desde que o USGS começou a monitorar tempestades, mas seus ventos já estavam relativamente fracos quando chegou às ilhas, já rebaixado à categoria de tempestade tropical. O pior do evento foi mesmo a enxurrada. Ainda debaixo de chuva nesta quarta-feira, autoridades locais avaliam o tamanho do estrago que alagamentos e deslizamento causaram no fim de semana.

Cientistas se debruçam agora sobre os dados mais recentes para saber quão incomum foi o Lane, que passou perto do Havaí logo depois do Hector, uma tempestade originada essencialmente de temperaturas incomuns registradas na superfície do oceano Pacífico. Outras duas tempestades cercavam arquipélago na noite passada, o Miriam, que já passou do ponto mais próximo da ilha, e o Norman, que já virou furacão, mas cuja trajetória oferece menor risco que a do Lane.

Mudanças climáticas

Não é possível ainda dizer o quanto desses três eventos específicos podem ser atribuídos ao aquecimento global, mas já está claro que essa é uma temporada incomum de furacões no Pacífico Norte. Estudos mais detalhados capazes de calcular a parcela de culpa do aquecimento global no agravamento desse tipo de evento climático extremo levam alguns meses para serem feitos, e a temporada de furacões na região nem sequer acabou.

Autoridades de defesa civil do Havaí, de qualquer forma, já se preparam para ter de manter uma infraestrutura mais robusta de alerta e resgate. Uma preocupação particularmente séria desta vez foi que, antes da chegada do Hector, muitas pessoas já tinham sido desabrigadas pela erupção do vulcão Kilauea. Algumas delas estavam vivendo em cabanas improvisadas e tiveram de ser deslocadas para locais mais seguros com a chegada do furacão. A chuva sobre a lava quente, além disso, criou uma névoa que obrigou autoridades a bloquearem algumas estradas por problemas de visibilidade.

O impacto das mudanças climáticas no Havaí — que vai se dar também muito por elevação do nível do mar, não apenas por eventos meteorológicos extremos — já preocupa uma das forças motrizes da economia local: o turismo. Temporadas mais longas de tempestades podem ter um efeito negativo na receita de hotéis e resorts em futuros verões. Após o lançamento do último relatório de avaliação do IPCC, em 2014, a Autoridade Local de Turismo já havia encomendado um estudo mapeando o que as conclusões do painel do clima da ONU representam para o arquipélago.

Um paradoxo existe quando se fala dos surfistas, porém, porque as tempestades às vezes despertam o desejo de alguns incautos que gostam de ir ao mar revolto para encontrar as maiores ondas. Aí a preocupação dos salva vidas locais é a de evitar incidentes. Com essa classe de tempestades, o perigo não está apenas no tamanho das ondas. Aqueles que levaram suas pranchas às águas desta vez, por exemplo, tiveram que desviar de entulho e troncos de árvores tragados na ressaca atiçada pelo Lane.

*Texto publicado originalmente em 30/08/2018 no site do Observatório do Clima

Foto: divulgação Nasa

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