Brasileiro coordena projeto em que violinista volta a compor depois de grave acidente cerebral

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A história que você vai ler a seguir é emocionante. Parece fazer parte de algum roteiro de filme de Hollywood. Mas é real, aconteceu em Londres e tem entre seus atores principais um pesquisador brasileiro.

Há dez anos, Eduardo Miranda (à esquerda, na foto acima) é coordenador de um projeto na Plymouth University, no sudoeste da Inglaterra, que busca entender como o cérebro humano processa a música. O brasileiro, que já vive há dez anos na Inglaterra – e há 25 na Europa -, é responsável pelo Interdisciplinary Centre for Computer Music Research da universidade.

“Depois de um tempo que criei o projeto, tive uma ideia: será que não poderíamos usar pacientes com problemas neurológicos e motores em nossa pesquisa?”, contou ele ao Conexão Planeta.

A ideia era ótima, mas na prática, não se mostraria tão simples assim. Miranda explica que é muito difícil para centros de pesquisa terem acesso à pacientes em hospitais. “E poucos hospitais do mundo tem uma área de musicoterapia”, diz.

Todavia, o Royal Hospital for Neuro-disability, em Londres, gostou do projeto da Plymouth, liderado pelo acadêmico brasileiro. Mas este foi apenas o primeiro passo.

O projeto de Eduardo Miranda utiliza tecnologia de ponta para poder ler as mensagens cerebrais de pessoas que não conseguem mais falar – Brain Computer Music Interfacing software, em inglês. Os pacientes selecionados para participar da pesquisa – quatro no total –, usam uma touca com eletrodos (sensores) que lêem os sinais elétricos do cérebro. Ao olhar para painéis coloridos à sua frente, com notas e frases musicais, só com o olhar o sistema consegue detectar a escolha do paciente. A tecnologia é tão sofisticada, que se pode até alterar o volume ou o ritmo da composição. A mensagem musical é passada instantaneamente a um instrumentista, que ao vivo, toca aquela música.

Mas foram quase quatro anos somente para adaptar este processo aos pacientes. “Precisávamos mostrar aos médicos e familiares destas pessoas que não havia riscos, que nada os prejudicaria”, relembra. “A maioria dos pacientes só consegue se comunicar, muitas vezes, com os enfermeiros. A comunicação deles é muito limitada”. Miranda explica que os participantes do projeto sofrem do que é chamado em inglês de locked-in syndrom, condição em que os pacientes estão conscientes, mas não podem se mover ou comunicar verbalmente devido à paralisia dos músculos do corpo. Muitos só mexem os olhos.

Para ter o consentimento dos quatro envolvidos na pesquisa, em um segundo momento, foi a vez de conversar individualmente com cada um deles e explicar o projeto para que eles concordassem em participar. O que os unia, além da paralisia, era que todos tinham algum tipo de conhecimento musical.

Porém, dos quatro pacientes escolhidos, havia um caso muito especial: Rosemary Johnson. Violinista e membro da Welsh National Opera Orchestra, ela tinha uma carreira promissora à frente. Em 1988, entretanto, aos 23 anos, sofreu um grave acidente de carro. Passou sete meses em coma. Desde então, Elisabeth locomove-se com a ajuda de uma cadeira de rodas e não fala mais. Consegue somente tocar algumas notas no piano, com a ajuda da mãe, que move seus dedos no teclado.

Mas em julho de 2015, 27 anos após seu acidente, Rosemary voltou a compor. Graças ao projeto de Eduardo Miranda na Plymouth University, ela foi capaz de usar os pensamentos de seu cérebro para guiar os instrumentistas a tocar sua composição.

Junto dela, estavam os outros três pacientes da pesquisa (Clive Wells, Richard Bennett e Steve Thomas) e o quarteto de cordas Bergersen String. O grupo fez um concerto público, realizado no hospital de Londres. Na plateia, outros pacientes, médicos e a equipe do pesquisador brasileiro. “Todos se emocionaram. Foi muito incrível! Era o ápice da nossa pesquisa, um sonho realizado”, revela Miranda. “Vimos nos olhos deles a emoção. Para eles, era simplesmente algo impossível de se imaginar há cinco ou seis anos”.

Para o brasileiro, a experiência foi importante também para envolver os pacientes em uma atividade coletiva, já que eles se sentem bastante solitários ao terem sua comunicação limitada. “Na performance, os quatro estavam interagindo e se comunicando entre eles através da música”.

Através de um aparelho de voz automatizada, Steve Thomas, um dos pacientes, falou: “Foi maravilhoso ouvir o músico tocar a frase que selecionei. Tentei escolher um trecho que fosse harmônico com o que os outros tocaram. Foi incrível”.

Agora a tecnologia desenvolvida pelos cientistas da universidade de Plymouth está sendo aprimorada. O objetivo é que no futuro ela possa ser usada no dia a dia de hospitais que lidam com pacientes incapacitados. “Queremos levar este projeto que junta música e tecnologia para outras instituições de tratamento”, afirma o pesquisador brasileiro.

No próximo dia 27/02, o projeto coordenado por Eduardo Miranda será apresentado no Peninsula Arts Contemporary Music Festival, com a apresentação do documentário The Paramusical Ensemble Project. Confira, abaixo, o trailer do filme:

E, agora, veja imagens de alguns momentos emocionantes desse trabalho tão importante para o desenvolvimento da ciência e para as pessoas com limitações físicas:

concerto-musica-plymouth-800A violinista Rosemary Johnson volta a compor depois de quase 30 anos

concerto-musica-plymouth-5-800O concerto público no hospital de Londres: emoção e muitas lágrimas

concerto-musica-plymouth-4-800Foram dez anos de pesquisa para entender como o cérebro humano processa a música

concerto-musica-plymouth-3-800Eduardo Miranda, ao fundo à esquerda, coordenador do projeto que alia tecnologia e música


Fotos: divulgação Plymouth University

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

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