“Bolsonaro não precisa das ONGs para queimar a imagem do Brasil no mundo inteiro”

Foi assim que mais de 100 organizações da sociedade civil intitularam a nota de repúdio que assinaram juntas para criticar os ataques de Bolsonaro, que as acusou pelas queimadas na Amazônia. “O presidente deve agir com responsabilidade e provar o que diz, ao invés de fazer ilações irresponsáveis e inconsequentes, repetindo a tentativa de criminalizar as organizações, manipulando a opinião pública contra o trabalho realizado pela sociedade civil”.

Bom lembrar que acusação sem prova é calúnia. E calúnia é crime.

No início desta semana, 19 de agosto, o Programa Queimadas do Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais divulgou o número de focos de queimadas em todo o país, este ano, que é o mais alto desde 2013. Até este ano, o recorde era de 2016, com 66.622 registros de 1.º de janeiro a 18 de agosto. Este ano, no mesmo período, foram registrados 71.497 focos – alta de 82% em relação aos 39.194 focos registrados no mesmo período do ano passado, que se alastram por várias regiões do país, mas 52,6% ocorre na Amazônia, onde Mato Grosso é líder.

Dois dias após a revelação desses dados pelo Inpe, em 21 de agosto, o presidente Bolsonaro atacou as ONGs, seu alvo predileto e também do ministro do meio ambiente, Ricardo Salles. Declarou que seu “sentimento” indica que elas “podem estar por trás” das queimadas por terem perdido recursos, referindo-se ao apoio financeiro da Noruega e da Alemanha a projetos brasileiros, que não farão mais doações como para o Fundo Amazônia.

(Importante destacar que os governadores dos estados que compõem a Amazonia Legal, revoltados com a postura do presidente e preocupados com a falta de recursos para apoiar os projetos das comunidades resolveram negociar diretamente com os dois países, como noticiamos aqui, no site)

Mesmo revelando-se preocupado com a repercussão de suas declarações contra as organizações da sociedade civil no exterior e negando que as acusou de fato, no dia seguinte (22), o presidente voltou a levantar dúvidas sobre as entidades, sem nenhuma base. “Não há provas e, sim, suspeitas“. E completou dizendo que há forte indício de que ONGs estão por trás das queimadas na Amazônia. “É, no meu entender, um indício fortíssimo que esse pessoal da ONG perdeu a teta deles. É simples”.

Um repórter perguntou se ele acreditava que os incêndios poderiam ter sido provocados por fazendeiros e ele respondeu: “Pode, pode ser fazendeiro, pode. Todo mundo é suspeito, mas a maior suspeita vem de ONGs”, insistiu. Para ele, elas perderam dinheiro e “estão desempregadas”, por isso agora seu intuito é fazer campanha contra o governo. E acrescentou: “Não se tem prova disso, meu Deus do céu! Ninguém escreve isso: vou queimar lá, não existe isso. Se você não pegar em flagrante quem está queimando e buscar quem mandou fazer isso, que isso tá acontecendo, é um crime que está acontecendo”.

Contra as ONGs, Bolsonaro nada pode provar, mas contra fazendeiros desmatadores de diversas regiões do país, não faltam provas. Para demonstrar seu apoio ao presidente e chamar sua atenção, eles inventaram o Dia do Fogo, 10 de agosto, no qual atearam fogo em florestas. A cidade que deu início à essa barbárie foi Novo Progresso, ao lado do Parque Nacional de Jamanxim. A partir daí, os focos de incêndio se desencadearam como revelaram os registros do Inpe, da Nasa etc.

Antes de finalizar a conversa com jornalistas, Bolsonaro ainda culpou a imprensa pelas sanções comerciais com as quais o país tem sido ameaçado diante da tragédia da Amazônia. “O Brasil vai chegar à situação da Venezuela, é isso o que a grande imprensa quer”, bradou. “E, se o mundo lá fora começar a impor barreiras comerciais, nosso agronegócio vai começar a dar para trás, a vida de vocês (jornalistas) vai estar complicada como a de todos”.

Por falar em mercado internacional, vale incluir aqui a declaração do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, em 21 de agosto, a respeito das possíveis sanções dos países europeus ao Brasil por conta do desmatamento na Amazônia. Para ele, trata-se de uma estratégia política para criar barreiras ao país: “Os europeus usam a questão do meio ambiente por duas razões: a primeira para confrontar os princípios capitalistas. Porque desde que caiu o muro de Berlim e desde que a União Soviética fracassou, uma das vertentes para qual a esquerda europeia migrou foi a questão do meio ambiente. E a outra coisa é para estabelecer barreiras ao crescimento e ao comércio de bens e serviços do Brasil”.

Por que é tão difícil para Bolsonaro, Lorenzoni e Salles entenderem que o mundo está mudando há muito tempo e que, sem sustentabilidade, em seus quatro pilares – social, ambiental, cultural e econômico -, não é mais possível um país progredir, se desenvolver? Na verdade, eles não estão interessados. Sabemos disso. E vamos pagar caro. Estamos pagando.

Agora, leia a nota das ONGs, na íntegra, e saiba quem são as signatárias:

Os focos de incêndio em todo Brasil aumentaram 82% desde o início deste ano, para um total de 71.497 registros feitos pelo INPE, dos quais 54% ocorreram na Amazônia. Diante da escandalosa situação, Bolsonaro disse que o seu “sentimento” é de que “ONGs estão por trás” do alastramento do fogo para “enviar mensagens ao exterior”.

O aumento das queimadas não é um fato isolado. No seu curto período de governo, também cresceram o desmatamento, a invasão de parques e terras indígenas, a exploração ilegal e predatória de recursos naturais e o assassinato de lideranças de comunidades tradicionais, indígenas e ambientalistas. Ao mesmo tempo, Bolsonaro desmontou e desmoralizou a fiscalização ambiental, deu inúmeras declarações de incentivo à ocupação predatória da Amazônia e de criminalização dos que defendem a sua conservação.

O aumento do desmatamento e das queimadas representa, também, o aumento das emissões brasileiras de gases do efeito estufa, distanciando o país do cumprimento das metas assumidas no Acordo de Paris. Enquanto o governo justifica a flexibilização das políticas ambientais como necessárias para a melhoria da economia, a realidade é que enquanto as emissões explodem, o aumento do PIB se aproxima do zero.

O Presidente deve agir com responsabilidade e provar o que diz, ao invés de fazer ilações irresponsáveis e inconsequentes, repetindo a tentativa de criminalizar as organizações, manipulando a opinião pública contra o trabalho realizado pela sociedade civil.

Assinam a nota:
Ação Educativa
Angá;
Articulação Antinuclear Brasileira;
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, APIB;
Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente, APEDEMA;
Assessoria e Gestão em Estudos da Natureza, Desenvolvimento Humano e Agroecologia, AGENDHA;
Associação Agroecológica Tijupá;
Associação Alternativa Terrazul;
Associação Ambientalista Copaíba;
Associação Ambientalista Floresta em Pé, AAFEP;
Associação Ambientalista Floresta em Pé, AAFEP;
Associação Amigos do Meio Ambiente, AMA;
Associação Arara do Igarapé Humaitá, AAIH;
Associação Brasileira de ONGs, ABONG;
Associação Civil Alternativa Terrazul;
Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos, AQUASIS;
Associação de Preservação da Natureza do Vale do Gravataí;
Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida, APREMAVI;
Associação Defensores da Terra;
Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre, AMAAIAC;
Associação em Defesa do rio Paraná, Afluentes e Mata Ciliar, APOENA;
Associação Flora Brasil;
Associação MarBrasil;
Associação Mico-Leão-Dourado;
Associação Mineira de Defesa do Ambiente, AMDA;
Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia, CAPA / FLD;
Centro de Assessoria Multiprofissional, CAMP;
Centro de Estudos Ambientais, CEA;
Centro de Trabalho Indigenista, CTI;
Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileiro;
Cidade Escola Aprendiz;
Coletivo BANQUETAÇO;
Coletivo Delibera Brasil;
Coletivo do Fórum Social das Resistências de Porto Alegre;
Coletivo Socioambiental de Marilia;
Comissão Pró-Índio do Acre, CPI-Acre;
Conselho de Missão entre Povos Indígenas, COMIN / FLD;
Conselho Indigenista Missionário, CIMI;
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, COIAB;
Coordenadoria Ecumênica de Serviço, CESE;
Ecossistemas Costeiros, APREC;
Elo Ligação e Organização;
Espaço de Formação, Assessoria e Documentação;
FADS – Frente Ampla Democrática Socioambiental;
FEACT Brasil (representando 23 organizações nacionais baseadas na fé);
Federação de Órgãos para Assistencial Social e Educacional, FASE;
Fórum Baiano de Economia Solidária;
Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, FBOMS;
Fórum da Amazônia Oriental, FAOR;
Fórum de Direitos Humanos e da Terra;
Fórum de ONGs Ambientalistas do Distrito Federal;
Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo, FOAESP;
Fórum Ecumênico ACT Brasil;
Fórum Social da Panamazônia;
Fundação Avina;
Fundação Luterana de Diaconia, FLD;
Fundação SOS Mata Atlântica;
Fundação Vitória Amazônica, FVA;
GEEP – Açungui;
Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero;
Grupo Ambientalista da Bahia, GAMBA;
Grupo Carta de Belém;
Grupo de Estudos Espeleológicos do Paraná;
Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para Agenda 2030;
Grupo Ecológico Rio de Contas, GERC;
Habitat para humanidade Brasil;
Iniciativa Verde;
Instituto AUÁ;
Instituto Augusto Carneiro;
Instituto Bem Ambiental, IBAM;
Instituto Centro Vida, ICV;
Instituto de Estudos Ambientais – Mater Natura;
Instituto de Estudos Jurídicos de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais, IDhES;
Instituto de Estudos Socioeconômicos, Inesc;
Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, Iepé;
Instituto de Pesquisas Ecológicas, IPÊ;
Instituto Ecoar;
Instituto EQUIT – Gênero, Economia e Cidadania Global;
Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental;
Instituto Internacional de Educação do Brasil, IEB;
Instituto MIRA-SERRA;
Instituto Socioambiental, ISA;
Instituto Universidade Popular, UNIPOP;
Iser Assessoria;
Movimento de Defesa de Porto Seguro, MDPS;
Movimento dos Trabalhadores/as Rurais sem Terra, MST;
Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas de São Paulo;
Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça e Cidadania;
Movimento Roessler;
Movimento SOS Natureza de Luiz Correia;
Núcleo de Pesquisa em Participação, Movimentos Sociais e Ação Coletiva, NEPAC UNICAMP;
Observatório do Clima;
OekoBr;
Operação Amazônia Nativa, OPAN;
Organização dos Professores Indígenas do Acre, OPIAC;
Pacto Organizações Regenerativas;
Plataforma DHESCA Brasil;
ProAnima – Associação Protetora dos Animais do Distrito Federal;
Processo de Articulação e Diálogo, PAD;
Projeto Saúde e Alegria;
Rede Brasileira De Justiça Ambiental;
Rede Conhecimento Social;
Rede de Cooperação Amazônia, RCA;
Rede de ONGs da Mata Atlântica, RMA;
Rede Feminista de Juristas, deFEMde;
Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS, RNP+BRASIL;
Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS do Estado de São Paulo, RNP+SP;
Sempreviva Organização Feminista, SOF;
Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, SPVS;
Terra de Direitos;
TERRA VIVA – Centro de Desenvolvimento Agroecológico do Extremo Sul da Bahia;
União Protetora do Ambiente Natural, UPAN;
Vida Brasil.

Fontes: O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, G1, ONGs, Vídeo Meteroro

Foto: André Dib/Parque Nacional de Roraima

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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