Bolsonaro questiona assassinato do cacique Wajãpi por garimpeiros e diz que apoia garimpo em terras indígenas

É bobagem esperar que Bolsonaro se comporte como um estadista que respeita seu povo, a gente sabe. Ao longo de sua carreira politica, demonstrou declaradamente que pouco se importa com os direitos humanos, especialmente o das mulheres, dos negros e dos indígenas. E, depois que assumiu a presidência, repete, sempre que tem oportunidade, que os indígenas só atrapalham o desenvolvimento do país. Mas, mesmo sabendo de tudo isso, é impossível prever o que ele vai fazer ou dizer. E, por isso, a cada pronunciamento, ele surpreende e se supera em desumanidade.

Foi assim, hoje, ao ser questionado por jornalistas sobre a violência sofrida pelo povo Wajãpi, no Amapá – que se iniciou com o assassinato a facadas do cacique Enyra (foto ao lado), de 68 anos e seguiu com a invasão de uma aldeia e a expulsão de seus moradores – ele questionou o crime e reiterou que é a favor da exploração de minérios em terras indígenas. E voltou a afirmar que, vai pedir a legalização dos garimpos nessas terras porque, afinal, as terras indígenas demarcadas no Brasil ficam em “áreas riquíssimas” (veja o impacto causado pela extração de minérios na Amazônia, nas fotos realizadas em 2018, que ilustram este post; são registros das ações do Ibama que, certamente, não acontecem mais ou foram bastante reduzidas neste governo).

Vejam até que ponto vai sua insanidade ou desumanidade: segundo o jornal Estadão, ele afirmou que “usam o índio como ‘massa de manobra’ (se refere a ONGs ambientalistas), para demarcar cada vez mais terras, dizer que estão sendo maltratados”. Ele continua repetindo o que sempre disse e que embasou a decisão do ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, de suspender convênios e parcerias com ONGs, mesmo sendo ilegal: que as ONGs estrangeiras são contra a exploração de garimpo nessas terras porque querem que os indígenas continuem “presos num zoológico animal” e também “ter a soberania da Amazônia”. Na verdade, estamos perdendo nossa soberania com seu governo, Bolsonaro! A soberania, a vida, os direitos….

E continuou: “Esses territórios que estão nas mãos dos índios, mais de 90% nem sabem o que tem lá e mais cedo ou mais tarde vão se transformar em outros países. Está na cara que isso vai acontecer, a terra é riquíssima. Por que não legalizaram indígena em cima de terra pobre? Não existe. Há um interesse enorme de outros países de ganhar, de ter para si a soberania da Amazônia”.

Não satisfeito, ainda declarou que “índio não faz lobby e não tem dinheiro” e perguntou do alto de sua ignorância: “Que poder eles têm para demarcar uma terra deste tamanho? Poder de fora, será que não consegue enxergar isso? São milhares de ONG’s na Amazônia” e citou, como exemplo de suas declarações, a terra indígena Yanomami, que foi homologada pelo ex-presidente Collor.

Bolsonaro ignora que os indígenas são os povos originários deste país. Eles estavam aqui antes dos brancos chegarem e tomarem suas terras, tentar escraviza-los e avançar com o genocídio. Ailton Krenak diz sempre, em suas palestras ou conversas, que os brancos previam que os indígenas não chegariam vivos a este século, por tudo que sofriam. Mas chegaram. E ficarão além de nós, com certeza. E, se um dia não existirem mais indígenas, é porque os brasileiros já terão sido dizimados pela própria ganância.

Os indígenas são os donos legítimos deste território inteiro. Portanto, as terras que chamamos de indigenas são, na verdade, o que sobrou de tudo que tomamos deles. Quando Bolsonaro diz bobagens como “porque não demarcam terra pobre?”, é por absoluta ignorância e cegueira. E por sua sede de poder sem limites, que atende a minoria deste país.

Nunca pensei que sentiria falta de cenas como as que encerram este post, abaixo, de uma ação de fiscalização e desativação de um garimpo ilegal na Amazônia, realizadas em maio e novembro do ano passado, respectivamente na Terra Indígena Tenharim do Igarapé Preto, no Amazonas (policiais federais) e nos parques nacionais do Jamanxim e do Rio Novo, no Pará (fotos aéreas). Nessa época, mesmo sob o governo Temer, o Ibama ainda não estava rendido e desestruturado pelo ministério do meio ambiente, como agora.

Este governo é um filme de terror diário.

Fotos: Felipe Werneck (fotos aéreas) e Vicente Mendonça (policiais federais) / Ibama

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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