Campo rupestre, no centro do Brasil, apresenta alta diversidade de espécies de plantas

Por Elton Aliison*

Na Serra do Espinhaço – uma cadeia montanhosa que se estende pelos estados de Minas Gerais e Bahia – é possível observar um tipo de vegetação antiga, chamada campo rupestre, que apresenta alta diversidade de espécies de plantas, a maior parte delas endêmica (que ocorre exclusivamente naquela região).

A ecologia desse tipo de vegetação, que está ameaçada e chamou a atenção de exploradores e naturalistas que passaram pelo Brasil, como o botânico dinamarquês Eugen Warming (1841-1924), ainda é pouco estudada, apontam pesquisadores da área.

A fim de reunir o conhecimento atual sobre a vida vegetal em campo rupestre, a pesquisadora Patrícia Morellato, professora do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, em parceria com Fernando Augusto de Oliveira e Silveira, professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), organizaram uma edição especial da revista Flora sobre o tema.

(assista ao relato da pesquisadora da Unesp no final deste post)

Parte dos resultados dos estudos publicados na edição especial é consequência de um projeto realizado por Morellato, no âmbito de um acordo da Fapesp com a Vale e as fundações de amparo à pesquisa dos estados de Minas Gerais (Fapemig) e do Pará (Fapespa), e de uma pesquisa que está sendo realizada pela pesquisadora, também com apoio da Fapesp em convênio com a Microsoft. Os dois projetos são realizados na Serra do Cipó – uma formação geológica situada em Minas Gerais, localizada ao sul da província geológica da Serra do Espinhaço.

“A Serra do Espinhaço, especialmente a Serra do Cipó, apresenta a maior diversidade de espécies de plantas endêmicas da flora brasileira”, disse Morellato.

Uma das hipóteses para explicar a diversidade e o endemismo de espécies do campo rupestre da Serra do Espinhaço considera as condições da vegetação, assentada sobre uma cadeia de montanhas longa e estreita, entrecortada por picos e vales e com cerca de 1.000 quilômetros de extensão, formada há mais de 1 bilhão de anos.

A cadeia montanhosa evoluiu geologicamente e se diversificou em diversas pequenas paisagens que compõem um mosaico formado por afloramentos rochosos, campos úmidos, arenosos e pedregosos, além de ilhas de floresta. Essa diversidade de paisagem é cercada por três grandes biomas: o do Cerrado, o da Mata Atlântica e o da Caatinga.

“Esse conjunto de características, além das condições climáticas, caracterizadas por uma estação fria e seca, alternada com outra estação quente e bastante úmida, permitiu a evolução dessa flora muito rica na Serra do Espinhaço”, explicou Morellato.

Os pesquisadores reforçam uma proposta, apresentada em um artigo publicado em 2016 na revista Plant and Soil, de incluir o campo rupestre na classificação de OCBIL – sigla de Old Climatically-Buffered, Infertile Landscapes –, que designa uma vegetação antiga, climaticamente tamponada e sobre uma paisagem infértil, em termos de solo.

Essa classificação do campo rupestre possibilitaria testar hipóteses teóricas sobre a evolução desse tipo de vegetação e o reconhecimento da comunidade científica de que ela é similar ao Fynbos – nome genérico dado à vegetação da ponta do sul da África – e à região florística do sudoeste da Austrália.

“Só há algumas regiões na Terra que têm essas características de zonas climáticas antigas sobre solos inférteis e que apresentam alta diversidade de espécies”, disse Morellato.

Câmeras e drones

A classificação do campo rupestre como um OCBIL também possibilitaria promover a colaboração científica entre os continentes que possuem esse tipo de vegetação e apoiar a conservação e o uso sustentável de campos rupestres e outras paisagens antigas, avaliam os pesquisadores.

As espécies endêmicas de campo rupestre, como a sempre-viva (Helichrysum arenarium) e a canela-de-ema-gigante (Vellozia gigantea), estão ameaçadas por incêndios não controlados e a exploração excessiva. Além disso, uma área expressiva dessa paisagem no Brasil tem sido destruída pela mineração, antes de ter sido estudada.

“Como o campo rupestre está sobre afloramento de rochas muitas vezes compostas de ferro e outros minerais, uma boa parte dessa paisagem tem sido destruída pela mineração. Essa atividade econômica representa hoje a maior ameaça à diversidade desse ecossistema que mal conhecemos”, disse Morellato.

Por meio do projeto realizado no âmbito de um acordo da Fapesp com a Vale e a Fapemig, a pesquisadora estudou as relações de diversas espécies de plantas da Serra do Cipó com o ambiente (fenologia), além da polinização delas, a fim de desenvolver ações de restauração.

Os resultados dos estudos foram publicados em um capítulo do livro Ecology and Conservation of Mountaintop grasslands in Brazil e nas revistas Ecology e Plos One.

Já por meio do projeto apoiado pela Fapesp no âmbito de um acordo com a Microsoft, os pesquisadores têm usado diversas tecnologias, como câmeras e drones, para monitorar a vegetação também na Serra do Cipó e, dessa forma, estudar sua mudança sazonal em diferentes escalas de altitude.

“A ideia é compreender melhor quando é a estação de crescimento da vegetação na Serra do Cipó e o que determina o começo e o fim dessa estação para identificar quais são os gatilhos que direcionam as mudanças de paisagem”, explicou Morellato.

O número especial da revista Flora, intitulado Plant life on campo rupestre, a megadiverse Neotropical old-growth grassland, pode ser lido no site Science Alert.

Agora, assista ao relato da pesquisadora Patrícia Morellato:

*Texto publicado originalmente no site da Agencia Fapesp, em 20/6/2018

Foto: Thiago Sanna Freire Silva, Maria Gabriela de Camargo e Patrícia Morellato

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