Burger King é cúmplice no desmatamento do Cerrado, denuncia organização internacional

Em um estudo detalhado, baseado em imagens de satélites e drones, além de investigação e entrevistas junto a produtores brasileiros de soja, a Mighty Earth, organização global que trabalha pela proteção do meio ambiente lançou nas últimas semanas o relatório O Maior Mistério da Cadeia de Produção de Carne – Os segredos por trás do Burger King e da produção mundial de carne, em que acusa a segunda maior cadeia de fast food do planeta, de comprar ração feita com soja vinda de áreas desmatadas do Cerrado brasileiro e florestas da Bolívia, para alimentar o gado que produz a carne utilizada em seus hambúrgueres.

O objetivo do estudo da Mighty Earth, financiado pela Norwegian Agency for Development Cooperation, era descobrir qual o impacto ambiental da cadeia, que vende 11 milhões de Whoppers, Crispy Chicken Jr., Bacon Kings e outros sanduíches por dia, em suas 15 mil lojas, em aproximadamente 100 países. O Burger King é administrado pela empresa de investimentos 3G Capital, fundada pelos brasileiros Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira, Marcel Herrmann Telles e Roberto Thompson, que são ainda acionistas majoritários em gigantes como a Kraft Heinz Company e a Anheuser-Busch InBev.

De acordo com o relatório da organização internacional, o Burger King não oferece informações públicas sobre a origem de sua carne, nem se compromete a adotar uma política séria de responsabilidade ambiental. Em um ranking que avalia o desmatamento causado pelos maiores produtores de carne do mundo, elaborado pela Union of Concerned Scientists, entidade independente que alia ciência à preservação do planeta, a cadeia gerida pelos bilionários brasileiros recebeu a pior avaliação perante seus concorrentes. Seu principal rival, McDonald’s, por exemplo, está muito mais comprometido a eliminar de sua cadeia de suprimentos e fornecedores o uso de carne vinda de áreas onde florestas estão sendo destruídas.

O rastro da soja

Para poder mensurar o impacto da cadeia de fornecedores do Burger King no desmatamento de um dos mais importantes biomas brasileiros, o Cerrado, que tem sob seu solo os maiores mananciais de água do país, a Mighty Earth percorreu 28 localidades – 15 delas em território brasileiro -, cobrindo 3.000 quilômetros de extensão, onde “a produção de soja em escala industrial está alimentando o desmatamento em massa”.

Atualmente a soja é o principal ingrediente das rações que alimentam o gado, usado na produção mundial de carne. Estima-se que 75% da soja colhida hoje é utilizada para este fim. De acordo com o relatório, mais de um milhão de quilômetros quadrados do nosso planeta, o equivalente ao total das áreas da França, Alemanha, Bélgica e Países Baixos juntas, é dedicado à produção de soja.

Burger King é cúmplice no desmatamento do Cerrado, denuncia organização internacional

A Mighty Earth relacionou dados e análises da Companhia Nacional Brasileira de Abastecimento Agrícola (Conab) sobre a presença de silos de grãos e outras instalações das fazendas produtoras de soja com os índices de desmatamento feitos por satélite pelo grupo de pesquisa Lapig, da Universidade Federal de Goiás.

A soja produzida no Cerrado brasileiro é comprada por grandes multinacionais, como Cargill e a Bunge (fornecedoras do Burger King), que fabricam rações e as comercializam com empresas do mundo inteiro “para alimentar galinhas, porcos e vacas mantidos em confinamento, até serem transformados em sanduíches de frango, bacon e hambúrgueres? .

O Maior Mistério da Cadeia de Produção de Carne – Os segredos por trás do Burger King e da produção mundial de carne acusa as companhias acima de, além de comprar soja, financiar a construção de estradas e outras infraestruturas para o agronegócio, e desta maneira, ter papel direto no desmatamento da região.

A organização internacional registrou imagens que revelam imensas áreas desmatadas, tomadas pela monocultura da soja e ainda, incêndios propositais para limpar a terra, que em alguns casos, saíam fora de controle e destruíam áreas próximas de vegetação da floresta.

A soja não é o único vilão do desmatamento. Na verdade, segundo a Union of Concerned Scientists, a produção de carne é a principal responsável pela destruição de florestas no mundo, mas sobretudo, na América do Sul. A pecuária coloca duas vezes mais árvores no chão do que as lavouras de soja, óleo de palma e as indústrias madeireiras.

Como enfrentar o desmatamento?

O relatório elaborado pela Mighty Earth aponta algumas das soluções para reduzir a destruição da floresta no Brasil. Um dos exemplos bem sucedidos apontado é o da moratória da soja, acordo firmado entre indústrias do setor do agronegócio (inclusive Cargill e Bunge), sociedade civil e governo, que se comprometem a não comercializar, adquirir ou financiar soja proveniente de áreas de desmatamento na Amazônia. Concebido inicialmente para ter duração de dois anos, o pacto vem sendo renovado anualmente e reconhecido como uma excelente ferramenta para evitar o desmatamento no bioma amazônico.

Com a moratória, hoje apenas 1% das novas plantações de soja na Amazônia brasileira é proveniente da destruição de florestas, enquanto no passado, este percentual chegou a 30%.

O estudo cita ainda os esforços do ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, em replicar a moratória da soja no Cerrado. “Hoje o desmatamento é muito maior no Cerrado do que na Amazônia. Com a crise climática, cada vez mais precisamos da floresta em pé, proporcionando benefícios ambientais e garantindo a presença de água”, disse ele, em 2016. “Podemos ver o quanto este caminho avançou na Amazônia e planejar sua evolução.”

O estudo deixa claro que o Burger King não é a única empresa do setor de alimentação a adotar práticas pouco transparentes sobre a origem de seus ingredientes, mas enfatiza que, ele e seus fornecedores têm a oportunidade de exercer um papel de liderança no setor em que atuam, ao mostrar que estão comprometidos com a preservação do meio ambiente. Influência e dinheiro não lhes faltam.

Procurados pela reportagem do jornal The Guardian, que também publicou matéria sobre o relatório da Mighty Earth, o Burger King não quis se pronunciar sobre o assunto. Já a empresa Cargill enviou um comunicado escrito afirmando que se comprometeu a reduzir em 50% a compra de soja de áreas desmatadas de sua cadeia de fornecedores até 2020 e dar um fim à esta prática até 2030. A Bunge disse ao The Guardian que a correlação entre sua presença no Cerrado e áreas de desmatamento está equivocada.

A vida no Cerrado

Segundo maior bioma brasileiro e um dos mais ameaçados, o Cerrado é uma savana com 200 milhões de hectares, coberta por vegetação e rica em vida selvagem. A região abriga 5% da biodiversidade mundial, incluindo espécies ameaçadas, como a onça-pintada, o tamanduá-bandeira, a raposa-do-campo, o lobo-guará e o cervo de pântano.

Chamado de berço das águas pela abundância hídrica que o caracteriza, encontram-se no Cerrado as nascentes das três maiores bacias da América do Sul  – Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata.

Alguns dos parques nacionais mais queridos do país estão localizados ali também, entre eles, a Chapada dos Guimarães e na Chapada dos Veadeiros.

Mas, infelizmente, este bioma pede socorro. Está sob ameaça, assim como os animais que vivem nele. É o caso, por exemplo, das antas, que tentam sobreviver em fragmentos de habitat e “oceanos” de soja e cana, e muitas vezes, acabam queimadas por incêndios, como mostramos aqui, neste post muito triste, em setembro do ano passado.

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Foto: Alf Ribeiro/divulgação Mighty Earth

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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