Bolsonaro acusa Leonardo di Caprio de financiar incêndios na Amazônia. Ator reage e faz um alerta

O presidente Bolsonaro ultrapassou todos os limites. Pela lei, ninguém pode acusar quem quer que seja sem provas. E é isso que ele tem feito desde que assumiu o cargo. Na última sexta-feira, 28/11, acusou o ator Leonardo di Caprio de financiar ONGS para que incendiassem a Amazônia. Mas claro que não disse isso com tanta elegância: usou os termos “dar dinheiro” para “tacar fogo na Amazônia”.

A declaração foi feita à saída do Palácio da Alvorada – onde já fez várias declarações contundentes e até recebeu garimpeiros de maneira amistosa -, ao posar para fotos com eleitores. Uma mulher perguntou-lhe a respeito dos incêndios criminosos na Amazônia. Ótima oportunidade para contar mais mentiras e, ainda, na presença da imprensa: “Quando eu falei que há suspeitas de ONGs, o que a imprensa fez comigo? Leonardo Di Caprio é um cara legal, não é? Dando dinheiro para tacar fogo na Amazônia”.

Na verdade, completou as acusações feitas ao ator no dia anterior, 28/11, durante uma live nas redes sociais: “Uma ONG ali pagou R$ 70 mil por uma foto fabricada de queimada. O que é mais fácil? ‘Toca’ fogo no mato. Tira foto, filma, manda para a ONG, a ONG divulga, entra em contato com o Leonardo DiCaprio e o Leonardo DiCaprio doa US$ 500 mil para essa ONG. Leonardo DiCaprio, você está colaborando com as queimadas na Amazônia”.

Só que o “cara legal” que “taca fogo na Amazônia” é uma das personalidades mais engajadas em campanhas pela proteção da floresta amazônica. Em Hollywood, é uma das mais importantes vozes na luta contra as mudanças climáticas. Foi nomeado pelas Nações Unidas como Embaixador pela Paz em 2014 e, quatro anos mais tarde, criou uma fundação que leva seu nome e financia projetos ao redor do mundo para a proteção e conservação do meio ambiente, animais, direitos indígenas e também, que desenvolvam soluções inovadoras contra o aquecimento global.

Em fevereiro deste ano, no #Desafio10Anos que se espalhou pelas redes sociais, Di Caprio denunciou o desmatamento na Amazônia. Em julho, ele e dois filantropos milionários (Lauren Jobs viúva de Steve Jobs, e Brian Sheth (GWC) criaram a Earth Aliance para combater a crise climática e a perda de biodiversidade no planeta. Em agosto, anunciou a criação do Fundo para a Amazônia (pela Earth Aliance) com investimento inicial de US$ 5 milhões, montante que será repassado para ONGs ambientais e povos indígenas brasileiras.

No sábado, 30/11, em nota enviada à agência de notícias Associated Press (AP), Di Caprio reagiu às acusações e ainda fez um alerta:

“Neste momento de crise para a Amazônia, eu apoio o povo do Brasil que trabalha para salvar seu patrimônio natural e cultural. Eles são um exemplo incrível, comovente e humilde do compromisso e da paixão necessários para salvar o meio ambiente. O futuro desses ecossistemas insubstituíveis está em jogo e tenho orgulho de apoiar os grupos que os protegem. Embora dignas de apoio, não financiamos as organizações citadas. Continuo comprometido em apoiar as comunidades indígenas brasileiras, os governos locais, cientistas, educadores e as pessoas que estão trabalhando incansavelmente para garantir a Amazônia para o futuro de todos os brasileiros”. 

Bolsonaro mente e inocentes são presos

Determinado a desqualificar as ONGs no Brasil, uma das acusações mais contundentes de Bolsonaro se deu quando os incêndios florestais começaram a se alastrar pelo país, principalmente na Amazônia, e tanto ele como Ricardo Salles, seu ministro do meio ambiente, acabavam de desqualificar o Fundo Amazônia. Perdemos o apoio da Noruega e da Alemanha para projetos com as comunidades na floresta, logo em seguida. E o presidente tratou de dizer que as ONGs estavam revoltadas com a perda desse financiamento, por isso estavam incendiando as florestas.

Em outubro, Salles tentou recuperar o Fundo, sem sucesso. Vale lembrar que, em fevereiro, numa atitude infantilóide, Salles bloqueou ONGs ambientais no Twitter.

Obviamente, as declarações de ambos legitimaram os incendiários, desmatadores, fazendeiros, grileiros, e também a Polícia Civil do Pará, que, na semana passada, acusou e prendeu – a mando de não se sabe quem – quatro brigadistas que criaram a Brigada de Alter, que ajudava o Corpo de Bombeiros a apagar o fogo das florestas em Alter do Chão, desde 2018. Também atacaram a sede do Projeto Saúde e Alegria.

A acusação não procede já que não integra a investigação da Polícia Federal sobre os incêndios na região. Mas a Polícia Civil também envolveu o WWF, grande organização ambiental internacional que atua no Brasil desde 1971. Não demorou muito para que Bolsonaro, um de seus filhos e seus correligionários aproveitassem a situação para disseminar mais mentiras.

No mesmo dia da prisão, nas redes sociais, os jovens integrantes da Brigada de Alter eram chamados de pilantras, bandidos, criminosos e “caras de petistas”. Denunciei um desses posts no Instagram como incitação ao ódio, mas a administração da rede social não aceitou. A mensagem que recebi dizia que não haviam identificado nada que fosse contrário a suas regras.

Na sexta, os brigadistas foram soltos com cabeças (e barbas) raspadas, procedimento comum apenas no caso de presos condenados. Continuam sendo considerados suspeitos “pela lei” e devem obedecer a medidas cautelares que restrigem sua liberdade. Além disso, seus equipamentos e documentos assim como os do Projeto Saúde e Alegria – continuam em poder da polícia.

Foto: reprodução vídeo Youtube

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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