Bill Gates e sua fundação contra o coronavírus

Devido ao trabalho desenvolvido com a Fundação Bill & Melinda Gates desde 2000, o co-fundador da Microsoft, tem se envolvido com questões globais de saúde pública, desenvolvido e apoiado projetos e alertado para os riscos de epidemias em todo o mundo.

Há cinco anos, durante uma conferência TED Talks, ele chegou a prever uma pandemia como a do coronavirus: “Quando eu era criança, o desastre que mais temíamos era uma guerra nuclear. Hoje, o maior risco de catástrofe global não se parece com uma bomba, mas, sim, com um vírus”.

Em sua fala de 18 minutos – que recebeu o título de O próximo surto? Não estamos preparados –, ele destacou que “investimos em armas nucleares, mas bem pouco em um sistema para barrar uma epidemia”, por isso, o que ameaçaria 10 milhões de pessoas nas próximas décadas seria um vírus altamente infeccioso, não seriam mísseis” (assista à palestra no final deste post).

Na época, os detalhes e a precisão de sua palestra provocaram teorias da conspiração. Rapidamente, se espalhou a ideia de que o bilionário teria financiado a criação de um vírus muito potente em laboratório para, em seguida, desenvolver kits com testes, remédios e vacinas, que ajudariam a salvar os contaminados e o deixariam mais rico. Mas não se explicou porquê Gates contaria essa história cinco anos antes.

O fato é que chegamos a 2020 e sua “profecia” se realizou. Na verdade, não é preciso ser profeta para identificar que o que estamos fazendo com nossa civilização não pode resultar em felicidade e saúde para todos, mas em mais sofrimento e miséria. Basta estar atento, estudar e se cercar de bons especialistas. Foi o que ele fez.

Apoio à pesquisa e às populações pobres da Ásia e da África

Em fevereiro, a fundação que criou com sua esposa e tem seu amigo Warren Buffet como um dos maiores mecenas – Fundação Bill e Melinda Gates – vai doar US$ 100 milhões para combater o novo coronavírus e proteger as populações de maior risco, na África e na Ásia. Mais: tambem doará 5 milhões de dólares ao estado de Washington, onde nasceu, que é um dos mais castigados por casos de Covid-19 e mortes associadas a doença nos Estados Unidos.

“Organizações multilaterais, governos, setor privado e organizações filantrópicas devem trabalhar juntas para conter a epidemia, ajudar os países a proteger seus cidadãos mais vulneráveis e acelerar o desenvolvimento de ferramentas para controlar a epidemia”, disse Mark Suzman, diretor-geral da entidade.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e seu equivalente na China, bem como a Comissão Nacional de Saúde da China receberão US$ 20 milhões. Outros US$ 20 milhões serão destinados às autoridades de saúde pública em países do Sudeste Asiático e da África Subsaariana, regiões bastante afetadas por epidemias recentes como a pandemia do H1N1, em 2009.

Me preocupa como o vírus vai afetar os países países pobres”

Esta semana, Bill Gates participou de uma sessão de perguntas da rede social Reddit que teve como tema o coronavírus e epidemias em geral.

Comentou que, como medida eficaz para combater a transmissão da doença, os países ricos devem parar tudo por dois a três meses, com isolamento social total, para vencer o vírus. Para impossível, mas basta ver o que aconteceu na Itália, que demorou para responder às primeiras contaminações, pra mudar de ideia: hoje, 20/3, anunciou o registro de mais de 4 mil mortos; em 24 horas – de 19 para 20/3 -, foram cerca de 700 vítimas fatais.

Gates também alertou para a chegada do coronavírus aos países pobres, que poderá ter efeitos ainda mais devastadores. “Há muitos casos de coronavírus em países ricos, que têm implementado as ações certas, incluindo os testes e o distanciamento social (que eu chamo de shut down) entre dois e três meses, o que deverá evitar níveis elevados de infecção. Preocupa-me o dano à economia destes países, mas será ainda pior a forma como o vírus vai afetar os países em desenvolvimento e os países pobres, que não conseguem cumprir o isolamento da mesma forma que os ricos e cuja capacidade hospitalar é muito inferior”. E a vacina vai demorar.

O famoso filantropo disse ainda que espera que, no final da pandemia, os países se unam e se preparem melhor para outras epidemias, que ainda poderão ocorrer. Para ele, é necessário “ter capacidade de ampliar rapidamente diagnósticos, medicamentos e vacinas. As tecnologias existem para fazer isso bem, se os investimentos certos forem feitos”.

Um medicamento para aliviar a doença, antes da vacina

Com base em notícias divulgadas pela China, Gates acredita que, bem antes da descoberta de uma vacina contra o coronavírus, um medicamento deverá ser identificado e ajudará a aliviar a doença Covid-19. Se isso acontecer, já poderá reduzir o número de pessoas que precisam de cuidados intensivos, como o dos escassos ventiladores ou respiradores.

Ele contou também que a Fundação Bill & Melinda Gates organizou uma espécie de Acelerador de Medicamento para analisar todas as ideias mais promissoras até agora divulgadas, identificar as mais viáveis e coloca-las em testes e produção rapidamente, com todos os recursos da indústria. “Espero que saia algo de importante deste esforço como um medicamento anti-viral ou com anticorpos ou qualquer outra coisa”, admitiu.

Segundo ele, uma das ideias mais interessantes que está sendo explorada é usar o sangue (plasma) de pessoas recuperadas, curadas, que pode ter anticorpos para proteger outras pessoas. Se funcionar, esta certamente será a maneira mais rápida de proteger os profissionais de saúde e pacientes com doenças graves. Sensacional!

No final da conversa, ele convidou todos a seguirem seu blog e o site da fundação “para obter atualizações sobre nosso trabalho nos próximos dias e semanas. E continuem lavando as mãos!”.

Agora, assista à conferência do TED Talks, em 2015, em que Bill Gates já anunciava uma pandemia como a do coronavírus.

Foto: Reprodução/Twiiter

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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