Brasileira recebe prêmio internacional por pesquisa com alternativa a testes com animais

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A bióloga paulista Bianca Marigliani foi a única pesquisadora latinoamericana a receber o Lush Prize 2015, premiação internacional que reconhece o trabalho de cientistas e organizações do mundo todo que têm como foco a substituição completa de experimentos com animais.

Estima-se que todos os anos mais de 115 milhões de animais sejam usados em laboratórios de teste pelo mundo.  Muitos passam por procedimentos cruéis. Esta é a quarta edição do Lush Prize, promovido pela empresa de cosméticos britânica que tem o mesmo nome.

Este ano, o prêmio de  £450 mil  foi dividido entre cientistas e ativistas de nove países (confira a lista com todos ganhadores no site da premiação).  Para a seleção, foram analisados trabalhos nas áreas de ciência, treinamento, conscientização pública, lobbying e jovem pesquisador.

Além de Bianca, outros quatro jovens pesquisadores  – dos Estados Unidos, Alemanha e Itália -, foram escolhidos. Para os jurados do Lush Prize, pesquisas que aliem o uso de tecnologias modernas, como genética e computação, são o caminho para um futuro em que a ciência molecular possa substituir a velha e imprecisa tecnologia de testes em animais.

Bianca Marigliani é especialista em Biologia Molecular, mestre em Biotecnologia pela USP e doutoranda em Biotecnologia na Universidade Federal de São Paulo. Lá desenvolve métodos in vitro* alternativos ao uso de animais para avaliação de potencial alergênico de agentes químicos. A cientista também é membro fundador do Instituto 1R de Promoção e Pesquisa para Substituição da Experimentação Animal.

Nascida no bairro da Liberdade, a jovem cientista é vegetariana e tem em casa cinco gatos “vira-latas legítimos”, como define: Tati, Nara, Flavia, Vivi e Erica.

Abaixo, a breve entrevista que Bianca concedeu ao Conexão Planeta:

Você pode falar de maneira sintética sobre sua pesquisa?
O objetivo principal é que os métodos in vitro alternativos ao uso de animais para testes cosméticos sejam realmente livres de crueldade. Muitos métodos in vitro utilizam componentes de origem animal, o mais comum é o soro bovino fetal, usado como suplemento do meio de cultivo das células. Existem questões éticas e técnico-científicas a respeito da utilização do soro bovino fetal, e atualmente já existem meios sintéticos, totalmente livres de componentes animal. Então para esse projeto, escolhi um método alternativo in vitro que está sendo validado na Europa para uma das etapas da sensibilização cutânea. A ideia é adaptar a linhagem celular utilizada nesse método a um meio de cultura sintético, a fim de torná-lo totalmente livre de crueldade. Se os resultados forem favoráveis, poderemos realizar testes interlaboratoriais e solicitar uma atualização do método, que passará a não utilizar componentes de origem animal.

Por que você se interessou por esta área?
Sou vegetariana há muitos anos e a utilização de soro bovino fetal nos cultivos celulares me causou estranheza desde meu primeiro dia do Mestrado em Biotecnologia. No decorrer da pesquisa pesquisei sobre alternativas ao uso de soro bovino fetal e tomei conhecimento sobre os meios quimicamente definidos, sintéticos. Já no doutorado, durante a revisão de literatura que fiz para escrever meu projeto, para minha surpresa percebi que muitos métodos in vitro alternativos ao uso de animais para testes cosméticos também utilizam soro bovino fetal, o que me pareceu um contrassenso. Quando surgiu a oportunidade de escrever um projeto para o Lush Prize, achei que seria uma boa ideia verificar se é possível adaptar uma linhagem, que já está sendo utilizada em um método alternativo in vitro, a um meio sintético, eliminando a necessidade de usar o soro bovino fetal.

Por que acha tão importante acabar de uma vez por todas as experiências com animais?
Além de toda a questão ética envolvendo o uso de animais, atualmente sabemos que um conjunto de métodos alternativos substitutivos (culturas de células e tecidos, métodos químicos e computacionais) são mais seguros e confiáveis do que os testes em animais. Então, além de pouparmos os animais, aumentamos a segurança dos cosméticos para os humanos. 

Acredita que já existam soluções e alternativas viáveis e passíveis de emprego em grande escala para novos métodos?
Sim. Ainda há muita coisa a ser feita, mas já avançamos bastante nessa área. Temos muitos métodos alternativos sendo desenvolvidos e outros já foram validados ou estão em processo de validação por órgãos internacionais. Diversos países, incluindo a União Europeia, já baniram os testes em animais para cosméticos. Uma vez que a sociedade brasileira não tolera mais que animais sejam utilizados para esses testes, tanto a nossa legislação quanto as empresas devem assegurar que seus produtos estejam de acordo.

*in vitro – métodos baseados no cultivo de células e tecidos em ambiente laboratorial controlado

Foto: divulgação Lush Prize 2015

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

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