Calçados de borracha sustentável são produzidos por comunidade indígena no Acre

Eles parecem moldados diretamente nos pés, de tão bem ajustados. Os calçados Ararinha, projeto desenvolvido por Daosha e Txãda Shawã, do povo Arara – localizados no Alto Rio Juruá, município de Porto Walter, Acre – foram mesmo criados tendo como molde os próprios pés.

A ideia de trabalhar com calçados e acessórios do látex surgiu a partir de uma oficina realizada com mulheres da etnia Arara sobre transformação do látex em folhas de borracha e produção de biojoias. Daosha logo pensou em usar a técnica para a produção de calçados. Ela se uniu ao companheiro Txãda Shawã e às lideranças Yuvanã Shawã e Kumawã Shawã para concretizar o projeto, aperfeiçoando cada vez mais a produção. Surgiam assim os calçados Ararinha.

Tenho trazido alguns casos desse movimento de valorização dos insumos da floresta, utilizados por seus povos para fins econômicos sustentáveis, de modo a valorizar os recursos naturais e os habitantes da Amazônia. O fomento da chamada economia da floresta é alternativa para manter a floresta amazônica em pé.

Alguns estudos tentam calcular o quanto vale a floresta em pé para o Brasil, em termos financeiros. Um deles, chamado Changes in the Global Value of Ecosystem Services (algo como Mudanças no valor global dos serviços ecossistêmicos, em tradução livre), pioneiro em estudos de precificação de serviços oferecidos pela natureza, calcula que a Amazônia rende ao país e ao mundo cerca de R$ 7,67 trilhões por ano.

Além do valor monetário, a conservação da Amazônia é fundamental para a biodiversidade, o equilíbrio climático no mundo e para a preservação do saber de seus povos. Embora, nos últimos tempos, tenhamos sofrido acirradamente com desmatamentos e queimadas que colocam a floresta cada vez mais próxima de um ponto de não recuperação. O que leva à necessidade cada vez mais urgente de buscar novos modelos de desenvolvimento para a Amazônia.

Os chamados negócios de impacto estão na linha de frente da valorização da economia da floresta. Iniciativas de aceleração e financiamento desses negócios se avolumam na região, como o caso do Programa de Aceleração da Plataforma Parceiros pela Amazônia, sobre o qual já escrevi aqui, no Conexão Planeta. A Ararinha foi selecionada e participou do Amazônia Up em 2018, programa promovido pelo Centro de Empreendedorismo da Amazônia que acelera ideias, protótipos e/ou negócios na área rural com foco na floresta e biodiversidade.

 “O Amazônia Up foi uma grande alavanca para o nosso projeto, nos ajudou a ser empreendedores. Foi um grande incentivo para dar continuidade à nossa ideia e aprimorar nossa produção”, avalia Daosha. Ela diz ainda que por meio desse incentivo, já que o Amazônia Up viu a Ararinha como um projeto que poderia ser estendido a comunidades que tivessem seringueiras, a Ararinha chegou à comunidade de Belterra, no Pará, primeiro lugar de multiplicação dos saberes envolvidos na confecção dos calçados.

Hoje, 15 indígenas trabalham com o projeto Ararinha, sendo 13 mulheres produtoras dos calçados e dois homens que coletam o látex e produzem o solado. Daosha diz que o látex é extraído de forma sustentável, com o cuidado de deixar descansar as seringueiras após três tiragens. A produção mensal é de 40 calçados, normalmente sob encomenda – via whatsapp, pelo número 11 99910-7214. Há expectativa de aumento gradativo desse volume, com a extensão das oficinas de produção a comunidades que possuam seringueira, incentivando fonte de renda sustentável para famílias.

“A floresta motiva nossa criação. Criar calçados a partir do leite da seringueira é algo incrível! A terra, as folhas, os pássaros, as flores e frutos são as principais inspirações. O tingimento natural é um resgate da técnica ancestral, que nos aproxima do meio ambiente e pode ser uma das alternativas para um futuro menos poluente na indústria calçadista, uma das grandes agressoras do meio ambiente devido aos resíduos de origem petroquímica. A linha de bordado natural também é um resgate ancestral indígena, usada até hoje para o feitio de corda para o arco, amarrar flecha, amarrar as palhas da casa. E tudo isso nos moveu para utilizar a técnica nos calçados, tanto para garantir a durabilidade do produto quanto para embelezar através de linhas tiradas a partir do tucum e do buriti”, explica Daosha. 

Ela destaca ainda a sensualidade das sementes utilizadas nas sandálias femininas – de açaí, patauá, buriti, jarina etc -, essencialmente ligadas à corporalidade. Juntando tudo isso – sementes, linhas de palha e borracha tingida naturalmente – o que se tem é uma coleção de sandálias sustentáveis, orgânicas, que além de contribuir para o uso sustentável da floresta, promove a integração de saberes ancestrais e a valorização das mulheres indígenas.

Para encomendas, envie mensagem para o Whatsapp 11 99910-7214.

Foto: Divulgação/Ararinha

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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