Cada planta com seu torrão

horta com planta e ervas

Para entender a estrutura do solo, gosto de fazer um tipo de comparação. Imagine um bolo cortado em muitas camadas. Mas na hora de servir, todas elas desmontam e acabam por se misturar no seu prato.

No planeta Terra, as sucessivas camadas  de pedra, argila, areia, matéria orgânica se dão de acordo com as rochas originárias do terreno e os componentes minerais que existem nele. Estas camadas são formadas por milhares de anos, pela decomposição das rochas e sobreposição de resíduos minerais, e também, pela vida que cresceu em cada período geológico da Terra.

Portanto, num  mesmo terreno, aí mesmo no seu jardim ou quintal, você pode encontrar camadas de vários tipos de sedimentos. E elas podem ter perdido a ordem de deposição original, fazendo com que um terreno tenha manchas de terra pedregosa, outras de pura argila e ainda, camadas de terras misturadas.

Estas camadas podem ter poucos centímetros ou muitos metros entre si. Muitas vezes, a vista lateral delas pode estar exposta em estradas, onde existem cortes revelando rochas. O conjunto destas camadas verticais de solo é chamado tecnicamente de perfil.

Na hora de preparar o terreno ou vaso de cultivo na sua casa ou apartamento, o ideal é reproduzir um perfil natural para cada tipo de planta. Primeiro, use pedra na parte mais baixa para drenar o excesso de água. Depois, coloque um pouco de terra com adubo para que a muda se desenvolva e terra sem adubo para ficar em contato com as raízes durante o período de adaptação (aproximadamente 30 dias  depois do plantio), pois elas podem se queimar ao entrar em contato direto com fertilizantes.

Por fim, adicione uma camada de palha ou pedras para proteger o solo do impacto da chuva e dos raios de sol e manter a umidade (caso o vaso fique num espaço aberto).

Esta é a estrutura  ideal de um vaso para plantas terrestres. Já  num terreno mais profundo, como no jardim de sua casa, a estrutura está escondida no subsolo e para saber como ele é, deve-se estudar o terreno. Para isso, cave um buraco de cerca de 50 cm de profundidade por 50 cm de largura para ver se há presença de raízes, rochas ou seixos de rio. E já veja qual é o tipo e a cor da terra (descubra sobre as propriedades de cada uma no post Terra de muitos tons)

É muito importante levar em conta o relevo, observar as marcas da erosão, o acúmulo de areia e terra argilosa e as plantas existentes para descobrir onde o solo é mais  irrigado e fértil. Observar também os tipos de plantas que existem no local, pois muitas delas revelam  onde o terreno é mais fértil.  Em fazendas ou sítios, é importante evitar áreas onde  houve a passagem de carros ou de gado porque estes causam a compactação do terreno.

Caso se queira plantar uma árvore frondosa, de raiz profunda, como o Mogno ou Pinheiro, melhor que haja espaço no subsolo para que as raízes cresçam sem o empecilho de encontrar uma rocha no meio do caminho ou o solo compactado, de tal forma que as raízes  não consigam se desenvolver (muito comum de acontecer em canteiros próximos à ruas e estradas).

Já se o desejo for de cultivar uma horta, o melhor é que seja num terreno bem drenado, com profundidade maior à 50 cm para que este solo seja revolvido de tempos em tempos, devolvendo a leveza e permeabilidade e propiciando o descanso e a adubação tão importantes para desenvolvimento das raízes.

Para saber sobre a granulosidade (textura) do solo, é preciso pegar a terra na mão e esfregar ou peneirar para ver o tamanho dos grãos. Um bom teste é misturar a terra com água em um copo para compreender como aquele mineral se dilui e se reagrupa. Se for um solo rico em areia, ela se depositará por baixo, por ser mais pesada, e a argila se acumulará por cima, por ser mais leve e as matérias orgânicas  flutuarão na superfície. Assim você poderá ter uma ideia como um todo de como essas partes se dividem e das proporções que constituem o solo no terreno onde você pretende cultivar sua horta ou plantar sua árvore.

Uma vez que a terra esteja  preparada, a escolha do cultivo passa a ser bem mais simples. Agora o que vai ser? Uma linda árvore para dar bastante frutos e sombra para sua casa ou ervas saborosas e aromáticas para seu próximo prato na cozinha?

Foto: domínio público/pixabay

Liliana Allodi

Geógrafa, paisagista, educadora ambiental e ilustradora científica. Começou a carreira em São Paulo como consultora paisagística. Durante 10 anos viveu no exterior (Austrália, Israel e USA) e neste último país, firmou suas habilidades para trabalhar com crianças. Atualmente dá aulas de horticultura para alunos do Ensino Fundamental, em Brasília. Também desenvolve projetos junto à Cia da Horta para centros de ensino, clubes e empresas.