Brasil desiste de sediar conferência de mudanças climáticas da ONU em 2019

Depois das declarações do futuro ministro das Relações Exteriores do país, Ernesto Araújo, de que as mudanças climáticas fazem parte de um complô marxista ou alienígena, estava demorando para que alguém se pronunciasse contra recebermos a conferência do clima da ONU (COP25) no ano que vem.

Pois ontem, terça-feira, 27/11, o Itamaraty divulgou comunicado para dizer que o Brasil vai retirar sua candidatura alegando restrições fiscais e orçamentárias e também o processo de transição de governo, que será iniciado a partir de 1 de janeiro de 2019. “O governo brasileiro conduziu análise minuciosa dos requisitos para sediar a COP25. A análise enfocou, em particular, as necessidades financeiras associadas à realização do evento”.

O jornal Folha de São Paulo apurou que a questão orçamentária estaria resolvida desde outubro, de acordo com membros do alto escalão do Ministério do Meio Ambiente. Eles teriam afirmado que o Fundo Clima detém reserva de recursos para garantir que a realização dessa COP, por aqui, fosse possível, e que esse orçamento já tinha sido aprovado em junho pelo Congresso, com emenda da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). E mais: tal reserva seria estratégica para ajudar a impulsionar a economia de baixo carbono por aqui, com foco na agricultura e em energias renováveis.

Mas claro que não dá pra acreditar apenas nos argumentos do Itamaraty. Além das crenças absurdas do futuro chanceler, como iriamos abrigar negociações para implementação do Acordo de Paris, se Jair Bolsonaro já declarou desejo de tirar o país dele? E Bolsonaro confirmou isso e mais um pouco.

O Chefe da Casa Civil e articulador da transição para o novo governo, Onix Lorenzoni, até tentou preservar Jair Bolsonaro do comunicado polêmico, mas este declarou em seguida que, sim, interferiu nessa decisão porque não quer que “uma política ambiental atrapalhe o desenvolvimento do Brasil“. Segundo o jornal O Globo, ele ainda disse que a economia está “quase dando certo por causa do agronegócio” e que o setor está sendo sufocado por questões ambientais.

É sabido que, durante a campanha eleitoral, Bolsonaro declarou que era seu desejo retirar o Brasil do Acordo de Paris. Para ele, mantendo-se signatário desse acordo, o país seria obrigado a “abrir mão” de cerca de 136 milhões de hectares na Amazônia, o que poderia afetar “a soberania nacional”. Essa área é conhecida como Triplo A. Trata-se de uma proposta de corredor ecológico internacional, que ligaria os Andes ao Atlântico, sobre o qual já falamos aqui, no Conexão Planeta.

Muito trágico para o Brasil, que sempre foi protagonista nas negociações do clima, inclusive a que levou ao Acordo de Paris. Além disso, o país é reconhecido pelo combate ao desmatamento na Amazôniaapesar de que a situação tem piorado nos anos de governo Temer: em 2017, foi registrada a pior taxa dos últimos dez anos – , pela transição da matriz energética para tornar-se independente de combustíveis fósseis e, também, por sua produção agropecuária no que tange ao setor de biocombustíveis.

Na contramão do que fiz Bolsonaro, segundo a Folha, a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), futura ministra da Agricultura, declarou que “o Acordo de Paris é importante para a agricultura brasileira, pois o produtor brasileiro é reconhecido lá fora como preservador”.

O que disse o Observatório do Clima

Assim que soube do comunicado do Itamaraty, a coalizão de entidades da sociedade civil que tem como objetivo discutir a questão das mudanças climáticas no contexto brasileiro, se pronunciou por meio de nota publicada em seu site. Reproduzimos, a seguir, o texto na íntegra:

“É lamentável, mas não surpreende, o recuo do governo brasileiro de sua oferta de sediar a conferência do clima de 2019, organizada pela ONU, a COP25.

Há algumas semanas a administração Temer comemorava a confirmação da candidatura do Brasil como sinal do “papel de liderança mundial do país em temas de desenvolvimento sustentável”. A reviravolta provavelmente se deve à oposição do governo eleito, que já declarou guerra ao desenvolvimento sustentável em mais de uma ocasião.

Não é a primeira e certamente não será a última notícia ruim de Jair Bolsonaro para essa área.

O Brasil vai, assim, abdicando de seu papel no mundo numa das poucas áreas onde, mais do que relevante, o país é necessário: o combate às mudanças climáticas. E, ironicamente, isso ocorre por ideologia, algo que o presidente eleito e seu chanceler prometeram “extirpar” da administração pública.

Com o abandono da liderança internacional nessa área, vão-se embora também oportunidades de negócios, investimentos e geração de empregos. Ao ignorar a agenda climática, o governo federal também deixa de proteger a população, atingida por um número crescente de eventos climáticos extremos. Estes, infelizmente, não deixam de ocorrer só porque alguns duvidam de suas causas”.

Foto: Pixabay/Domínio Público

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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