Brasil consome 1/5 dos agrotóxicos produzidos no mundo e cerca de 1/3 deles é proibido na Europa

Brasil consome 1/5 dos agrotóxicos produzidos no mundo e 1/3 deles tem uso proibido na Europa

Você sabia que o feijão consumido por um brasileiro pode conter 400 vezes mais resíduo do inseticida malationa do que o mesmo grão no continente europeu? E esta discrepância enorme não é ilegal. É permitida pela legislação brasileira, que regulamenta o uso de agrotóxicos no país.

Este dado e tantos outros fazem parte de um novo estudo divulgado recentemente, que vem trazer ainda mais assombro e revolta aos brasileiros. O Atlas: Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, trabalho realizado durante três anos pela geógrafa, professora e pesquisadora Larissa Mies Bombardi, revela como os alimentos ingeridos diariamente no Brasil estão infestados por quantidades de agrotóxicos simplesmente inaceitáveis em outros países e também, como agricultores estão sendo expostos à substâncias químicas proibidas e já banidas na Europa.

Para se ter uma ideia, dos 121 agrotóxicos autorizados para o cultivo do café brasileiro, 30 tem uso proibido nos países da União Europeia. Já no cultivo da soja, dos 150 defensívos agrícolas usados por aqui, 35 foram banidos pelos europeus.

Outro dado estarrecedor do estudo é o que compara o limite máximo permitido de resíduos agrotóxicos no Brasil e na Europa. A soja e o arroz produzidos por aqui podem ter o dobro de resíduos de 2,4D (um tipo de agrotóxico), enquanto o milho pode chegar a possuir quatro vezes mais vestígios deste herbicida do que o que chega no prato dos europeus.

Já no caso do inseticida acefato – terceiro mais vendido no Brasil -, o melão vendido nos mercados brasileiros pode chegar a ter até 10 vezes mais residuais do que na Europa. Nas frutas cítricas, a diferença fica ainda maior: 20 vezes mais do que na Comunidade Europeia. Brócolis: 250 vezes mais!

Em seu trabalho, Larissa Bombardi aponta ainda que não são apenas os alimentos consumidos pelos brasileiros que contêm – legalmente, vale lembrar – mais resíduos de agrotóxicos. O governo do Brasil permite também que a água que ingerimos possua mais resíduos de substâncias químicas do que na União Europeia. Para alguns inseticidas, sequer há um limite estabelecido. Para outros, como o herbicida glifosato, a quantidade considerada aceitável em solo brasileiro é 5 mil vezes maior do que na Europa.

Em um relatório publicado em 2015, a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirmou que o glifosato pode causar câncer em animais tratados em laboratório e que é um potencial causador de alterações na estrutura do DNA e cromossomos das células humanas.

Agrotóxicos: Brasil x União Europeia

Enquanto os governos europeus têm leis mais rígidas para o uso de agrotóxicos, no Brasil, a permissividade parece reinar. O irônico, entretanto, é que as grandes multinacionais fabricantes de agrotóxicos são, em sua grande maioria, europeias, sobretudo, suíças e alemãs. Entretanto, muitos dos produtos que elas exportam têm a venda proibida em seus países de origem. Mas não por aqui.

O Brasil consome cerca de 20% do agrotóxicos comercializados globalmente, ou seja, 1/5 do total. E a cada ano, este volume cresce ainda mais. Praticamente o dobro em relação ao resto do mundo. No ano 2000, foram consumidas 170 mil toneladas. Em 2014, este número saltou para 500 mil toneladas, um aumento de 135%, conforme gráfico abaixo.

O Atlas: Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia destaca que os cultivos da soja, milho e cana são responsáveis pelo emprego de 72% do agrotóxico utilizado no país. Mas é a soja, sozinha, a grande campeã dos pesticidas: ocupando mais de 30 milhões de hectares do solo brasileiro, ela utiliza 52% dos herbicidas na lavoura nacional.

Outra diferença entre Brasil e Europa se refere à validade das permissões de uso. A legislação brasileira permite que o emprego de um agroquímico se dê por tempo indeterminado. Na Comunidade Europeia, ele é reavaliado constantemente, com o “objetivo de se levar em consideração os avanços da ciência e da tecnologia e dos estudos de impacto relativos à utilização dos mesmos“.

O mapa dos agrotóxicos no Brasil

Atlas: Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia é um estudo detalhadíssimo, que inclui uma série de mapas, que mostram, por exemplo, as regiões, estados e municípios onde a utilização de agrotóxicos é mais alta e onde a intoxicação pelo uso dos mesmos atinge os índices mais alarmantes. Entre 2007 e 2014, foram relatados mais de 5.500 casos de intoxicação no Sul do Brasil e praticamente o mesmo número no Sudeste.

Todavia, é o Centro-Oeste, tomado pelas plantações de soja, o grande campeão no uso de agrotóxicos, com uma média anual de quase 335 mil toneladas, no período entre 2012 e 2014. O estudo traça também um paralelo entre o tamanho das áreas de cultivo de diversas culturas no Brasil com as plantações europeias e faz uma análise sobre a situação fundiária no país.

O atlas é tão minucioso que mostra sexo, faixa etária, nível de escolaridade e grupo étnico-racial das pessoas contaminadas pelos pesticidas. Mostra ainda o número de casos relatados de trabalho análogo ao escravo (74% das denúncias totais no Brasil vem do setor agrícola).

É um belíssimo trabalho, que infelizmente, denuncia o lado obscuro da produção de alimentos no Brasil e deve servir para a criação de novas políticas públicas e leis, menos permissivas com o uso de agrotóxicos no país.

Como o professor Brian Garvey, que assina o prefácio da obra, escreve “…fungi-cida, herbi-cida, inseti-cida, pesti-cida. O sufixo ‘cida’ tem como sentido literal ‘matar’. Devemos agora acrescentar homi-cidio, infanti-cidio, sui-cídio e populi-cidio às façanhas desses produtos químicos?”

*Este não é o primeiro trabalho sobre agrotóxicos de Larissa Mies Bombardi. A professora já escreveu diversos artigos e fez outras pesquisas sobre o tema. Muitos estão disponíveis em seu blog.

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Foto: Marco Verch/Creative Commons/Flickr 

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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