Brasil mantém emissões: desmatamento cai, mas setor de energia emite mais

emissoes-estaveis-no-brasil-energia-emite-mais-nafets-800Mesmo com a queda de 18% na taxa de desmatamento na Amazônia, em 2014, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) no Brasil continuaram estáveis. Isso aconteceu por causa do aumento de emissões pelo setor de energia, que agora empata com a mudança de uso da terra como principal fonte de emissão de gases da economia no país.

Esta é a conclusão do SEEG (Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa), do Observatório do Clima (OC), divulgada ontem, em São Paulo. “Os novos dados consolidam o fim da fase de queda de emissões verificada entre 2004 e 2009”, afirmou Tasso Azevedo, coordenador do SEEG. Segundo a nova estimativa, o Brasil emitiu 1,558 bilhão de toneladas de gás carbônico equivalente (CO2e), que representa redução de 0,9% em relação a 2013: 1,571 bilhão de toneladas de CO2e emitidas.

A taxa de desmatamento na Amazônia aumentou 28% em 2013, o que teria elevado as emissões em 8,2% em relação ao ano anterior. Com a queda no desmatamento em 2014, esperava-se a redução das emissões, o que não ocorreu porque o setor de energia jogou mais 6% de carbono no ar – 479,1 milhões de toneladas (mt) de CO2e -, impedindo, também, que a queda nas emissões, verificada na mudança de uso da terra (9,7%), fizesse diferença.

Energia aumenta emissões, mesmo com economia estagnada

De acordo com André Ferreira, presidente do Instituto de Energia e Meio Ambiente, que coordenou os estudos do SEEG em energia e processos industriais, as emissões do setor são “incompatíveis com o estado da economia, que ficou estagnada no ano passado”.

A responsabilidade do aumento nas emissões é compartilhada pelos transportes (emitem 3% a mais do que em 2013), pela geração de eletricidade (aumento de 23%, principalmente por causa das usinas termelétricas fósseis, acionadas quando os reservatórios das hidrelétricas do NE e do Centro-Oeste se esgotaram com a seca) e pela produção dos combustíveis fósseis (mais de 6,8% devido à produção e refino de óleo e gás, como inclui a exploração do pré-sal).

André Ferreti, gerente de Estratégias de Conservação da Fundação Grupo Boticário e coordenador-geral do OC, acredita que “a participação das usinas termelétricas na geração de energia, para compensar a crise hídrica que atingiu as hidrelétricas por causa da seca, foi protagonista nesse resultado”.

seeg-monitor-eletrico-Levando em conta esse panorama, nada mais oportuno do que o lançamento do Monitor Elétrico, anunciado, ontem, por Tasso Azevedo. Trata-se de um sistema que permite acompanhar a geração de eletricidade e suas emissões de gases de efeito estufa, em tempo real.

Novas estimativas colocam em risco compromissos do plano climático brasileiro

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, ao final das apresentações Este  Intended Nationally Determined Contributions (Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas, em tradução livre), comprometendo sua participação na COP21, conferência da ONU sobre mudanças climáticas, que acontecerá em Paris, em dezembro. Com esse plano, o Brasil se comprometeu a reduzir emissões absolutas em toda a economia até 2020. “O país precisa fazer uma transição econômica importante, se quiser entregar não apenas o que prometeu na INDC, mas um corte de emissões compatível com a meta de mantermos o aquecimento global abaixo de 2oC”. E completou: “Com esses níveis de emissão, o espaço para essa transição é pequeno”.

Na agropecuária, as emissões aumentaram também: 1,2%, o que equivale a 423,2 milhões de toneladas de CO2e. Os novos dados do SEEG levam em conta, também, a estimativa do carbono emitido ou sequestrado pelos solos, principalmente em pastagens. Se o volume de carbono liberado pelos 60 milhões de hectares de pastagens degradadas é contabilizado, aumenta em cerca de 25% as emissões do setor em 2014, em relação aos cálculos dos inventários oficiais de emissões brasileiras, que o governo publica. Mas, como destacou Marina Piatto, coordenadora da iniciativa Clima e Agricultura do Imaflora, “é no carbono do solo que está o maior potencial de redução de emissões da agropecuária”. Segundo ela, caso o governo cumpra o que prometeu – aumentar a recuperação dessas áreas degradadas, além de fazer a integração lavoura-pecuária-floresta -, será possível reduzir em 50% as emissões do setor, até 2030.

Mudança de uso da terra é outro segmento importante na contabilização das emissões no Brasil. Amintas Brandão Jr., pesquisador do Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, coordenou estas estimativas no SEEG e destacou a importância das políticas de controle da devastação na Amazônia para que se cumpram as metas para o clima. Lembrou também da urgência do monitoramento do Cerrado – que continua apenas uma promessa do governo -, que vem sendo devastado continuamente. “Os dados sobre o Cerrado têm defasagem de anos. Com a crescente pressão da agropecuária sobre o bioma, ele pode aumentar as emissões por desmatamento no país, ignorado na INDC”.

Por fim, foi analisado o setor de resíduos, que aumentou consideravelmente suas emissões: 6,9%. Por conta do metano, foram de 63,9 milhões de toneladas de CO2e por ano para 68,3 milhões de toneladas, no ano passado. Igor Albuquerque, do Iclei — Governos Locais pela Sustentabilidade, explicou que, por incrível que possa parecer, esse crescimento é também resultado do avanço na implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, em 2010. Ela determina que o lixo seja descartado em aterros sanitários e não em lixões. Só que “os aterros emitem mais metano, um gás de efeito estufa muito potente”. Por outro lado, isto traz oportunidades, já que o metano pode ser capturado para gerar energia. “E isso poderia reduzir as emissões do setor em até 70%”, salientou.

Ficou interessado em aprofundar a pesquisa sobre quanto o país emitiu de 1970 a 2014? Eles estão todos disponíveis no site do Observatório do Clima. O sistema permite a pesquisa por estados e regiões, como também por atividade econômica e, também, cruzar todos esses dados.

Para facilitar o entendimento, a instituição ainda elaborou resumo com as principais conclusões da estimativa.

SEEG pelo mundo

Antes do início da apresentação dos novos dados do SEEG, ontem, no auditório da FGV, em São Paulo, Tasso Azevedo comentou que o Sistema de Estimativas das Emissões de Gases de Efeito Estufa, do Observatório do Clima, já está atuando no Peru e, em 2016, começará a operar também na Índia e na Colômbia.

Foto: nafets/Pixabay

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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