Censo mostra novo aumento de papagaios-de-cara-roxa no sul do país


Em meio a tantas notícias ruins na área ambiental, temos que celebrar muito quando há alguma para ser comemorada. Pelo segundo ano consecutivo, a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) registrou o crescimento da população de papagaios-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) no sul do Brasil.

O censo 2018, realizado agora em julho, revela que, depois de anos considerados em risco de extinção, foram observados 9.112 indivíduos. No ano passado, como mostramos aqui nesta reportagem, o número era de 7.339 papagaios-de-cara-roxa.

Entre os anos de 2005 e 2013, a média de aves da espécie era de 5 mil indivíduos.

“Ficamos muito feliz com o resultado deste ano. É incrível saber que a população está saudável e crescendo”, diz Marina Somenzari, bióloga do Parque das Aves de Foz do Iguaçu e voluntária do censo. “É de projetos de longo prazo como este que precisamos. Infelizmente, essas iniciativas ainda são raras no Brasil”.

O Amazona brasiliensis é uma espécie rara, endêmica da Mata Atlântica e do Brasil, ou seja, só existe aqui e em nenhum outro lugar do mundo. As aves vivem em uma estreita faixa que se estende do litoral sul paulista ao extremo norte de Santa Catarina, passando por toda a costa do Paraná, onde se encontra quase 80% da população.

Até 2017, o papagaio-da-cara-roxa era considerado vulnerável pela Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). Graças à atuação da SPVS e do Projeto de Conservação do Papagaio-de-Cara-Roxa, ele foi retirado da lista.

A contagem é feita anualmente pela organização desde 2003, mas foi a primeira desde que a espécie deixou de ser tida como ameaçada. Os censos contam com a ajuda de mais de 50 voluntários, entre estudantes, moradores locais e outras pessoas sensibilizadas com a causa, que se unem aos técnicos da SPVS.

Censo mostra aumento de papagaios-de-cara-roxa no litoral do Paraná e São Paulo

Censo deste ano registrou mais de 9 mil papagaios-da-cara-roxa

Apesar da boa notícia, especialistas alertam que os papagaios-da-cara-roxa sofrem ainda uma série ameaça.

“Quase metade da população total da espécie se concentra nas ilhas em frente à planície litorânea da região de Paranaguá e Pontal do Paraná, muito próximo da área que o governo do Estado pretende transformar em um complexo portuário privado”, alerta Elenise Sipinski, coordenadora do Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa.

Segundo ela, a construção do Porto de Pontal do Paraná afetaria pelo menos 4 mil papagaios-de-cara-roxa, além de gerar outros impactos ambientais e sociais na região, como a redução dos remanescentes de Mata Atlântica próximos à Ilha do Mel, segundo maior destino turístico do estado do Paraná.

Para a SVPS, a proteção das áreas de floresta nativa e a criação de novas Unidades de Conservação que conectem essas áreas são essenciais para a sobrevivência da espécie, devido ao seu comportamento. “Todos os dias, os papagaios-de-cara-roxa voam dos dormitórios coletivos situados nas ilhas para as planícies do continente em busca de alimento e voltam no fim da tarde para buscar abrigo”, explica.  “Por isso, a construção de um porto em frente à Ilha do Mel e ao lado da Ilha Rasa e da Cotinga, onde vivem milhares de indivíduos, é uma ameaça à recuperação da espécie.”

Hábitos do papagaio-da-cara-roxa

O Amazona brasiliensis é uma ave da família dos pscitacídeos. Ele mede cerca de 36 cm de comprimento. Sua penugem é verde, mas tem testa e loros vermelhos, vértice e garganta arroxeados e as laterais da cabeça azuis. A cauda tem a ponta amarelo-esverdeada e uma faixa vermelha.

O papagaio-da-cara-roxa costuma fazer seus ninhos nos ocos de árvores altas, preferindo as palmeiras. Vive em bandos nas florestas, geralmente em ilhas, para repouso e reprodução.
Costuma formar casais que se mantêm unidos durante um longo tempo e, muitas vezes, por toda a vida. Quando está em voo, a voz do papagaio-de-cara-roxa é inconfundível: ele emite agradáveis sons de “kli-kli; kra-kra”, comportamento repetido por todo o bando*.

 

Fotos: Zig Koch/divulgação SPVS

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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