Castanha da Central Copacaju: depois da certificação, os primeiros passos no mundo

A castanha de caju está entre meus sabores preferidos. Torrada e salgadinha, vai bem com tudo, desde uma cervejinha artesanal – de preferência uma Guerrilheira, cerveja artesanal produzida por um coletivo, sobre a qual já falei aqui – e até mesmo com as refeições. O caju também dá polpa para sucos e outra bebida deliciosa chamada cajuína.

A castanha de que falo aqui hoje vem do nordeste do Brasil. A conexão São Paulo-Ceará pode ser feita em um saco de castanhas da Central Copacaju, que reúne cinco fábricas de beneficiamento naquele estado – localizadas nos municípios de Ocara, Arati, Chorozinho, Tururu e Aquiraz –  e seis cooperativas, grande parte delas localizada em assentamentos. Ao todo, 680 famílias estão envolvidas no processo de produção. Além da castanha, o grupo também produz polpa de frutas e a cajuína.

São Paulo é mesmo o maior mercado consumidor do produto da Copacaju no país, embora a central também comercialize o produto no Rio de Janeiro, Minas Gerais e na Bahia. Só o Walmart Brasil compra quase toda a produção do grupo e a vende em embalagens de um quilo no Sam’s Club.

A certificação Fairtrade obtida em fins de 2016 ampliou possibilidades para a Central, em especial para exportação. O grupo vende castanhas para uma cooperativa italiana chamada Chico Mendes, que percorre uma vez ao ano Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte e outros territórios no norte do país para comprar vários tipos de castanha e variedades, incluindo de caju, do Pará (agora conhecida como castanha do Brasil) e de baru.

Tereza D’Ávila, gerente comercial da Copacaju, avalia que a certificação foi importante para a Central porque as cooperativas precisaram qualificar melhor a parte burocrática e administrativa da produção. Eram produtores que nunca tinham estado à frente de um negócio, embora tenham contado ao longo do tempo com apoio de várias instituições como a Fundação Banco do Brasil, o Sebrae, INCRA, dentre outros parceiros. A certificação, aponta Teresa, é importante também em outros aspectos: cada vez mais é exigido das cooperativas que elas tenham certificações para participar dos programas e projetos.

Os maiores desafios da Central Copacaju, que começou a funcionar por volta de 2005 e vem se adaptando desde então, são capital de giro para compra de mercadorias, a produção de volumes maiores e a seca prolongada, que já dura cinco anos e interfere diretamente na quantidade e na qualidade do produto disponibilizado ao mercado.

A criação da Central levou os produtores a entender a natureza de sua relação com os atravessadores. “Eles não tinham essa noção de que eram dependentes dos atravessadores. Muito pelo contrário, eram gratos a eles por pagarem antecipadamente e comprarem a safra. Uma das grandes dificuldades da Copacaju é esse, o capital de giro pra compra da matéria prima. O atravessador sempre se oferece para comprar o produto à vista. Se o produtor entrar no projeto da Copacaju, vai esperar pelo menos 40 dias para receber, entre o beneficiamento e o recebimento do recurso referente à venda feita pela Central. Precisamos desse capital para concorrer com os atravessadores”, avalia ela.

“Além da certificação Fairtrade trazer credibilidade para a produção, estabelece que o desembolso pelo comprador se dá em 50% do valor da compra ao fechar o contrato, 30% quando o produto embarca no porto e outros 20% ao receber a mercadoria, depois de conferida no destino de entrega. Esses 80% pagos assim, antecipadamente, adiantam muito pra quem não tem capital de giro”, diz ela. “O próximo passo é a certificação orgânica, e a certificação do comércio justo foi um passo importante também para que as cooperativas estejam mais organizadas para esse novo processo”.

Um pouco da história

O projeto de uma central que reunisse cooperativas e promovesse a distribuição da castanha de caju no Ceará começou a partir de uma iniciativa que a Embrapa cadastrou no Banco de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil por volta do ano de 2005. A proposta apresentada era que os próprios produtores das regiões que têm o caju como mais importante cultura agrícola se reunissem e tivessem uma fábrica de beneficiamento dessa castanha in natura, agregando valor e vendendo por um preço melhor. Com isso, a ideia era também livrar o processo do intermediário e fazer a venda direta.

Originalmente eram dez fábricas, localizadas em dez municípios, e uma central para fazer a comercialização. Eram chamadas de mini fábricas, e cada uma delas tinha capacidade de beneficiar 2 mil quilos de castanha. Mensalmente, juntando toda a produção, dariam 20 mil quilos para exportação.

No entanto, Tereza avalia que por não terem considerado a distância da Central para as comunidades envolvidas – algumas ficavam a mais de 300 km de distância -, depois de um tempo algumas dessas fábricas mais distantes fecharam, ou passaram a trabalhar de forma independente. Cinco permaneceram conectadas à Copacaju,

Apesar da redução do número de fábricas, elas foram revitalizadas e hoje têm capacidade dobrada de fornecimento: são quatro mil quilos de amêndoas (castanha in natura cozida no vapor e descascada) enviados por cada uma delas à Central.

Além disso, por intermédio da Fundação Banco do Brasil, três outras fábricas foram montadas para a produção de cajuína e polpa de frutas. Isso ajudou a Copacaju a entrar no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que estabelece que as prefeituras comprem ao menos 30% dos alimentos destinados à merenda de agricultores familiares. A polpa de frutas tem boa saída nos editais do PNAE das prefeituras locais.

Outra frente aberta é a participação em um projeto junto ao Governo do Estado e ao Banco Mundial, que está sendo elaborado pela com a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Ceará (FETRAECE). Um projeto que vai envolver, além das regiões onde estão as cooperativas e a Central Copacaju, outros assentamentos onde serão criadas cooperativas e novas fábricas. A expectativa então é que a Central se movimente ainda mais. Segundo Tereza, nessa frente há recursos previstos da ordem de R$ 1 milhão para cada cooperativa se expandir e se renovar. O projeto foi aprovado no fim do ano passado, e agora em fevereiro serão assinados os convênios para iniciar o trabalho.

Apesar de tudo isso, há um fator central com o qual os produtores precisam lidar: a seca. Estudos recentes apontam que as secas que tradicionalmente afetaram o nordeste semi-árido estão sendo agravadas pelos efeitos das mudanças climáticas. No Ceará, grandes indústrias de castanha de caju fecharam nos últimos anos. Ficaram as médias e as pequenas, mas a procura pelo produto continua grande. Os cajueiros mais antigos não suportam a seca, o que faz diminuir o número de árvores que dão a fruta e provoca a queda da qualidade do produto. “O estado precisa dessa revitalização do mercado da castanha de caju. É hora do pequeno produtor se unir, fazer um projeto maior, que ocupe esse espaço deixado pelas empresas que fecharam, e ter um bom volume para atender a demanda, que é muito grande”, diz ela.

Fotos: sunnysun0803/Pixabay e Divulgação Copacaju

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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