Brasileiro concorre ao maior prêmio mundial de HQ com história sobre escravidão

Quando tinha 24 anos, o quadrinista paulistano Marcelo D’Salete se deu conta da deficiente literatura a respeito  da realidade dos negros e dos quilombos no Brasil, que, em sua maioria, apresentava apenas a visão dos brancos. Foi então que ele resolveu se dedicar a pesquisas mais profundas sobre os temas, realizadas nas bibliotecas da Casa do Bandeirante e do Museu Afro Brasil – imprescindíveis! -, mas também no exterior. Aqui, faltavam referências sobre as tradições dos povos africanos migrantes. Sua intenção era de oferecer aos negros, como ele, a oportunidade de contar a própria história. Era o ano de 2004.

O Quilombo dos Palmares é um dos poucos mencionados nos livros de História do Brasil e, mesmo assim, de maneira superficial. Além de ser um momento extraordinário da nossa história, existiram muitos outros. À medida que sua pesquisa avançava, mais necessidade ele tinha de mergulhar na vida dos quilombos, também para entender a estrutura da sociedade escravocrata. Descobriu, por exemplo, que há muito mais casos de conflito de escravizados contra seus senhores do que nos contaram.

Desse mergulho, primeiro nasceu a HQ Cumbe, de quase 200 páginas, publicada em 2014 nos Estados Unidos, que reúne quatro contos sobre a resistência dos escravos ao sistema colonial, baseados em documentos reais que Marcelo encontrou. Depois vieram as traduções para Portugal, França, Itália e Áustria. Ela é desenhada em preto e branco e tem poucos diálogos.

O nome da obra veio do idioma de origem banto, o Kimbundo, e significa luz, fogo, força, simbolizando o ideal de liberdade dos personagens da obra, que lutam contra o sistema escravista. No final do livro, o autor reuniu 13 verbetes citados nas histórias com sua tradução, como, por exemplo: calunga = mar, entre outros significados; sumidouro = poço onde eram jogados escravos rebeldes; malungo = companheiro.

É este o trabalho – único brasileiro! – que está concorrendo ao maior prêmio de quadrinhos do mundo, Eisner 2018, na categoria melhor edição americana de material estrangeiro. A cerimônia de entrega deste que é como “o Oscar dos Quadrinhos” acontecerá na próxima sexta, 20/7, no evento de cultura pop Comic Con, em San Diego, Califórnia.

Vale contar que, em 2015, o livro foi indicado ao HQMIX (categoria desenhista, roteirista e edição nacional) e, em 2017, ao prêmio Rudolph Dirks Award 2017 (categoria roteiro) na Alemanha. Também foi selecionado pelo Plano Ler + para leitura em escolas de Portugal.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Marcelo atribuiu o sucesso da publicação e a indicação ao prêmio “ao fato de que, hoje, temos um público negro de leitores cada vez maior e também um público não negro muito interessado no tema. Acredito que isso venha da vontade de compreender melhor a nossa sociedade”. Sem dúvida.

No ano passado, veio o segundo e mais denso gibi de Marcelo – Angola Janga – Uma História de Palmares -, com 400 páginas dedicadas à história dos mocambos na Serra da Barriga que tornaram o quilombo famoso. Conhecemos muito pouco sobre esses grupos e, assim, como os povos indígenas, eles têm muito a nos ensinar sobre como lidar com a terra e o entorno onde vivemos”.

Ao longo de tantos anos de pesquisas, Marcelo se surpreendeu algumas vezes com o que encontrou. Descobriu que quilombos foram estratégias de sobrevivência em boa parte da América Latina, como contou à Folha: “Os escravos fugitivos se escondiam em lugares inacessíveis, no alto das serras, e obrigavam o poder colonial a promover acordos de paz porque não tinham como vencer de outra forma”.

São histórias assim, até então ignoradas, que o quadrinista quer contar em seus trabalhos e ajudar a elucidar a história da escravidão para os brasileiros. Certamente, poderá nos ajudar a compreender os dias de hoje e porque o preconceito ainda está tão arraigado e é tão necessário lutar por representatividade.

Imagens: Divulgação

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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