Boldo, boldo, boldo: qual é o boldo que eu tenho aqui? Boldo campeão, quase Bolt!

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Boldo do Chile, boldo brasileiro, boldo rasteiro, boldo baiano, hortelã de olha gorda ou malvão… Muitos nomes e muita confusão.  Para que você entenda melhor a diferença entre eles (sim, ela existe!), fiz uma extensa pesquisa e posso assegurar que encontrei tanta confusão junto às fontes de informações em inglês, espanhol e português, que o melhor a fazer para não se confundir é saber o nome científico de cada um deles, observando atentamente a descrição botânica para começar a diferenciá-los.

Em minhas pesquisas, consegui levantar cinco tipos de boldos usados no Brasil. O nome popular por aqui vai mudando com o endereço e o sotaque  regional, deste modo é melhor descartá-los. Coloco aqui para que vocês saibam, aqueles que pude compilar, mas – repito -, aprender o nome científico nos dará mais  segurança.

Usado popularmente por aqui, o boldo é facilmente encontrado em muitos jardins. Por ser nativa do clima tropical, esta é uma planta, que dá bem em todo o Brasil, pois é muito resistente à seca e ao calor (só não aguenta temperaturas abaixo de 10ºC, portanto para quem mora no Sul, o ideal é cultivá-la num vaso que possa ser colocado para dentro  de casa durante o inverno).

O boldo vai mudando de formato, de acordo com o ambiente, com maior ou menor abundância de água e de nutrientes. Em terrenos secos e pedregosos, ele se torna mais rígido e suas folhas mais espessas. Cria um hábito menor, mais compacto, quando está cultivado em terrenos argilosos e ensopados, se torna mais aberto, com folhas maiores e maleáveis, o que acaba dificultando sua identificação.

Além de ser uma planta praticamente camaleônica, o boldo possui muitas variedades. Abaixo, reuni cinco delas. Com exceção do verdadeiro boldo do Chile e do boldo baiano, todas as outras pertencem ao mesmo gênero, de Plectrantus e se diferem na espécie.

No geral, todas estas plantas possuem propriedades medicinais para ajudar na digestão, nos gases e nas afecções hepático-biliares, o que as diferencia, todavia, são as especificidades de cada uma, a dosagem, o sabor e o modo de preparo. Já o cultivo do boldo do Chile e do boldo baiano diferem por serem específicos de outra espécie.

Boldo do Chile: o Pneumus boldus Molina é uma árvore  que atinge de 10m  a 15 m de  altura. Suas folhas são simples, sem pelos, duras e miúdas. O boldo chileno cresce  somente na região do Chile. Seu aroma é mais agradável que o boldo de jardim. Seu chá pode ser feito como decoto ou tisana, o sabor não é tão amargo. Serve para facilitar a digestão e não deve ser usado diariamente, muito menos dado à crianças menores de 7 anos e mulheres grávidas. Seu uso pode interferir com alguns medicamentos  ou condições graves de obstrução das vias biliares.

Boldo baiano, erva de pinguço, figatil ou alumã: seu nome científico é Vernonia condensata. Esta é uma planta usada nos ritos de passagem para os cultos afrodescendentes, que segundo estas crenças, funciona para purificar e abrir os caminhos.Também pode ser usada para males do fígado e para ressaca. Como sugere o nome, cresce bem na zona tropical. É recomendada ainda contra cálculos renais, cistites, diarréias, anemia, doenças cardíacas e pulmonares.

O boldo brasileiro, falso boldo, boldo do jardim ou boldo nacional não é brasileiro!, mas sim, de origem indiana ou africana (não se sabe ao certo). Tem como nome cientifico Plectranthus barbatus (Andrews) e é um arbusto  de aproximadamente 2,50m de altura por 1,50 de largura. Quando adulto, é uma planta robusta de talos grossos e bastante resistente à seca e ao frio. Possui folhas gordas largas, aveludadas e perfumadas, que as crianças adoram usar como cobertor sobre as bonequinhas e fadinhas. Já no Quênia, esta espécie de boldo é usada como papel higiênico! Planta da família das Lamiaceas, se propaga facilmente através de estaquia: basta cortar um ramo  na diagonal com duas ou três gemas e enterrá-lo num terreno bem drenado ou num vaso, mantendo-o úmido por 30 dias. O boldo desenvolverá  novas raízes em menos de um mês. Produz flores violetas  azuladas em cachos múltiplos com hastes de até 40 cm e atrai muito as abelhas e formigas.

Com propriedades medicinais excelentes para o alívio da indigestão e das cólicas-gastro intestinais, combatendo também flatulência, o boldo brasileiro é bom ainda para combater  a tosse crônica (seca), dor de garganta e congestão nasal (em forma de nebulização). A folha muito  grande e suculenta é extremamente amarga e não necessita ser cozida para ser consumida, podendo ser usada em forma de macerado ou suco. Coloca-se uma ou duas folhas amassadas em um copo de água, deixando-as em repouso por um par de horas. Por ser uma planta de aroma muito forte, pode provocar o vômito quando fervida, e causar desconforto gástrico em pessoas muito sensíveis ou  debilitadas. Consulte sempre um médico antes de utilizá-la!

Boldo de moita, hortelã de folha gorda, melhoral, orégano francês, borragem indiana, tomilho espanhol, orégano cubano, menta mexicana, orégano bruxo …. Todos estes nomes descrevem, na verdade o Plectranthus amboinicus Lour, que teve seu nome originado numa ilha chamada Amboise, no arquipélago das Maldivas, de onde foi trazido pelo primeiro botânico que o encontrou. De todos os Plectrantus que estudei,  este é o mais interessante porque ao invés de possuir um sabor amargo como fel, tem sabor semelhante ao tomilho e é usado como condimento para rechear peixes e para temperar carnes.

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Boldo de moita ou óregano cubano: ótimo para temperar carnes e peixes

Das inúmeras propriedades medicinais similares aos dos outros tipos, o boldo de moita diz-se ser excelente larvicida, podendo ser usado para combater a larva do mosquito da dengue. Crianças e mulheres grávidas não devem consumi-lo. Mas pode ser usado como nebulizador e em gargarejos nos casos de gripes, resfriados e dores de garganta.

O boldo de moita se distingue do boldo de jardim por ter um tamanho menor, uma moita  de no máximo 1 m de altura. Quando plantado direto no solo, possui folhas mais pontudas e serrilhadas e sua penugem é menos espessa. Suas flores são rosadas ou liláses, suas hastes têm por vezes tons arroxeados das bases das folhas. Os cuidados com esta variedade são os mesmos do boldo  de jardim: uma planta fácil e resistente de cultivar, mas na hora de colhê-la, evite fazê-lo depois da chuva para que as folhas estejam secas. Quando cortar ramos para propagação, observe que a planta não esteja florindo, pois ela poderá se ressentir.

Boldinho, boldo rasteiro, Acetaminofen, tapete de oxalá, boldo chinês, boldo  do Paraguay, malvão são todos nomes populares para o Plectranthus neochilus S. Possui as mesmas qualidades do boldo de jardim, porém há registros de pessoas que sentiram náuseas ao tomá-lo. Use-o então com moderação. Serve para afecções hepático biliares, dores de cabeça e febre, mas não deve ser usado por pessoas hipertensas, nem por crianças e mulheres grávidas e interage com medicamentos à base de dissulfan e metronidazol.

No entanto, no jardim e na horta compõe uma linda forração para canteiros. Protege o solo e resiste muito bem à seca. Não gosta de ventos. Possui flores em espigas de coloração rosa, branca ou lilás. Suas folhas são menores, mais alinhadas em formação geométrica, alternadas e opostas, menos aveludadas e de um verde mais azulado e pálido.

Pode atrair besouros que se alimentam de suas raízes, ajudando a combater pragas na horta. Possui propriedades larvicidas e exala o odor de suas folhas no jardim, por isso é uma planta reconhecida por seu valor fitoenergético, que filtra as energias densas do lugar onde se encontra, daí a denominação de tapete de Oxalá. Também está descrito como planta que repele cães e gatos por causa de seu odor.

Para aqueles que dizem não conseguir ter nenhuma planta (dedo seco), o boldo é um excelente candidato à resistir e ainda por cima, contribuir. Não é incrível que tenhamos tantas plantas benéficas à nossa saúde na natureza? A cura pode estar diante dos nossos olhos: com as plantas podemos crescer, sarar e agradecer a criação e a companhia debaixo do sol.

Fotos: Alfredo Eloisa/Creative Commons/Flickr (abertura), domínio público/pixabay e wikimedia commons

Geógrafa, paisagista, educadora ambiental e ilustradora científica. Começou a carreira em São Paulo como consultora paisagística. Durante 10 anos viveu no exterior (Austrália, Israel e USA) e neste último país, firmou suas habilidades para trabalhar com crianças. Atualmente dá aulas de horticultura para alunos do Ensino Fundamental, em Brasília. Também desenvolve projetos junto à Cia da Horta para centros de ensino, clubes e empresas.

Liliana Allodi

Geógrafa, paisagista, educadora ambiental e ilustradora científica. Começou a carreira em São Paulo como consultora paisagística. Durante 10 anos viveu no exterior (Austrália, Israel e USA) e neste último país, firmou suas habilidades para trabalhar com crianças. Atualmente dá aulas de horticultura para alunos do Ensino Fundamental, em Brasília. Também desenvolve projetos junto à Cia da Horta para centros de ensino, clubes e empresas.

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