Brumadinho: um ‘Vale’ de mortes, de desaparecidos e de impacto ambiental


Brumadinho: um 'Vale' de mortes, de desaparecidos e de impacto ambiental

*Atualizado em 13/02/2019

Brumadinho chora seus mortos e seus desaparecidos. Chora por seus animais que foram levados e soterrados pela lama. Chora pela sirene que não tocou. Chora pela destruição. Chora pela vida que nunca mais será a mesma. E chora por um novo desastre (crime) ambiental que poderia ter sido evitado.

Quase três dias após a barragem de resíduos de mineração da Vale se romper, em Minas Gerais, hora a hora, o número de vítimas aumenta. Até agora, já são 176 as pessoas que perderam a vida, sugada pelo mar de lama que veio da barragem da Mina do Córrego do Feijão. Mais de 100 ainda estão desaparecidas. Com pouquíssimas chances de serem encontradas com vida. Um sofrimento sem fim para familiares e amigos que aguardam notícias, se agarrando a um último fio de esperança.

A prioridade é salvar as vidas humanas. Mas centenas de animais também foram atingidos pelo acidente. Os peixes já estão morrendo ao longo do rio Paraopeba, um dos formadores do São Francisco. Vídeos divulgados na redes sociais mostram os peixes sem vida… Pequenos e grandes, como enormes surubins, dourados, tambaquis.

E não são apenas os peixes que foram afetados. Moradores relatam que viram cavalos, bois e vacas levados pelo mar de resíduos de mineração. Outros ainda estão ilhados, sem acesso à água e a alimentos. E há ainda os animais de estimação, como galinhas, gatos e cachorros, perdidos no meio de tanta destruição.

O Conselho Regional de Medicina Veterinária (MG) trabalho junto com a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros para tentar fazer o resgate desses animais. Já há um número suficiente de veterinários voluntários cadastrados, mas o problema é que a quantidade de lama dificulta muito o trabalho e, por motivo de segurança, eles não estão autorizados a entrar na área atingida sozinhos.

No domingo (27/01), o Ministério Público Estadual de Minas Gerais deu um prazo de três horas para que a Vale apresentasse um plano emergencial de localização, resgate e cuidado dos animais atingidos pelo derramamento da lama dos detritos da Mina do Córrego do Feijão. O documento deve prever também um levantamento, junto com moradores locais, do números e das espécies dos bichos desaparecidos.

Devastação ambiental

No sábado (26/01), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) multou a Vale em R$250 milhões pela “responsabilidade na catástrofe socioambiental”. Até a próxima quarta-feira (30/01) sairá o resultado do primeiro exame feito com amostras do rio Paraopeba por técnicos da Agência Nacional de Águas (ANA). Foi recolhida água de 47 pontos diferentes. O rio abastece (melhor, abastecia) cerca de 3 milhões de pessoas, entre elas, moradoes da grande Belo Horizonte.

E qual será o impacto dos 12 milhões de metros cúbicos de lama sobre o meio ambiente? Apesar de a Vale afirmar que os dejetos não são tóxicos, especialistas dizem que haverá contaminação do solo e da água por minério fino.

No caso do desastre de Mariana, quando a barragem de Fundão, da mineradora Samarco, se rompeu em 2015, os prejuízos ambientais ainda hoje, mais de três anos depois, continuam a ser percebidos. Dois anos depois da tragédia, o minério ainda contaminava a água do Espírito Santo, da Bahia e do Rio de Janeiro.

A pergunta entalada na garganta de todos os brasileiros é por que crimes socioambientais, como o ocorrido na última sexta-feira, ainda continuam ceifando vidas de cidadãos inocentes. Trabalhadores simples, que só querem garantir a sobrevivência de suas famílias e, de uma hora para outra, têm sua existência soterrada por um mar de lama.

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Fotos: reprodução Facebook Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)e Isac Nóbrega/Fotos Públicas

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Brumadinho: um ‘Vale’ de mortes, de desaparecidos e de impacto ambiental

  • 28 de janeiro de 2019 em 2:19 PM
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    A gente sabe muito bem que, em todas as tragédias, pessoas são prioridade. Por isso helicópteros sobrevoam vacas ainda vivas, lentamente se movendo atoladas na lama, “sem a enxergarem” ou sequer comentarem sobre o desespero do animal em agonia, ao contrário de todas as tentativas levadas a cabo, fosse a vítima um ser humano. A gente sabe que a nossa espécie superior não pode nem deve colocar num mesmo plano, o resgate de qualquer espécie animal e de um ser humano, sem conseguir evitar as conseqüências legais de arriscarem vidas importantes por causa de “um simples cão”, macaco, boi, cavalo ou passarinho, apesar de serem o lado mais fraco da corda, onde sempre arrebenta primeiro. Houvesse nascido, cada um de nós, com a roupagem física de um simples cão, macaco, boi, cavalo ou passarinho e acharíamos normal sermos livrados do tormento prolongado ou da morte dolorosa. Mas quem sabe um dia, mais adiantados em sabedoria e compaixão, ao precisarmos decidir pelo resgate de uma criança ou de um cão, não hesitaremos em optar pela prioridade de SALVAR OS DOIS, porque é exatamente isso o que Deus espera que se faça, não menos do que isso,SALVAR ao mesmo tempo OS DOIS.
    http://www.ogritodobicho2.com/2019/01/atualizacoes-sobre-tragedia-de.html#more

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