Cera de carnaúba “al dente” ajuda a cuidar da saúde bucal

Se existe uma cera verdadeiramente multiuso, é a cera de carnaúba. Reverenciada pelos amantes de carros bem polidos, pranchas de surfe totalmente impermeáveis e móveis bem protegidos, esse produto natural retirado das folhas da carnaubeira (Copernicia prunifera) tem numerosas aplicações, incluindo algumas de alta tecnologia e grande especificidade.

Originalmente, a cera existe para manter a umidade nas folhas espalmadas da palmeira sertaneja, com 1,5 metro de diâmetro, em média. A cera forma uma camada impermeável, restringindo a transpiração da planta. Isso faz parte da estratégia da espécie para resistir ao sol quente da Caatinga. Graças às suas folhas enceradas, os elegantes carnaubais vicejam mesmo quando as raízes lutam para encontrar água no solo esturricado pela estiagem, mesmo quando a seca é muito prolongada.

E também ajudam a planta a se manter viva em terras argilosas demais, salinizadas ou temporariamente encharcadas por chuvas que caem todas de uma vez só e se acumulam nos baixios. Em meio aos extremos do semiárido nordestino, a carnaubeira desenvolveu uma proteção singular. E a Humanidade logo tratou de estudar meios de usar essa proteção em seu favor.

Só na Odontologia, a cera de carnaúba desempenha diversos papeis. Está espalhada, por exemplo, ao longo do fio dental encerado, com a função de fazê-lo deslizar pelo meio dos dentes, mantendo as gengivas sadias e retirando restos de alimentos sem machucar, sobretudo para quem tem pouco espaço entre os dentes.

Na hora de esculpir uma restauração ou um aparelho ortodôntico, a cera de carnaúba contribui novamente, desta vez na composição da massa de modelagem, para conferir mais dureza, rigidez e resistência ao material. Além disso, ela aumenta o ponto de fusão da cera de abelhas e da parafina, às quais costuma ser misturada nos moldes. O intervalo de fusão da cera de carnaúba pura vai de 80 a 85 graus centígrados, enquanto o da cera de abelhas fica entre 63 e 70 graus centígrados e o da parafina entre 48 e 70 graus centígrados.

Conforme informa Frank Kaiser, em artigo dirigido a dentistas, se a restauração tem cantos muito finos, aumenta a proporção de cera de carnaúba no molde, porque ela combina dureza e precisão, facilitando o trabalho do especialista em uma técnica chamada fresagem. Se o caso é esculpir uma prótese fixa ou uma ponte parcial removível (PPR), a cera de carnaúba ganha a companhia da goma Dammar, uma resina natural obtida de acácias (árvores dos gêneros Shorea, Balanocarpus e Hopea) originárias da índia e Leste da Ásia.

Claro que essas ceras odontológicas de moldagem já são comercializadas prontas e a maioria dos profissionais desconhece sua composição. Os pacientes então, nem desconfiam. Mas é bom saber que tem um dedinho de natureza desempenhando funções tão específicas e importantes para a nossa saúde bucal.

Fotos: Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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