Bioerbicidas sem contaminantes nem riscos

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Herbicidas
sintéticos costumam ser a forma mais rápida e fácil de controlar ervas daninhas – em culturas, pastagens ou mesmo em parques e terrenos baldios de zonas urbanas. É só pulverizar, esperar as tais ervas secarem e pronto! Não precisa capinar, passar a roçadeira e nem lançar mão das famigeradas queimadas.

Só que esses herbicidas são químicos complexos: inibidores de enzimas – como o glifosato – ou dessecadores por contato – como ácido sulfúrico – ou ainda com componentes fortes, como cloro, flúor e vários derivados de petróleo, muitas vezes potencializados com metais pesados. Se mal aplicados, podem contaminar o solo, a água ou deixar resíduos nas culturas e capins que se quer proteger. Por isso, é muito bem vindo o desenvolvimento de bioerbicidas à base de plantas, com o mesmo efeito contra as ervas indesejadas, mas sem o potencial poluidor ou contaminante.

É a isso que se dedica, desde 1992, o engenheiro agrônomo com doutorado em Produção Animal e pós-doutorado em Química Ambiental, Antonio Pedro da Silva Souza Filho, da Embrapa Amazônia Oriental (Belém, PA). Seu foco são as ervas de folhas largas que infestam pastagens, como a mata-pasto (Senna obtusifolia) e a sensitiva ou malícia (Mimosa pudica). “Os produtos que funcionam contra essas duas plantas, funcionam também contra diversas outras ervas daninhas de folhas largas, por isso as elegemos para as pesquisas”, explica o especialista.

Souza Filho se baseia no princípio de alelopatia para identificar substâncias naturais com potencial bioerbicida. O termo alelopatia é derivado das palavras gregas allelon = mútuo e pathos = prejuízo e se refere a fato de algumas espécies de plantas produzirem compostos secundários capazes de impedir a germinação de sementes ou o crescimento de plântulas de outras espécies.

Ao identificar esses compostos, é possível “criar um produto botânico, concentrando as substâncias ativas num extrato, que depois seria diluído pelo produtor rural e pulverizado na pastagem, ou fazer a separação do composto, seguida de fracionamento, isolamento e identificação da substância pura a ser testada como bioerbicida”, diz o pesquisador.

Em mais de 20 anos de pesquisas, Souza Filho e sua equipe já prospectaram mais de 400 espécies e identificaram várias árvores nativas com potencial como bioerbicidas, como é o caso de ucuúba-branca (Virola michelii), cambuí (Mycia guianensis), tachi-preto (Tachigale myrmecophyla) e visgueiro (Parkia pendula, sobre o qual falei no post anterior, por seu potencial cicatrizante). Já existem, inclusive, diversos pedidos de patente, infelizmente parados, à espera das devidas autorizações.

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Não fosse esse entrave burocrático, já teríamos no mercado boas inovações agrícolas à base de biodiversidade brasileira. Colocaríamos “à disposição dos produtores, produtos que estão em consonância com os anseios da sociedade, pois não contaminam o ambiente, não contaminam os produtos da dieta dos humanos, não representam risco à saúde humana e são tão eficientes no controle das plantas daninhas quanto os atuais produtos sintéticos comercializados”, resume Antonio Pedro Souza Filho.

Fotos: Reinaldo Aguilar/Creative Commons (fruto de Virola michelii, ao alto)
              Feroze Omardeen/Creative Commons (Virola michelii, acima)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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