Censura de Crivella à gibi na Bienal mobiliza youtuber famoso, resulta em campanha bem humorada, “briga” de juízes e fake news

Atualizado em 13/9/2019

Assim que soube da decisão do prefeito carioca, Marcelo Crivella, de mandar apreender o gibi da Marvel “Vingadores – A Cruzada das Crianças” -, na Bienal do Livro, por considerar seu conteúdo impróprio (traz “conteúdo sexual para menores”, alegou) -, o quinto maior youtuber do mundo, Felipe Neto, se mobilizou. Protestou em seus perfis nas redes sociais e, logo em seguida, anunciou a compra de todos os livros com temática LGBT que estavam sendo comercializados nessa feira do livro, além de sua distribuição gratuita no dia seguinte na área externa ao evento.

Só pra constar, no Instagram, Felipe tem mais de 11 milhões de seguidores. No You Tube, tem mais de 34 milhões de inscritos.

Para provocar ainda mais o prefeito – que ordenou que esse “tipo de publicação” seja embalada em plástico preto com etiqueta que aponte informações sobre o conteúdo – e chamar a atenção para o absurdo de sua postura – censura! – Felipe resolveu adotar a ideia de embalar os livros com plástico preto, mas alterou a mensagem da etiqueta adesiva impressa para fechar o pacote “Este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas. Felipe Neto agradece a sua luta pela inclusão e pela diversidade” foi seu recado.

O cara é bom de marketing, de merchandising e de ativismo. Causou, claro!

Marketing de guerrilha por uma boa causa

Os interessados em apoiar a mobilização de Felipe e ganhar um livro sem saber o titulo, formaram filas imensas na área externa da Bienal. Lá dentro, o público também protestou gritando palavras de ordem contra a decisão de Crivella e do desembargador Cláudio de Mello Tavares, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), que autorizou a apreensão dos livros. Com essa decisão, suspendeu a decisão de Heleno Ribeiro, seu colega, que havia negado o pedido de Crivella. Uma balbúrdia!

Fiscais da prefeitura já haviam passado pela feira do livro na quinta, 5/9, para “garantir a ordem”, e voltaram no sábado, para recolher o tal material, agora com mais um aval da Justiça. Mas não conseguiram cumprir sua missão porque todas as publicações “desse tipo” já haviam sido distribuídas pela equipe contratada por Felipe. Marketing de guerrilha por uma boa causa.

TRECHO INSERIDO EM 13/9/2019
A iniciativa rendeu ameaças e provocações pela internet e uma
série de fake news contra o youtuber: entre elas, montagens que descontextualizaram trechos de programas seus, e afirmações de que ele promove pedofilia e pornografia para crianças. Em vídeo de meia hora, divulgado em suas redes sociais em 12 de setembro, muito seguro, Felipe falou sobre os ataques e desmentiu todas as mentiras.

O apresentador explicou porquê decidiu comprar e distribuir gratuitamente tantos livros na Bienal, mostrou que livros eram esses – entre eles, o de uma amiga e escritora de literatura juvenil famosa, a Thalita Rebouças – e desafiou pais, mães e outras pessoas que acreditaram nas fake news a assistirem seus programas por uma semana e, então, decidirem se ele é mal intencionado, destacando que não faz programa para crianças, mas, sim, para adolescentes e adultos. Quem quiser assistir, o link está aqui.

Fake news também em processo na Justiça

Mas o vai-e-vem jurídico não cessou aí. O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), já havia derrubado a decisão do TJ-RJ, classificando a ação como censura. E, ontem, domingo, 8/9, o ministro Dias Toffoli, presidente do STF, suspendeu a decisão de Tavares, atendendo a pedido de Raquel Dodge, Procuradora-Geral da República.

Toffoli entende que “o regime democrático pressupõe um ambiente de livre trânsito de ideias, no qual todos tenham direito à voz”. E completou: “De fato, a democracia somente se firma e progride em um ambiente em que diferentes convicções e visões de mundo possam ser expostas, defendidas e confrontadas umas com as outras, em um debate rico, plural e resolutivo”.

Mas claro que Crivella vai recorrer da decisão, porque ele é como Bolsonaro: não respeita a Justiça. E ainda usou de má fé. Em pedido ao STF, para tentar manter a censura, a defesa da prefeitura cita e anexa páginas da publicação portuguesa As Gêmeas Marotas que viria anexada ao gibi. A apresenta personagens fofinhos em atos sexuais e libidinosos. Publicada em Portugal, em 2012, segundo a Folha de São Paulo, “é uma sátira dos livros infantis do holandês Dick Bruna, conhecido pelo personagem Miffy, um coelhinho de traços simples”. E claro que esta declaração é fakenews.

Crivella corre aqui!

Esta não é a primeira atitude autoritária que vimos acontecer no país. Nem a última. É fato que a democracia está realmente em risco e, por isso, é tão vital que brasileiros influentes, como Felipe Neto, reajam e convidem a sociedade a se posicionar e a protestar. Principalmente, porque podem resultar em outras ações, igualmente louváveis como foram os movimentos dos cariocas pautados pela indignação, nos últimos dias. Não só porque se trata de censura e moralismo exacerbado, mas porque a cidade está abandonada, precisando que o prefeito se dedique a ela.

Assim, já no sábado circulavam, pelas redes sociais, imagens das mazelas do Rio de Janeiroentre elas, enchentes e obras inacabadas – que revelavam a interferência da ilustração que tanto incomodou Crivella no gibi: os protagonistas da história se beijando. Um protesto legítimo, artístico e bem humorado – que você pode ver aqui -, que ainda ganhou a companhia de uma hashtag muito simpática.

Em seu Facebook, Tiê Vasconcelos, moradora do Complexo do Alemão e colunista do Voz da Comunidade, teve a ideia brilhante de divulgar os problemas da cidade do Rio de Janeiro e convocar a prefeitura a resolvê-las, já que Crivella parece sem inspiração. E marcou seus posts com a hashtag #CrivellaCorreAqui.

Inspirado por Tiê, o deputado federal Marcelo Freixo convidou os cariocas a se juntarem a Tiê nessa campanha e publicar situações imprópriasmesmo sem a figura dos garotos do gibi se beijando – que incomodam os moradores da cidade todos os dias, usando a mesma hashtag. Perfeito, não?

Foto: Reprodução do perfil de Felipe Neto no Instagram (mobilização na Bienal), Divulgação (retrato Felipe Neto) e reproduções do Facebook (montagens com ilustração do beijo)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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