Buraco sem fundo

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Não… Não jogue tudo que você quiser no primeiro buraco que encontrar. Não deposite todas as suas fichas na certeza de que o infinito mora na natureza e no tempo. O horizonte pode ser sabe-se lá onde, mas não jogue com a convicção de que ele sempre estará e existirá, vá você onde for. A ida pode não ter volta.  Você pode ficar preso numa enchente provocada pelo aquecimento global causado, entre outras coisas,  pelos gases dos lixões.

Não que o japonês Hiroya Sakurai tenha pensado nisso exatamente quando nos apresentou esse buraco sem fundo que é o mundo. Mas, como a beleza da arte está na viagem imaginária na cabeça do receptor, deixo aqui a minha impressão. E intenção de falar de lixo.

Nunca produzimos tanto… Por dia são 192 mil toneladas de lixo. 79 mil toneladas não têm destinação correta. Sabe lá o que é isso? 41%! O Brasil ocupa a quinta posição entre os que mais produzem lixo no mundo. Os primeiros são Estados Unidos, China, União Europeia e Japão. Esse nosso estilo de vida prático está virando uma faca de dois gumes.

Várias facas paralelas no nosso pescoço, já esticado, tentando respirar na maré que sobe e sobe e sobe… Limites que pareciam flutuar em lagoas plácidas e largas de água, levada para um canal de irrigação, como esse do filme de Sakurai, são atingidos rapidamente.

Como estará essa água que garante crescimento para o arroz  e comida para a população? Como estarão as águas de todos os cantos, de todas as profundezas? Elas não se transformam mais, apenas, porque refletem outras cores do fundo. Acidificados os níveis de certos elementos químicos, o universo aquático passa a matar seus habitantes.

O sutil movimento desnivela emoções. Aumenta a triste realidade por sabermos que cada vez mais belezas naturais ficam encurraladas na vala comum da poluição e destruição.

Pequenas mudanças em nossos hábitos diminuiriam esses impactos. Comprar de empresas preocupadas, de verdade, com a sustentabilidade é importante. Ter uma postura atuante contra o desperdício e repensar a quantidade e a procedência dos produtos que se consome são boas medidas. Ou você quer que essa imagens lindas de Sakurai terminem por serem lembradas só em filmes, como esse de cinema experimental ou documentários e fotos?

O oceano borbulha segredos, belezas e… tristezas. Uma onda emergente vem sempre contar algo no nosso ouvido. Uma bolha, a toda hora, sobe à tona e ploft, diz o que está acontecendo. Sabemos de tudo. Não podemos fazer cara de paisagem. Fingir que não é conosco esse assunto, dizer que isso é coisa de eco-chato pega mal. Mal mesmo. Melhor enfiar a cabeça num buraco. Sem fundo.

Fotos e vídeos: reprodução Facebook Hiroya Sakurai

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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