Brasil tem aumento de 599% nos casos de dengue em 2019

Brasil tem aumento de 599% nos casos de dengue em 2019

De janeiro até 24 de agosto de 2019 já foram registrados 1.439.471 casos de dengue no país, um aumento de 599% em relação ao mesmo período do ano passado. Os dados que acabam de ser divulgados pelo Ministério da Saúde revelam uma situação preocupante.

O número de mortes também cresceu. Em 2018, nesses oito meses foram 160 óbitos, e este ano, já são 591 vítimas fatais.

Os estados de Minas Gerais e São Paulo são os que concentram, de longe, os maiores registros da doença. Foram atendidos 471 mil pacientes mineiros e 437 mil paulistas.

Todavia, outros estados também chamam a atenção: na Bahia, em 2018, foram pouco mais de 7,6 mil pessoas infectadas, mas até agora, em 2019, já são quase 60 mil doentes. O mesmo ocorre em Goiás, que teve 73 mil casos no ano passado e até este momento, já passa de 108 mil.  

Nas últimas duas décadas, a dengue faz uma curva ascendente no Brasil, com leve queda nos dois últimos anos. O pico foi em 2015, quando foram detectados 1,6 milhão de casos.

A luta para erradicar o mosquito

A dengue é causada pelo mosquito Aedes Aegypti, que também causa a febre chikungunya e o zika vírus. Há anos nosso país enfrenta surtos das doenças, já que métodos de erradicação do mosquito ainda não se mostraram totalmente eficientes. Suas larvas se proliferam em água parada e com as chuvas de verão, elas encontram o habitat perfeito para a multiplicação de sua população.

Os casos de zika e chikungunya também apresentaram um salto em 2019, mas bem menor do que a dengue. O crescimento de ambos foi, em média, de 45%.

O Ministério da Saúde alega que uma associação de fatores foi responsável pelo aumento da dengue no país e cita, por exemplo, o alto volume de chuvas, as altas temperaturas e a mudança no “sorotipo predominante”.

Hoje o ministério está lançando uma nova campanha nacional de combate ao Aedes Aegypti. O objetivo é conscientizar a população a fazer a sua parte. “Se cada um dedicar 10 minutos do dia para verificar se existe algum tipo de depósito de água no quintal ou dentro de casa podemos juntos combater o Aedes”, destaca a campanha.

A opinião de muitos especialistas brasileiros é que não bastam campanhas e colocar a responsabilidade nas mãos da população: se faz necessário um investimento gigantesco em pesquisa (leia aqui entrevista com o pesquisador do laboratório de Virologia da USP, José Eduardo Levi).

Infelizmente, o Brasil vive exatamente um momento em que os recursos em pesquisas no país, que nunca foram dos maiores, estão sendo cortados. O resultado dessa política equivocada pode ser visto pelas estatísticas e pelo aumento do número de mortes. O dinheiro que seria investido em Educação e na Ciência serviria para diminuir os gastos com a Saúde Pública. Mas não é assim que pensa o atual governo.

Aquecimento global: proliferação do mosquito pode aumentar

A dengue é uma doença tipicamente tropical e está presente em mais de 100 países. Ela infecta cerca de 390 milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano, com uma estimativa de 54 milhões de casos na América Latina e no Caribe. O Aedes Aegypti se reproduz em condições quentes e úmidas. Não há tratamento específico ou vacina para a dengue que, em alguns casos, pode ser letal (conforme mostrou esta reportagem do Observatório do Clima).

Em um estudo divulgado no ano passado, na publicação Proceedings of the National Academy of Sciences, pesquisadores afirmaram que 3,3 milhões de casos de dengue podem ser evitados, por ano, se o mundo cumprir o acordo climático. Os cientistas dizem que limitar o aquecimento global seria uma medida essencial para evitar a expansão da doença para áreas onde a incidência é atualmente baixa, como no Paraguai e no norte da Argentina.

Caso a emissão de gases de efeito estufa se mantenha no ritmo atual, o deslocamento das espécies e a transformação dos ecossistemas podem facilitar ainda mais a proliferação desses tipos de mosquito pelo planeta.

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Foto: Marcos Teixeira de Freitas/Creative Commons/Flickr

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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