Cadê a terra que estava aqui? O cimento escondeu!

cimento

No começo deste ano, escrevi o post Mais natureza, menos espaços artificiais para as crianças! para contar sobre o movimento que tenho observado na artificialização dos espaços para a infância.

A escola que me inspirou havia cimentado 50% do terreno verde disponível para as crianças. Jogaram cimento por mais 45% da área. Esta semana, mais uma das escolas que visito cimentou o parque. O último espaço acessível de natureza da escola virou cimento. E digo acessível pois muitas escolas têm áreas verdes em seu terreno, porém são consideradas paisagismo e as crianças precisam se manter afastadas.

Ao ter a oportunidade de estar com as crianças brincando nessa nova configuração de espaço, decidi observar o que as crianças falavam e como as brincadeiras se expressavam. Percebi que as crianças procuravam pela natureza ao redor. Os poucos gravetos espalhados pelo chão tornavam-se objetos de fantasia e faz de conta: espadas, varinhas mágicas, canetas, um buquê de flores. Os meninos subiam no brinquedo mais alto que o muro da escola, e conversavam enquanto observavam a praça vizinha, e apontavam para as diferentes árvores.

Me aproximei de dois garotos que brincavam no chão. Eles haviam encontrado um punhado de terra espalhado sobre o cimento e, com seus gravetos, tentavam fazer desenhos. Logo se cansaram da brincadeira e saíram. Uma menina se aproximou, olhou para esse mesmo pouco de terra. Abaixou-se, acariciou a terra, olhou pra mim e disse: “Tem pouco aqui. Precisa por mais para poder nascer árvores”. 

Foi até o tanque de areia, pegou um punhado dela e, enquanto caminhava, espalhava areia sobre o cimento. Logo um adulto disse em alto tom: “Para de jogar areia no cimento que vocês vão escorregar.” A poesia de manifesto da criança teve fim naquele momento.

Se há algo que precisa ser repensado e ressignificado nas escolas de educação infantil é o tempo no parque e como os educadores percebem a intencionalidade neste espaço. É um tempo onde as crianças ficam enquanto os adultos podem organizar outras atividades, ou estar junto observando, e disponível para brincar junto?

A preocupação maior do educador na escola é com “o pedagógico”. Não estou inventando esta frase, a escuto muitas vezes por semana. O que me preocupa é como esse pedagógico é encarado. Como aquelas atividades e ações que estão atreladas visivelmente a um conteúdo, em sua maioria atividades para desenvolvimento cognitivo (com maior frequência envolvem escrita, leitura, matemática), de onde a experiência está completamente desconectada?

O olhar do educador precisa enxergar as crianças e se encantar junto com elas pelas experiências, e ainda ouvi-las, pois elas revelam muitos saberes e percepções sobre o mundo que podem nos dar pistas preciosas dos caminhos que seguimos juntos.

Ainda aqui, aproveito para compartilhar o que tenho conhecido: muitos educadores remando a favor da natureza, quebrando concreto, plantando árvores, colocando vida de diferentes maneiras nos espaços para a infância. Levando as crianças para fora para andarem descalças, ouvirem os pássaros, comerem frutas do pé.

Quero compartilhar menos histórias de parques cimentados e grama sintética e mais histórias de crianças brincando com a natureza. Uma maneira de dividir com vocês experiencias para saberem que é possível e se inspirarem.

Conhece alguém que faz um trabalho assim? Eu gostaria de conhecer! Conte-me nos comentários.

É pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica. Participa de diversas formações sobre primeira infância, brincar e arte para crianças e coordena o programa Ser Criança é Natural (que dá nome a este blog), do Instituto Romã, que incentiva o contato das crianças com a natureza. Organiza a ação Doe Sentimentos e acredita no poder da infância e que o mundo pode ser melhor.

Ana Carol Thomé

É pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica. Participa de diversas formações sobre primeira infância, brincar e arte para crianças e coordena o programa Ser Criança é Natural (que dá nome a este blog), do Instituto Romã, que incentiva o contato das crianças com a natureza. Organiza a ação Doe Sentimentos e acredita no poder da infância e que o mundo pode ser melhor.

2 comentários em “Cadê a terra que estava aqui? O cimento escondeu!

  • 26 de setembro de 2016 em 8:01 PM
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    Nos fazemos!!! !tranformamos um jardim paisagistico de uma escola em jardim dos sentidos com trilha e um cimento em horta!!! Ja sao 4 escolas!!!abc isabela da Cia da horta Brasília DF

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  • 19 de outubro de 2016 em 5:01 PM
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    Nós, 4 pós graduados em Educação Ambiental pela PUC – RJ(Biólogo, Gestor ambiental, Pedagoga e Professor de Artes e Geografia), criamos um Projeto que se chama Clube da Natureza em família. https://www.facebook.com/clubedanaturezaemfamilia/
    Estávamos muito preocupados com a falta de contato com a natureza, e certos de que o ambiente natural é o agente transformador no desenvolvimento do indivíduo, reunimos famílias, promovendo educação ambiental, diversão, amor, respeito e melhoria na qualidade de vida.
    Nossas ações tem como foco educadores, crianças, adolescentes e suas famílias.
    Promover a sensibilização de sua importância no mundo e ações possíveis para essa transformação são nossos desafios. Em nossa página do facebook e no instagram postamos fotos de nossos trabalhos.
    Nosso email: clubedanaturezaemfamilia@gmail.com
    Estamos muito felizes, pois pouco a pouco, estamos conseguindo sensibilizar as pessoas a pensar de uma maneira mais ecológica, sustentável e mais humanitária. Levando muito amor, cooperação e principalmente desenvolvendo o espírito de união. Juntos podemos muito!

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