Brasil traça novo plano automotivo de olho no retrovisor

Brasil planeja novo regime automotivo de olho no retrovisor

O governo discute o novo regime automotivo para o país que substituirá o “Inovar-Auto”, iniciado em 2011 e que se encerra no final de 2017. Apelidado de Rota 2030, tem oito eixos de debate que incluem recuperação de fornecedores, nacionalização de tecnologia, eficiência energética, pesquisa e desenvolvimento, segurança e tributação.

Para uma agenda de 2030, espanta que, tanto no documento base oficial, como nas propostas da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), sintetizadas na Agenda Automotiva Brasil apresentada no final de junho, simplesmente não se faça referência às quatro principais tendências mundiais do setor de transporte e mobilidade: veículos elétricos, conectados, autônomos e compartilhados (leia neste outro post o artigo sobre o tema).

A nacionalização de tecnologia e a recuperação de fornecedores do plano deveria estar focada no desenvolvimento de motores elétricos e baterias. Já temos engenharia e tradição nestas duas áreas, com dezenas de fabricantes de motores elétricos para diversos usos e o maior fabricante de baterias de chumbo do Hemisfério Sul. É preciso nacionalizar as tecnologias específicas para veículos elétricos.

O eixo de ciência, tecnologia e engenharia trata quase exclusivamente de biocombustíveis. Deveria focar em tecnologias para aumento de capacidade de armazenamento e rapidez de carga das baterias, bem como no desenvolvimento de tecnologias e regulamentação do transporte autônomo e compartilhado.

No tema de segurança, os veículos elétricos e autônomos representam um salto quântico em relação ao que há de mais avançado em veículos tradicionais à combustão. Em vez de apenas listar novos equipamentos obrigatórios para segurança, deveria prever a obrigatoriedade de crash-test no Brasil (sim, não é obrigatório do Brasil ainda!). Nos testes de colisão, os carros elétricos têm padrões tão altos que já se pensa em criar uma nova métrica para estes veículos. Até 2025, estima-se que veículos autônomos deverão ser em média mil vezes mais seguros que um humano dirigindo.

Já, no tema de eficiência energética e emissões de gases de efeito estufa e outros poluentes, temos outra diferença brutal a favor dos veículos elétricos não contemplada no plano. Mesmo que todo o combustível utilizado por um carro tradicional com motor à combustão fosse utilizado para gerar eletricidade, os carros elétricos ainda assim seriam mais eficientes e gerariam menos emissões de poluentes.

As vendas de veículos elétricos, que eram praticamente zero em 2010, devem chegar a 1,1 milhão de veículos em 2017. Analistas de mercado já apontam vendas de 10 milhões de veículos em 2025 e cerca de 30% do mercado global de novos veículos até 2030. Veículos de carga pequenos, médios e pesados elétricos e autônomos estão sendo lançados em 2017. Devem rapidamente dominar a paisagem dada a enorme vantagem de custo operacional de poderem operar 24h por dia com enorme segurança.

A não ser que o Brasil esteja numa ilha desconectada do mercado global, a maioria dos veículos deverão seguir estas tendências e o país precisa se preparar para este novo mundo. Como é para agosto, ainda há tempo para reverter ou ficaremos mais uma vez a reboque do que acontece no restante do universo industrializado.

*Este artigo foi originalmente publicado em Época Negócios, edição de julho de 2017

Foto: jaci XIII/Creative Commons/Flickr

Engenheiro florestal, consultor e empreendedor social em sustentabilidade, floresta e clima. Coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima e colunista de O Globo e revista Época Negócios. Foi diretor geral do Serviço Florestal Brasil, diretor executivo do Imaflora e curador do Blog do Clima

Tasso Azevedo

Engenheiro florestal, consultor e empreendedor social em sustentabilidade, floresta e clima. Coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima e colunista de O Globo e revista Época Negócios. Foi diretor geral do Serviço Florestal Brasil, diretor executivo do Imaflora e curador do Blog do Clima

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