Caçador recebe permissão para entrar nos Estados Unidos com “troféu” de leão morto na Tanzânia

Caçador recebe permissão para entrar nos Estados Unidos com "troféu" de leão morto na Tanzânia

Em um retrocesso gigantesco nas leis de proteção animal dos Estados Unidos, com sério impacto na preservação da vida selvagem na África, o americano Carl Atkinson conseguiu, na justiça, permissão para importar um “troféu” de caça: o esqueleto, a pele, os dentes e as garras de um leão morto na Tanzânia.

Essa é a primeira vez que uma permissão desse tipo é concedida desde que entrou em vigor o Ato das Espécies Ameaçadas, em 2016, o que abre um precedente jurídico muito perigoso, já que outros caçadores podem exigir o mesmo “benefício” daqui para a diante.

Coincidentemente, Atkinson foi representado pelo advogado John Jackson III, que é membro do Conselho Internacional de Conservação da Vida Selvagem do governo de Donald Trump.

“Esta é uma notícia trágica para a conservação de leões, e sugere que o governo Trump possa em breve abrir as portas para importar troféus da Tanzânia”, alerta Tanya Sanerib, diretora jurídica internacional do Center for Biological Diversity. “A Tanzânia é um reduto de leões, mas tem sido criticada por cientistas pelo problema com a corrupção e proteção inadequada da vida selvagem. Abrir o mercado dos Estados Unidos para essas importações não é um bom presságio para a sobrevivência da espécie”.

Estima-se que 40% dos leões africanos vivam na Tanzânia.

Em 2017, Trump já tinha revogado a proibição de entrada nos Estados Unidos de troféus de caça de elefantes. Ele derrubou a lei instituída durante o governo Obama, que bania a importação de troféus com cabeças, chifres e outras partes do corpo de elefantes.

Eric e Donald Trump Jr., filhos do presidente, são adeptos da caça de animais selvagens. Em 2012, um deles foi fotografado ao lado de um elefante morto, o que provocou revolta nas redes sociais.

A ameaça à sobrevivência do leão

Os especialistas da organização americana explicam que, em geral, os leões mais cobiçados por caçadores são os adultos, frequentemente, os líderes de um grupo. Quando eles são assassinados, um novo indivíduo precisa tomar o comando dos demais e para isso, tira a vida dos filhos do animal morto para mostrar seu poder.

Encontrado na África e na Ásia, o leão (Panthera leo) é um predador no topo da cadeia alimentar. Por isso, ele tem um papel importantíssimo para controlar a população de presas, abater os indivíduos mais vulneráveis, eliminar portadores de doenças, ou seja, realizar a manutenção de um ecossistema saudável.

Segundo dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), a população de leões na natureza está entre 30 mil e 100 mil indivíduos.

Entre as principais ameaças à espécie estão a caça esportiva e aquela em retaliação pela morte de pessoas e do gado, a destruição do habitat e a venda de ossos para a fabricação de medicamentos (eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros) – leia mais sobre o assunto neste outro post, do biólogo Fábio Paschoal.

Infelizmente, muitos americanos ainda acham que caçar é “divertido”. Uma prática abominável, cruel e bárbara.

*Fonte: Center for Biological Diversity

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Foto: Robin Silver, Center for Biological Diversity

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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