Bolsonaro recusa convite de Macron para se reunir com ele e Raoni e diz que líder indígena “não representa o Brasil”

As versões da conversa entre Bolsonaro e Emanuel Macron, que circulam pela imprensa brasileira, foram divulgadas pelo Palácio do Planalto. Procurei por outras informações na internet, mas não encontrei menções à conversa. Queria saber o que o presidente francês, respondeu depois de ouvir tamanho desrespeito do presidente brasileiro contra o cacique kayapó Raoni, que ele tanto admira.

Se este líder indígena não representa o Brasil, quem o representa? Bolsonaro?

O encontro que levou à proposta de Macron aconteceu na semana passada, em Osaka, Japão, durante reunião do G20. Como havia prometido para Raoni, em maio – durante visita deste ao Palácio do Eliseu com sua comitiva – o presidente francês comentou com Bolsonaro sobre sua preocupação com a Amazônia e propôs: “Você aceita se reunir comigo e com o Raoni?”. E este respondeu rapidamente, sem pensar: “Não!”. E já emendou, dizendo que Raoni “não representa o Brasil e sequer representa a comunidade indígena de onde veio”. 

Ele disse isso sobre um líder indígena de 87 anos reconhecido e respeitado no Brasil e no mundo. Um brasileiro que ganhou visibilidade internacional nas três últimas décadas por causa de sua luta pela preservação dos povos indígenas e da Amazônia. Nos anos 80, encantou o cantor britânico Sting e ganhou o mundo. É bem recebido onde quer que vá.

Foi assim em maio, quando viajou à Europa acompanhado por uma comitiva de jovens líderes indígenas – Tapi Yawalapiti (filho de Aritana), Bemoro Metuktire e Kaiulu Kamaiurá -, em busca de apoio e dinheiro para poder proteger a Terra Indígena do Xingu dos ataques do agronegócio e de madeireiros, que se intensificaram com este governo. Visitou França, Bélgica, Luxemburgo e o Vaticano, onde se reuniu com o Papa Francisco. E esteve em Cannes também (foto abaixo).

A primeira parada foi em Paris, onde foi recebido pelo Ministro do Meio Ambiente e da Transição Energética, François de Rugy, e pelo presidente francês. Macron ouviu atentamente Raoni e Tapi sobre a realidade das terras e aldeias que compõem o Xingu e divulgou o encontro em seu Twitter. Foi nessa ocasião que prometeu a Raoni que conversaria com Bolsonaro para defender a Amazônia.

Na conversa com Bolsonaro, Macron ouviu que o Brasil vai honrar o Acordo de Paris, do qual é signatário. Só pra lembrar, pelo menos por duas vezes ele ameaçou sair do acordo: uma antes de ser eleito e, outra, depois que assumiu o governo. O presidente francês também foi convidado por Bolsonaro para sobrevoar com ele a Amazônia, “de Boa Vista a Manaus, sem encontrar qualquer ponto de desmatamento“.

Não sabia que Bolsonaro é mágico e vai fazer sumir clareiras enormes no meio da mata e extensos pedaços de terra devastados no dia em que Macron sobrevoar a Amazônia com ele. Na semana passada, como faz todo mês, o Imazon divulgou o índice de desmatamento da Amazônia em maio: foram 800 km2, o que representa um aumento de 26% em relação a 2018.

Minha mãe dizia que mais rápido se apanha um mentiroso do que um coxo. Mas parece que Bolsonaro gosta e não tem receio de mentir. Onde quer que esteja. E Raoni não precisa estar no encontro sugerido por Macron para que a verdade prevaleça.

Fotos: Renato Soares (retratos de Raoni) e Divulgação (Cannes)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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