Capão Redondo: de bairro mais violento de São Paulo a celeiro de inovação e transformação


No último fim de semana, coordenei mais uma edição do curso Mobilize – Estratégias para Transformação, que procura formar uma nova geração de estrategistas de impacto social. Desta vez, o professor convidado foi o Bruno Capão, uma das lideranças jovens mais inspiradoras que conheço. Ele e sua companheira, Micheline Farias, apresentaram seu projeto NAVE (Núcleo de Acolhimento e Valorização da Educação), que trabalha para formar novas lideranças transformadoras entre crianças e adolescentes do Capão Redondo.

O sonho deles, com este projeto, é ajudar a mudar a imagem do Capão como uma das regiões mais violentas de São Paulo e dar destaque a todos os processos inovadores e criativos que estão acontecendo no bairro já há bastante tempo.

Bruno e Micheline acompanharam os participantes do curso em uma vista à comunidade de Nova Jerusalém, onde cerca de 50 famílias vivem de forma extremamente precária imprensados em seus barracos de madeira entre um conjunto do CDHU e um córrego. No corredor estreito e irregular que separa as casas do rio, crianças e animais domésticos disputam espaço para correr e se divertir.

A experiência de conversar com os moradores, especialmente crianças e jovens participantes da NAVE, trouxe uma perspectiva completamente diferente e realista aos alunos do curso. Eles foram desafiados por Bruno a pensarem em propostas de mobilização que estimulem a comunidade a se engajar em soluções coletivas para o tema de resíduos sólidos e orgânicos.

Depois de um dia intenso de conversas, de entender o máximo possível daquela realidade totalmente estranha ao cotidiano em que vivem, os alunos voltaram para o espaço de aula com a cabeça fervilhando. Não apenas de ideias, mas de sentimentos e sensações desencontradas.

Frente à precariedade que testemunharam, a conversa com crianças e jovens conscientes de que podem e devem fazer mais pela comunidade trouxe a certeza de que é possível mudar de dentro para fora. O exercício da empatia – de olhar no olho do outro, escutar o que têm a dizer, entender seus sonhos e aspirações – é fundamental para qualquer processo de mobilização transformadora e efetiva.

A turma se dividiu em grupos e cada um apresentou uma proposta de mobilização da comunidade ao Bruno e à Micheline. Uma das propostas incluía um mutirão envolvendo não apenas a comunidade, mas diversos parceiros na sociedade civil, para resolver o problema imediato de acúmulo de lixo e mato nas margens do córrego, além de instalar um ponto de coleta de resíduos, inexistente até o momento.

Outra proposta trouxe um aspecto lúdico e pretende criar, junto com as crianças e adolescentes um festival de arte e música no qual elas tenham total participação, tanto na curadoria, como no desenvolvimento do encontro.

Finalmente, o terceiro projeto focou no desenvolvimento de protagonismo entre as crianças e jovens da comunidade para que possam crescer como lideranças locais.

O importante de todo este exercício foi mostrar que as transformações devem surgir a partir de um olhar e de uma escuta atentos à comunidade e grupos envolvidos. É fundamental envolvê-los desde o início e oferecer oportunidades para que possam participar, que estejam ajustadas às suas reais capacidades.

O NAVE está agora correndo atrás de efetivar as propostas, com a ajuda dos alunos do curso. O mutirão já deve acontecer no fim de maio ou no começo de junho. A participação de todo mundo é muito importante. Se você quiser apoiar de alguma forma, curta a página do NAVE no Facebook para se manter informado.

Fotos: Mari Brunini (retrato Bruno) e Divulgação

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, Renato sempre trabalhou com temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, Renato sempre trabalhou com temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias - Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

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