Bolsonaro quer rever demarcações de terras indígenas para explorar a Amazônia com os EUA

É difícil aceitar que o Brasil tem um presidente tão desqualificado e que propaga mentiras e um pensamento tão retrógrado a cerca de qualquer tema. E que a imprensa, em geral, lhe dê tanto espaço sem questioná-lo com base em nossas leis, na Constituição. Sim, porque boa parte do que Bolsonaro e os integrantes de seu governo dizem é inconstitucional. É contra leis e direitos.

Na segunda feira, 8/4, em entrevista a Augusto Nunes, da rádio Jovem Pan, realizada no Palácio da Alvorada, ele fez um balanço dos 100 primeiros dias de governo. A ideologia de Nunes e do veículo que representa pautou as perguntas, claro. E, apesar do enjoo que a conversa me causou em alguns momentos, valeu assisti-la.

Bolsonaro diz o que pensa, sem filtro. Seu pensamento é desenvolvimentista – usou esta palavra pra definir o que quer fazer na Amazônia. E isso é muito ruim para o Brasil porque não há futuro neste modelo, já que não há lugar para a natureza.

Ao ouvi-lo, me lembrei de uma frase que o líder indígena David Guarani (sobre o qual escrevi ontem) proferiu, com emoção, na mobilização Sangue Indígena: Nenhuma Gota A Mais na Avenida Paulista, em janeiro, que me tocou profundamente e faz todo sentido: “Sabe como é que se quebra a riqueza concentrada, o capitalismo selvagem, genocida, desumano? Protegendo a natureza!”.

Este governo não sabe dialogar com a natureza porque só visa crescimento a qualquer custo.

“Vamos perder a Amazônia!”

Na entrevista, Bolsonaro falou da Amazônia e dos indígenas. E não foi pra contar sobre a importância de preservá-los e protegê-los. Foi pra falar da exploração urgente de uma das regiões mais biodiversas do planeta e da “necessária” revisão da demarcação de terras para que isso aconteça.

Revisão? Se levarmos em conta quem ele é e o que dizia na época da campanha presidencial, já dá pra saber que espécie de revisão ele quer fazer. Dizia: “No meu mandato, não vai ter nem um centímetro de terra a mais para os índios”. Pois é, parece que ele está querendo ir além da promessa, certamente.

O fato é que, durante a conversa, ele destacou que, em sua viagem aos Estados Unidos – marcada por sua subserviência a Trump -, propôs uma parceria ao presidente dos Estados Unidos para explorar a região amazônica. Motivo? “Como está, nós vamos acabar perdendo a Amazônia, aquela área é vital para o mundo”.

Tirada do contexto em que foi dita e também da sua boca, essa frase poderia ser atribuída a um ambientalista, a um ativista em defesa do bioma, um especialista em mudanças climáticas.

Mas foi proferida pelo homem que, ainda em campanha pelo cargo que ocupa, só falou em desenvolvimento – nunca atrelado à sustentabilidade ambiental ou social – e incitou à violência, legitimou a morte de quem pensa diferente dele e de seus seguidores, abriu as portas para o agronegócio, a mineração, para o capitalismo selvagem e a intolerância.

O corredor ecológico Triplo A

Mas, então, o que ele quis dizer, de fato, com “perder a Amazônia”? Até o entrevistado ficou curioso e perguntou assim que ouviu a frase. A resposta não poderia ser mais adequada ao personagem.

Rapidamente, ele disse que a ONU tem discutido com indígenas a criação de “novos países” no Brasil (!!!). Confesso que é difícil compreender o que ele diz, em alguns momentos. Tem péssima dicção, atropela as palavras… Mas, rapidamente, falou a respeito do Triplo A, que é um projeto de corredor ecológico criado para conectar a floresta do Amapá aos Andes e promover sua preservação, que nada tem a ver com a ONU!

Pra variar, Bolsonaro divulgou fakenews. O jornalista Augusto Nunes não refutou. Talvez por ter o mesmo pensamento a respeito da ONU ou porque desconhece o projeto.

Escrevi sobre o Triplo A em agosto do ano passado, aqui, no Conexão Planeta. Destaco um trecho:

“Para os indígenas, essa conexão já existe em sua cosmogonia, é algo que eles reconhecem, veem, sentem. Espiritualmente, inclusive. Não há qualquer separação. Mas os indígenas dos nove países amazônicos – Brasil, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Peru e Equador – entendem, também, que é necessário unir forças para proteger a floresta do desenvolvimento. Por isso, depois de adiar esta decisão por muito tempo para analisar bem prós e contras, resolveram apoiar o projeto Corredor Triplo A. Conhecido também por AAA (Andes, Atlântico, Amazonas) ou Caminho de Anaconda, idealizado pelo americano naturalizado colombiano Martin von Hildebrand, da Fundação Gaia Amazônia. Sua divulgação é recente, mas sua estrutura começou a ser pensada há cerca de 30 anos”.

Em dezembro de 2018, esse projeto foi usado por Bolsonaro como argumento para o Brasil não aceitar a realização da Conferência do Clima da ONU no país, em 2025. Para ele, o Triplo A é uma “ameaça à soberania do Brasil sobre a Amazônia. Por alguma razão, Bolsonaro deu de achar que a proposta do corredor ecológico faz parte do Acordo de Paris e das discussões internacionais de clima”, contou o jornalista Claudio Angelo no texto que apresenta a entrevista que fez com o idealizador do projeto, publicada no Observatório do Clima e que reproduzimos aqui no site. Para Hidelbrand, Bolsonaro foi seu melhor garoto propaganda. Até então, o pessoal do clima ainda não tinha ouvido falar do projeto.

Bolsonaro contou a Nunes que, se o Triplo A for feito, “podemos perder toda a região norte da Amazônia. A região seria toda isolada do mundo”. Na verdade, o que ele quis dizer é que, se o projeto vingar – e torço pra isso! – inicialmente, uma área de 2,6 milhões de km2 de floresta seria protegida de toda e qualquer exploração. Esse é seu medo. Por isso, ele quer rever processos de demarcação e terras na Amazônia e chamar o amigo Trump para explorar a Amazônia logo.

Imagina se o governo Bolsonaro vai querer ver este cenário, sobre o qual contei em agosto: “Se estabelecido, o projeto vai envolver 400 etnias indígenas (sem falar de outras comunidades tradicionais), cerca de 30 milhões de pessoas e proteger 2,6 milhões de km2 de floresta – mais ou menos a metade do corredor -, que ainda estão intactas, protegidas pelos indígenas apesar das ameaças constantes. O Corredor vai ligar parques naturaisterritórios indígenas e hotspots da biodiversidade dessa região, e valorizar também as culturas tradicionais e ancestrais”.

“Indústria” da demarcação de terras

“Veja que situação! Não se pode fazer o Linhão de Tucuruí, linha de transmissão de energia de Manaus a Roraima, por causa de uma reserva indígena!”, contou Bolsonaro, injuriado. “Pelo que fiquei sabendo, os índios querem que a gente pague royalties. Eu topo! Mas a questão é uma minoria lá dentro da Funai”.

Segundo ele, tem gente na Funai – criada em 1967 e que ele transferiu da pasta da Justiça para a da Agricultura (para começar o desmonte), assim que assumiu – que só pensa em “ganhar dinheiro em cima dos índios“. Mas o que estes querem, na verdade, é sua independência. Por que é tão difícil entender?

Também reclamou da “indústria da demarcação de terras, que começou com o presidente Collor. Foi ele que mudou essa política e iniciou o processo de demarcações baseada em laudos suspeitos, sempre – muitos fazendeiros reclamaram -, o que impede o nosso projeto desenvolvimentista na Amazônia”.

Contou que, no Fórum Econômico de Davos, em janeiro, foi questionado por “aquele que perdeu a presidência dos Estados Unidos para o Bush, o Al Gore”, que lhe perguntou: “O senhor vai defender a Amazônia?”. E Bolsonaro respondeu: “Gosto muito do senhor, sou apaixonado pelo povo americano, mas o senhor está completamente equivocado sobre essa política para a região amazônica. Claro que ele não gostou. Foi a primeira vez que alguém lhe disse que essa política é equivocada e que, por causa dela, podemos perder a Amazônia”.

Que vergonha!

E continuou: “Em Roraima, lá embaixo da terra, tem uma tabela periódica inteira! Nós não podemos perder isso!”. Falou em fazer emendas na Constituição para resolver a questão – reclamando da morosidade do “nosso parlamento” -, inclusive para garantir que os indígenas e os quilombolas possam vender suas terras, explorar suas propriedades da maneira que quiserem. Para exemplificar sua “preocupação”, contou que tribos do Mato Grosso foram multadas em 130 milhões de reais pelo Ibama, no passado, porque estavam cultivando soja. “Não podemos fazer isso! Muito pelo contrário: quer produzir soja, produza!”.

Os indígenas, a modernidade e seus direitos

Em dado momento, Bolsonaro até pareceu um ser humano dotado de empatia, uma pessoa que compreende os desejos verdadeiros dos indígenas. Só que não.

“O índio é um ser humano igual a eu e você. Não tem diferença! Ele quer energia elétrica, ele quer dentista para arrancar o toco de seu dente que está doendo, ele quer médico, ele quer internet, quer jogar futebol! 70% dos índios já estão dentro de nossa cultura e querem desenvolvimento para a terra”.

Não, senhor presidente, os indígenas cooptados pela sociedade de consumo e pela ganância não são a maioria. A maioria quer manter suas tradições, manter sua cultura, sua identidade, ser respeitada pelos brancos, reconhecida como os verdadeiros guardiões da Terra, da biodiversidade, da natureza, que é o que nos mantém vivos. Ao mesmo tempo, reconhecem algumas das benesses que a vida moderna oferece.

Jogam futebol desde que viram a primeira bola correr. Alguns comem da nossa comida e apreciam. Usam celular e internet, aderiram às redes sociais. Usam roupa quando vão à cidade. Se adaptam a leis que os proíbem de usar penas em cocares aderindo aos canudos plásticos por exemplo (como o povo kayapó) e vão se adaptar novamente quando os canudos não existirem mais (por causa da guerra contra o plástico). Precisam de uma boa assistência à saúde já que têm contato com os brancos e resistência diferenciada.

Respeitam o homem branco, e querem ser respeitados. Nada do que adotaram de nossa cultura significa que ignoram a sua, ou que não a honram. E usam nossa lei maior – a Constituição – para protegerem suas terras e sua vida. Não pedem mais!

Cabe ao presidente e a todos os representantes do seu governo respeitar a Constituição, que atribui ao Estado o dever de demarcar terras para que garantam a sustentabilidade dos povos nativos. As terras indígenas, situadas em todos os estados do Brasil, ocupam apenas cerca de 14% do território e só podem ser exploradas por indígenas, com algumas raras exceções. Dá pra entender?

Agora, se tiver curiosidade, tempo e estômago, assista à entrevista completa. O vídeo está disponível abaixo, no final deste post. Sou adepta de que a verdade, por mais cruel que seja, nos ajuda a resistir e saber que caminho trilhar. Então, respira fundo e vai!

Em tempo: a respeito do balanço de cem dias de governo de Bolsonaro, recomendo a leitura do Diário do Bolso, do escritor José Roberto Torero que, com bom humor e absolutamente fiel à realidade, conta a história deste governo muito bem embasada por dados e fatos. Ele faz isso no Facebook e no Instagram, mas, em breve, os cem primeiros dias estarão impressos em um livro produzido por demanda, via crowdfunding. No futuro, quem quiser saber o que, realmente, aconteceu neste período da história, poderá usá-lo como fonte fiel. E ainda dar boas risadas.

Foto: Alan Santos, Agência Brasil

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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