Brasil e Estados Unidos lideram retrocesso ambiental nos últimos 20 anos, revela estudo internacional inédito

Brasil e Estados Unidos lideram retrocesso ambiental

Está difícil manter o discurso (praticamente um “mantra” do governo Bolsonaro) de que o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente no mundo.

Infelizmente, não é verdade. E um novo estudo internacional nos coloca, mais uma vez, sob os holofotes do mundo.

Ao lado dos Estados Unidos, o Brasil é apontado como o país que mais retrocedeu ambientalmente nas últimas décadas. O descaso com as florestas e a biodiversidade é recorrente. O desmatamento, que já estava em uma curva crescente, continua sem freio, e a proteção de áreas protegidas, mais do que nunca, está ameaçada.

No artigo publicado na última sexta-feira (31/05) – The uncertain future of protected lands and waters -, na renomada revista Science, uma equipe de pesquisadores de universidades de diversos países, em parceria com a organização Conservação Internacional, revela o resultado da análise que fez nas mudanças de áreas protegidas ao longo dos últimos 200 anos, de 1892 a 2018.

Os cientistas explicam que a intenção de criar áreas naturais protegidas é protegê-las, a longo prazo, contra atividades humanas destrutivas. No entanto, os governos nem sempre seguem esse propósito e, muitas vezes, eliminam legalmente as proteções e reduzem a extensão das mesmas.

De acordo com o levantamento, foram encontradas mais de 700 dessas mudanças nos Estados Unidos e nos países amazônicos, dois terços das quais ocorreram desde o ano 2000. A maioria dessas alterações nas leis de proteção ambiental permitiu práticas destrutivas, como a extração de recursos. Para os pesquisadores, essas mudanças não apenas alteram o status dessas áreas, mas provocam danos ambientais irreparáveis.

“Investigamos a extinção, a redução de tamanho e a diminuição de restrições de áreas protegidas (PADDD, na sigla em inglês) em 13 países, e incluímos dados coletados de outros 60. No total, encontramos mais de 3.700 eventos PADDD em 73 deles”, afirmou Rachel Golden Kroner, responsável pela área de governança ambiental da Conservação Internacional nos Estados Unidos e principal autora do estudo, em entrevista exclusiva ao Conexão Planeta.

O que os números acima indicam é que foram extintos quase 520 km2 de áreas protegidas, um território maior do que a Espanha – , e outro 1,6 bilhão de km2 teve sua legislação ‘flexibilizada’.

“Um exame da extensão, padrões espaciais, tendências temporais e causas próximas nos dados globais sugere que os Estados Unidos e o Brasil são hotspots emergentes de PADDD. Em ambos os países, as proteções foram relaxadas, os limites reduzidos ou as áreas eliminadas – com um aumento recente nas legislações promulgadas e propostas”, diz.

É preciso ressaltar que o estudo só levou em conta alterações legais, ou seja, aquelas realizadas e permitidas pelo governo federal.

Leis podem ser revogadas

Para Rachel, é importantíssimo que fique claro que a designação de áreas protegidas não é eterna e pode ser revertida a qualquer momento, por qualquer governante, como é o caso, por exemplo, da intenção atual do presidente Jair Bolsonaro, em acabar com a Estação Ecológica de Tamoios, no Rio de Janeiro, e transformá-la em uma “nova Cancun” (leia mais sobre a polêmica neste outro post).

No Brasil, 84% das reversões promulgadas e propostas ocorreram desde 2000. Elas correspondem a 183.164 km2 e compreendem 87% da área total de reversão proposta nos nove países amazônicos.

“Cerca de metade (48%) da remoção legal de proteções foi promulgada ou proposta entre 2010-2017, principalmente para autorizar a construção de represas hidrelétricas”, destaca a autora do estudo.

Já nos Estados Unidos, 90% das alterações aconteceram desde 2000. 99% delas estavam associadas ao desenvolvimento em escala industrial.

“Descobrimos também que aqui, o enxugamento feito pelo presidente Trump, em 2017, dos monumentos nacionais Bears Ears e Grand-Staircase Escalante foram as maiores reduções na história do país, reduzindo as áreas protegidas em 85% (4.657 km²) e 51% (3.489 km²), respectivamente”, alerta Rachel.

Os cientistas envolvidos no estudo ressaltam que à medida que a pressão das atividades humanas na biosfera se acelera é fundamental fortalecer os esforços de conservação – e não revertê-los.

“Eventos recentes de PADDD nos Estados Unidos e no Brasil são particularmente preocupantes. As decisões dos governos americano e brasileiro de reduzir e fragilizar as áreas de proteção podem encorajar outros países a fazer o mesmo”, advertem.

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Foto: domínio público/pixabay

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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