Buriti antes e após o sol

pé de buriti

Com o verão a todo vapor e o sol botando suas “irradiaçõezinhas” de fora, é bom fazer um plano completo de proteção, dos pés à cabeça, passando, sobretudo, pelos lábios. A minha sugestão é recorrer a um aliado discreto e ainda pouco conhecido nesta seara: o óleo de buriti. Filtro solar por natureza, o buriti dispensa aditivos químicos para reduzir a ação dos raios solares prejudiciais à pele e, para os esquecidos ou desligados, também ajuda muito na recuperação das queimaduras pós-sol.

Os buritizeiros (Mauritia flexuosa) são palmeiras de 20 a 30 metros de altura, comuns nas veredas dos nossos sertões, de Minas Gerais para o norte. Na Amazônia, ocorrem nos igapós, várzeas e campos inundáveis, formando palmeirais quase exclusivos. Crescem inclusive nas praças e nos parques urbanos de algumas cidades (sortudas): basta ter um pedaço de solo encharcado e, lá estão eles, com as raízes na água e as folhas espalmadas para o céu.

Os frutos do buritizeiro dão em cachos abundantes, marrom-alaranjados. São 5 a 7 cachos por ano, cada um com 400 a 500 frutos! Olhando de perto, o buriti é um coquinho dos mais estilosos, de casca lustrosa, riscada em losangos. Parece coisa de designer. E o povo costuma fazer doces ricos em carotenoides, precursores da vitamina A, que nos ajuda a enxergar longe.

Mas é o óleo extraído da polpa que interessa à indústria cosmética, por suas propriedades polivalentes contra os danos causados pelo excesso de sol. Uma empresa sediada em Vinhedo, no interior de São Paulo, usa o óleo de buriti em suas formulações, sem acrescentar nadinha de químicos. É a Poli Óleos Vegetais, que desde 2002 comercializa óleos no atacado e desde 2010 tem sua própria linha de cosméticos orgânicos e veganos para venda no varejo. O nome comercial dos cosméticos – Ikove – deriva do tupi icobé, cujo significado é estar bem ou viver em boa saúde.

Boa parte dos óleos vegetais por eles produzidos têm ativos da biodiversidade brasileira, obtidos por meio de contratos fechados com comunidades extrativistas ou cooperativas e associações de agricultores familiares, conforme as regras de comércio justo (fair trade). No caso dos 30 produtos cosméticos formulados para a linha Ikove, pelo menos 95% do conteúdo é orgânico e certificado conforme as diretrizes europeias (selos Ecocert e USDA Organics). Os 5% restantes são estabilizantes e conservantes naturais, permitidos pelas certificadoras.

Os produtos Ikove são mais conhecidos na Europa (sobretudo na Alemanha e na França) e nos Estados Unidos, onde são vendidos há 5 anos. No Brasil, ainda são poucos os pontos de venda, em quiosques de shoppings e em lojas de produtos naturais.

“Usamos nossos ativos botânicos na função original e não testamos em animais. Não fazemos desodorização ou despigmentação e não quebramos as moléculas, só filtramos”, explica Evelyn Steiner, sócia proprietária da empresa. Nenhum dos cosméticos tem aditivos como parabenos, etoxilados e lauryl sulfatos. Nem aromatizantes artificiais. “Você não vai sentir aroma de morango ou framboesa em nossos produtos. Eles têm cheiro de mato”, diz.

 

produtos ikove

O óleo de buriti compõe a fórmula de um hidratante labial de consistência firme, vendido em latinhas de 9 gramas, que cabem em qualquer bolsa. O fator de proteção solar é 15. E o produto ainda conta com cera de abelhas, cera de carnaúba, manteiga de murumuru e aroma natural de cacau. Também tem buriti na loção de uso diário e pós-sol para corpo e rosto, cuja fórmula ainda é composta por óleos de andiroba e lavanda, extratos de cavalinha e calêndula, sumo de babosa e manteiga de cupuaçu.

Evelyn fez o teste de fogo com sua loção de buriti, num dia em que exagerou nas horas de praia e ficou muito queimada. De pele branca, ela mesma se surpreendeu com a eficácia do produto, que evitou bolhas e acabou com a vermelhidão rapidamente. Então, se você também faz o tipo distraído, melhor levar uma loção dessas quando o programa for praia ou piscina. E, mesmo que não se torre demais, sempre é bom proteger a pele com um pouco de natureza.

Fotos: Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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