Caminhar nas águas

exposição rios des.cobertos sobre as águas que correm sob São Paulo

Caminhar. Sempre. Atrás da rota, da veia torta. Daquele lugar que não se sabe aonde vai dar. Que seja no mar. Que não fosse artéria morta. Que não fosse em forma de esgoto. Mas é. Esse fluxo de desenvolvimento sem volta corre por baixo das cidades. São Paulo, por exemplo, tem mais de 300 córregos recolhidos em sua significância, desaparecidos, compulsoriamente escondidos, sem que a população tenha noção da sua existência. Mas eles estão todos lá embaixo, correndo estrangulados. Maratona perdida. Às vezes, aparecem algumas pessoas para lembrar que deveriam estar no pódio. Um grupo coordenado pelo arquiteto e urbanista, José Bueno, e pelo geógrafo Luiz de Campos Jr., responsáveis pela iniciativa Rios e Ruas, percorreu a região da Vila Mariana, seguindo os sinais deixados pela natureza para encontrar o córrego do Sapateiro. O Sapateiro e outros rios formam o antigo charco do Ibirapuera, desembocando no Rio Pinheiros.

De acordo com o site Rio Pinheiros Vivo, “os participantes coletaram vestígios do curso das águas, documentaram o verde, degustaram frutos e experimentaram uma descoberta fascinante de um terreno que um dia já esteve coberto pelas águas. Despertar em paulistanos a percepção ambiental adormecida pela urbanização, fotografar personagens que pertencem à memória da cidade e recuperar o vínculo afetivo com a metrópole foram algumas das missões deste grupo. Bueno e Campos incentivaram os participantes a explorarem o percurso com um novo olhar, buscando estabelecer relações afetuosas com o espaço (onde estamos acostumados a ver só feiura) e, através de desenhos, a fazerem rápidos registros e representações da paisagem explorada”.

O percurso escondido do Rio Sapateiro e de outros rios pode ser descoberto na exposição Rios des.cobertos: o resgate das águas da cidade, no SESC Pinheiros (sobre a qual o Conexão Planeta já falou aqui).

“Por meio de uma maquete interativa, apresenta os rios paulistanos, que estão, na atualidade, encobertos por ruas e avenidas. A projeção mapeada na maquete está organizada em camadas informativas pelas quais o visitante pode navegar, oferecendo uma experiência lúdica e sensorial”, diz o texto informativo da exposição. Ela é uma parceria do Rios e Ruas com o Estúdio Laborg – que faz projetos utilizando o audiovisual como instrumento principal para transmitir informações, sensações e sentimentos.

O sentimento de buscar vestígios da natureza na cidade grande é a forma de criar conexão, trazer responsabilidade, para, quem sabe, poder fazer da memória resgatada um novo caminho nesse nosso presente tão sem futuro.

Passo a passo. Pé ante pé, chegando devagarinho, sem fazer muito alarde, para tentar ir tomando conta, se apropriando, tentando salvar o que ainda resta, correndo atrás do prejuízo trazido por tanto lucro.

É preciso caminhar muito, gastar muita sola dos nossos sapatos descartáveis fabricados em série, que vão para o lixo tão rápido quanto a moda… As antigas formas dos sapatos que duravam estão confinadas nas fotos, como essa que encontrei no Museu Afro Brasil. É da época do Brasil Colônia, quando havia escravos que tinham o ofício de sapateiro, hoje em vias de extinção.

Repare nas diferenças entre os pés de um mesmo par. Direito e esquerdo. Maior. Menor. Mais. Menos. Contradições internas. Disparidades num só ser.  Que dirá entre seres? Nesse mar de tamanhos e numerações, um par de histórias. Ondas de caminhadas insólitas. Queria um milagre para abrir águas profundas canalizadas, limpar águas presas no subterrâneo prontas para inundar nosso chão artificial pisado por tanto caminhante descomprometido.

RIOS DES.COBERTOS: O RESGATE DAS ÁGUAS DA CIDADE
Local: Espaço de Tecnologias e Artes (3º andar) – Sesc Pinheiros
Endereço: Rua Paes Leme, 195, Pinheiros – São Paulo
Entrada gratuita

Fotos: divulgação Estúdio Laborg, Rios e Ruas e acervo pessoal

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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