Caatinga em imagens deslumbrantes: o bioma mais vulnerável e desconhecido do Brasil

Vaqueiro, Caatinga proxima a Curaça, BA

A paisagem e a tristeza cantada por Luiz Gonzaga em Asa Branca era da Caatinga, do sertão nordestino, do semi e do “superárido”. Sobre ela lemos em prosa – Vidas Secas, de Graciliano Ramos – e em verso – Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Eram manifestos, lamentos, denúncias. O mundo precisava conhecer esse “cadinho” do Brasil tão esquecido e castigado. Cordéis também contaram histórias da região, nem sempre tristes. Sua “má fama” – seca, miserável e infértil –, mesmo sem querer ou com a melhor das intenções, prosperou nos jornais, nas TVs, nas revistas, nas rádios, no cinema. Tanto que, ao ouvir falar da Caatinga, que imagens vêm rapidamente à mente? Vegetação abundante? Animais saudáveis? Gente feliz?

Pois a Caatinga é tudo isso, na verdade. É aquele chão seco que dói na alma, mas é a vegetação abundante – em alguns momentos do ano – também. É a ossada do gado que não resistiu à falta de água constante, mas também a criação de animais de porte médio que exigem pouca água e não degradam o ambiente. É a família miserável à porta da casa de barro esperando pelo nada, mas é a criança na escola, o pai que vende sua produção na vendinha do centro longínquo da cidade e a mãe que aquece o feijão, a farinha e um pedaço de carne de sol, com capricho, no fogão a lenha. É escassez, mas é também uma biodiversidade muito particular e bela,  como podemos ver na linda foto de Adriano Gambarini que abre este texto (vaqueiro próximo a Curaçá, BA), e também nas outras 29 imagens deslumbrantes que ele e os fotógrafos Daniel de Granville, Marcos Amend e João Marcos Rosa (que assinam o blog coletivo Por Trás das Câmeras, aqui no Conexão Planeta) ofereceram para esta homenagem ao Dia da Caatinga, 28 de abril.

Seu nome vem do tupi-guarani – mata (caa) branca (tinga) – e lhe foi dado por causa da paisagem esbranquiçada que domina o cenário no período seco, quando a maior parte das plantas perde as folhas e seus troncos ficam esturricados, esbranquiçados. Mas, como já disse, ela é dual. Considerada como um misto de savana (vegetação própria do Cerrado) e estepetambém se diz que é fruto da integração entre Mata Atlântica e Cerrado -, a Caatinga exibe paisagem bastante diversa justamente por causa da chuva, da (in)fertilidade do solo e do relevo. Assim, também é chamada de agreste e de sertão.

É o único bioma exclusivamente brasileiro, o que significa que boa parte de seu patrimônio biológico não existe em mais nenhum outro lugar do planeta. Também é o mais desconhecido e o mais frágil: o uso insustentável de seu solo e dos recursos naturais e a imagem eterna de pobreza e da seca, sempre ajudaram a manter sua degradação.

Ocupa cerca de 11% do território nacional – 850 mil km2, o que equivale ao tamanho da Alemanha e da França, juntas – e envolve dez estados, a maioria no Nordeste: Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e parte de Minas Gerais (este, na região Sudeste).

Seu clima é semiárido. As chuvas duram muito pouco e há longos períodos de estiagem. Por isso, a evaporação supera a precipitação praticamente em todos os meses do ano. E mais: 80% do solo não tem lençol freático.

Em meio a esse cenário inóspito, a Caatinga apresenta diversidade de animais e de plantas bem maior do que em outros biomas brasileiros. Isso ocorre porque algumas espécies sabiamente se adaptaram a esse ambiente seco, sem água e com solo pobre. Quando a natureza não ‘colabora’ – durante oito meses do ano -, se recolhem e ‘descansam’, só ‘voltando à vida’ depois das primeiras chuvas. É inacreditável, mas a mata branca chega a explodir em cores e perfumes, frutas e sementes nesse período.

Na Caatinga, é preciso coragem, mas principalmente aprender a conviver com o que a natureza oferece, em total sincronicidade. Como em qualquer outro lugar do planeta. Era preciso descobrir isso para compreendê-la e reduzir sua ‘má fama’. Estudiosos e profissionais de diversos segmentos – na companhia da tecnologia, muitas vezes -, assim como a população que nela vive, são aliados nessa jornada que pode garantir, cada vez mais, sua preservação e renda do que essa terra dá.

Agora, vamos a ela, pelas lentes dos nossos queridos fotógrafos que a visitam sempre!

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Apesar das adversidades da vida diária, o povo do sertão é sempre afável, hospitaleiro. E isso sempre encanta Adriano Gambarini, que tem uma coleção de retratos feitos pelo Brasil

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A fé é demonstrada com frequência pelo povo do sertão, por Adriano Gambarini

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Seu Zequinha é guarda-parque da Estação Biológica de Canudos, um dos principais pontos de reprodução das araras-azuis-de-lear. Por João Marcos Rosa

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Casa de barro, com bancos na parte de fora para “passar o tempo”, em Lajeado, por Marcos Amend 

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Em terras da Fazenda Serra Branca em Jeremoabo, Bahia, por João Marcos Rosa

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O Morro Três Irmãos, na Chapada Diamantina, na Bahia, por Daniel de Granville

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O mirante Serrote do Urubu, na região da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, por Daniel de Granville

Caatinga no Raso da Catarina e Entorno, na Bahia, por Adriano Gambarini

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Baixão das Andorinhas, no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, por Daniel de Granville

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Formações rochosas dominam a cena em parte da Serra da Capivara, no Piauí, por Marcos Amend

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As pedras arredondadas e desgastadas pelo tempo parecem ter sido “colocadas” na região de Lajedo do Pai Mateus. Foto de Marcos Amend

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O bicho da foto é uma irara (Eira barbara), fotografada por João Marcos Rosa na Toca Velha, dentro da Estação Biológica de Canudos, administrada pela Fundação Biodiversitas

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Formações rochosas desgastadas pelo tempo e o vento, no Parque Nacional da Serra da Capivara,
por Marcos Amend

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Trilha Hombu Jurubeba, no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, por Daniel de Granville

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Trilha que leva à Grota do Angico em Poço Redondo, Sergipe, onde mataram Lampião. Foto: João Marcos Rosa

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Araras azuis na Fazenda Serra Branca em Jeremoabo. Bahia, por João Marcos Rosa

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Criação de cabras em Lajedo do Pai Mateus, por Marcos Amend

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A iguana é uma das espécies mais comuns da Caatinga, por Adriano Gambarini

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Este é o Mocó (Kerodon rupestris), roedor encontrado em áreas pedregosas do Nordeste e do norte de Minas Gerais. Por Daniel de Granville

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Gafanhoto, no Parque Nacional da Serra da Capivara, por Marcos Amend

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Arapaçu-beija-flor (Campylorhamphus trochilirostris), na Estação Biológica de Canudos, por João Marcos Rosa

Arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), na região do Raso da Catarina e Euclides da Cunha, na Bahia, por Adriano Gambarini

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Araras-azuis-de-lear, na Toca Velha, dentro da Estação Biológica de Canudos, administrada pela Fundação Biodiversitas, um dos principais pontos de reprodução dessa espécie. Foto de João Marcos Rosa, que já escreveu sobre essa foto no blog Por Trás das Câmeras, aqui no Conexão Planeta

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Em algumas regiões da Caatinga, o colorido das casas é um espetáculo à parte e contrasta com o céu azul. Foto de Adriano Gambarini

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Esta é a Flor de Mandacaru, na Fazenda Serra Branca em Jeremoabo, Bahia. Por João Marcos Rosa

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Na Caatinga, a diversidade de flores e de cores impressiona. Esta foi registrada na Serra da Capivara, por Marcos Amend

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O design especial da natureza também está presente na Caatinga: aqui, mistura formatos e densidades, por Adriano Gambarini

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Flores e cactos, muito comuns na paisagem da Caatinga, por Marcos Amend

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A Barriguda lembra o Baobá, de Madagascar, por isso é chamada de “baobá brasileiro”.
Foto de Marcos Amend, em Peruaçu

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

3 comentários em “Caatinga em imagens deslumbrantes: o bioma mais vulnerável e desconhecido do Brasil

  • 28 de abril de 2016 em 7:16 AM
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    Parabéns pela matéria! Deu saudades de viajar pela caatinga!! Permita-me apenas uma pequena correção para a legenda da foto intitulada “Teiú, um dos maiores lagartos da Caatinga, por Adriano Gambarini”. Trata-se de uma iguana. Abraço,

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    • 28 de abril de 2016 em 3:59 PM
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      Obrigada pelo comentário animado e e pela observação, Francisco! :-)
      Já está corrigido.
      Abraços

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  • 29 de abril de 2019 em 5:35 PM
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    Reportagem maravilhosa que me (re)educou sobre esse vasto e difamado pedaço do território brasileiro.
    Obrigada!

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