Cascavel tem proteína poderosa contra dor, estrabismo e rugas

Espero não inspirar nenhum maluco por estética a sair, por aí, pegando cascavel à unha só para parecer alguns anos mais jovem. As serpentes do gênero Crotalus – incluindo a brasileira Crotalus durissus – continuam tão letais como sempre foram, capazes de injetar uma boa dose de peçonha em um só bote, de efeito sistêmico paralisante, especialmente sobre os músculos do coração e do pulmão. Ou, em outras palavras, feita para matar de parada cardio-respiratória.

Ocorre que, em meio à complexa mistura de proteínas e compostos usada pela cascavel para imobilizar suas presas ou para se defender de eventuais ameaças, existe uma molécula muito interessante, apelidada de crotoxina (veja a estrutura de sua molécula na figura abaixo). Isolada de outros componentes da peçonha, ela pode ser muito mais potente do que a toxina botulínica – ou botox -, hoje utilizada em tratamentos médicos e em procedimentos estéticos.

“A crotoxina pode substituir a toxina botulínica, inclusive em sua atividade mais importante: como analgésico, de efeito paralisante sobre a junção músculo-neurônio, bloqueando a passagem de sinal”, explica o doutor em Física, Marcos Roberto de Mattos Fontes, responsável pelo Laboratório de Biofísica Estrutural e Molecular na Universidade Estadual Paulista, campus de Botucatu (IBB/UNESP). Junto com os pesquisadores Carlos A. H. Fernandes, Wallance M. Panzin, Thiago R. Dreyer, Renata N. Bicev, Walter L. G. Cavalcante, Consuelo L. Fortes-Dias, Amando S. Ito, Cristiano L. P. Oliveira e Roberto Morato Fernandes, ele assina um artigo recém-publicado na revista Nature, sobre a estrutura dessa crotoxina.

“Trata-se de uma proteína muito grande, então recorremos a diversas técnicas físicas e químicas para enxergar a molécula e analisar sua estrutura tridimensional, com o objetivo de entender como ela funciona”, detalha Fontes. Com sua equipe e recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), ele trabalha com as estruturas de moléculas contidas em venenos de serpentes há mais de 20 anos. Neste caso, os estudos ajudam a localizar as partes das moléculas associadas à atividade desejada, orientando a produção de compostos sintéticos que não contenham as toxinas letais. Com isso, a síntese é feita com mais eficiência e rapidez, a custo menor e, inclusive, com menos necessidade de “ordenhar” cascaveis para obter o veneno original, no qual os fármacos são inspirados. “Os recursos da Biofísica substituem a síntese de compostos por tentativa e erro, método usado para obter muitos medicamentos e produtos em uso. Com tais recursos sabemos em qual parte da proteína devemos nos concentrar”, complementa.

As pesquisas biofísicas são feitas em parceria com equipes de outras instituições, como o Instituto Butantan, de São Paulo, que se concentra na aplicação das proteínas ou de partes das proteínas mais indicadas. Além do uso como um poderoso analgésico, a crotoxina tem potencial no tratamento de estrabismo e nos procedimentos estéticos para suavizar rugas e linhas de expressão, em lugar do famoso Botox.

Assim sendo, aí vai minha recomendação a quem passar por algum caminho das pedras em meio às quais soe um insistente e característico guizo: pare, identifique de onde vem o som, recue lentamente, saia do alcance do bote e siga seu caminho sem matar nem estressar a cascavel, esse espécime da nossa biodiversidade que tantos segredos úteis ainda pode nos revelar!

Foto: Renato Augusto Martins/Wikimedia Commons

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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