Cadê as abelhas, os besouros e as formigas que estavam aqui? Estudo revela dramático declínio de insetos no planeta

Insetos como abelhas, formigas e besouros estão desaparecendo em um ritmo mais acelerado do que o normal: oito vezes mais rápido do que mamíferos, pássaros e répteis. Trata-se de um grande declínio de espécies, muito preocupante já que insetos representam a maioria dos seres vivos que habitam o planeta Terra e oferecem inúmeros benefícios para a sobrevivência de todos. Por outro lado, a população de moscas e baratas só cresce. Muito dramático.

Essa é a conclusão de recente estudo, que tomou por base cerca de 73 pesquisas, realizadas nos últimos treze anos, e que resultou em artigo publicado no periódico científico Biological Conservation. Ele revela que algumas espécies de insetos, como abelhas, besouros e formigas, estão em vias de desaparecer, principalmente nas economias desenvolvidas.

Também diz que o declínio acontece em quase todas as regiões do planeta, o que pode levar à extinção de 40% dos insetos nas próximas décadas. Por conta disso, 1/3 das espécies de insetos que vivem hoje na Terra estão classificadas como ameaçadas de extinção.

Em 2017, uma das pesquisas revelou que havia menos gafanhotos, grilos (foto abaixo), abelhas e borboletas – espécies que polinizam 85% das plantas do planeta que servem como alimento para os humanos – estavam ameaçadas de extinção.

O grande diferencial desta pesquisa é que ela contempla uma gama mais ampla de insetos.

E quais são os motivos dessa tragédia? Vamos falar, aqui, dos quatro principais.

O primeiro é a perda de habitat, consequência de práticas agrícolas sem planejamento, como revelou o principal autor do estudo, Francisco Sánchez-Bayo, da Universidade de Sidney, na Austrália, para o jornal El País.

O segundo está diretamente relacionado à agricultura também: uso indiscriminado de pesticidas e fertilizantes – ou agrotóxicos – em todo o mundo. Por aqui, tem piorado, como sabemos. Em terceiro, estão fatores biológicos como a presença de “espécies invasoras e patógenos”, seguido das mudanças climáticas, principalmente nas regiões tropicais, onde os impactos têm sido muito intensos.

O estudo destaca o declínio terrível registrado em algumas partes do planeta, como de insetos voadores na Alemanha, ou a dizimação total em florestas tropicais de Porto Rico, por causa do alimento da temperatura global. E a questão, aqui, é que não se fala apenas das abelhas – sempre principal foco de estudos por conta da polinização e de sua relação com a alimentação humana. Besouros também estão morrendo aos montes e são responsáveis pela reciclagem de resíduos na natureza. Ou de libélulas.

Com base nestas informações, o especialista Matt Shardlow, do grupo ativista britânico Buglife, diz que pode afirmar, sem parecer exagerado, que “a ecologia do nosso planeta está em risco e que é preciso um esforço global e intenso para deter e reverter essas tendências terríveis”, lembrando que deixar que essa erradicação lenta e gradual dos insetos aconteça, não é uma opção racional.

Sim, negligenciar esta situação clara é de uma irresponsabilidade sem tamanho já que o impacto na cadeia de produção da comida é inevitável. Alguns animais não sobreviverão como pássaros, répteis e peixes – os insetos, em alguns casos, são sua principal fonte de alimento -, o que afetará a todos nós.

Baratas e moscas, quase invencíveis

Ao mesmo tempo em que alguns insetos até correm o risco de extinção, há outros que só proliferam. E isso pode se dever às temperaturas e à sua fácil adaptação às mudanças climáticas, além de resistirem aos pesticidas.

Esse é o caso, por exemplo, de insetos que são pragas e se reproduzem rapidamente. Além do clima quente que os favorece, deixarão de ter predadores que, numa situação como essa, se reproduzirão de forma mais lenta. É o que conta Dave Goulson, da Universidade de Sussex, na Inglaterra, um dos pesquisadores envolvidos no estudo.

Também é o caso das resistentes moscas domésticas e baratas.

É fato que a vida se transforma constantemente neste planeta e novas espécies de insetos podem surgir, que substituirão as espécies extintas, mas isso leva milhões de anos, e nao fará a menor diferença para quem está vivo na Terra hoje. Portanto, o melhor é agir agora para evitar o pior.

Triste cenário: perderemos os insetos maravilhosos que gostamos de admirar e teremos a companhia constante e insistente de pragas.

E ainda dá tempo de reverter a situação?

É fato que a vida se transforma constantemente neste planeta e novas espécies de insetos podem surgir, que substituirão as espécies extintas, mas isso leva milhões de anos, e nao fará a menor diferença para quem está vivo na Terra hoje. Portanto, o melhor é agir agora para evitar o pior. Mas será que ainda dá tempo de reverter essa situação?

Se vai dar tempo, impossível saber. Mas, como acontece em qualquer situação que exige mudanças de hábitos, existem algumas medidas que estão ao alcance de qualquer pessoa e podem ser adotadas já. As principais e mais imediatas estão relacionadas com os malditos agrotóxicos.

Comprar comida orgânica é uma delas. Ainda é muito caro? Pode ser, mas está cada vez mais fácil comprar alimentos produzidos de forma natural e com preços que, em alguns casos, chegam a ser mais baratos do que os produtos da agricultura tradicional, que pulveriza tudo com veneno.

E é importante entender que, enquanto os brasileiros continuarem repetindo esse mantra – “ah, mas é muito caro!”-, esse cenário nunca mudará. Não existe coisa mais deliciosa do que poder comprar diretamente do agricultor, conversar com ele, aprender mais sobre esse alimento, além de sentir o verdadeiro sabor da comida. Os insetos também agradecem. 

Cuidar dos jardins sem o uso de fertilizantes também é uma forma de contribuir para melhorar as condições de vida dos insetos. E dos humanos também. Lembra do jardineiro californiano que venceu a Monsanto (agora, Bayer) nos tribunais, no ano passado? Ele pulverizava os jardins das escolas para as quais trabalhava com um dos pesticidas mais cruéis: o glifosato.

Ah… e claro que quanto mais pesquisas forem feitas, que possam nos guiar nessa jornada, melhor. Isto porque cerca de 99% delas foi realizada na Europa e na América do Norte. Há poucos estudos na África, Ásia e América do Sul.

Foto: RO-verhate/Pixabay (formiga), Roos Rojas/Pixabay (grilo) e Stevepb/Pixabay (mosca) e Gellinger/Pixabay (libelula)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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