A Bernúncia do esquecimento

Chora viola, chora coração, chora tradição! Choram os homens. Homens e seus cães. Um a espera do outro. Um girar de cabeça amigo. Uma mão na cintura de quem está pronto para o bate-papo, nessa imagem acima, com ar de pintura do fotógrafo Daniel Castellano. Um olhar de “diga lá”! “É água que você quer?”

É mágoa que dá sede de matar? Ou é afago que dá chance para lágrimas corridas? Mágicas sentidas essas provocadas pelo carinho e compreensão. Soluço ritmado por essas notas insistindo em deixar vivas as chimarritas fandangueiras. E tem uns batidos para valer de tamancos para espantar quem não é bom de baile. Bailes com mestres que buscam repassar aos mais jovens a história e a prática das tradições populares.

O fandango é homenageado no evento Encontro de Tradições, que acontece em Antonina, no litoral do Paraná, nos dias 20, 21 e 22 de abril, coordenado pelo produtor LM Stein e pela cineasta e pesquisadora de tradição Lia Marchi.

Lia gosta de falar dessa forte tradição dos caiçaras, ligada às práticas de mutirão. “Em outros tempos, as comunidades se reuniam para serviços como roçadas, construção de casas e canoas e o pagamento era o baile. Diversão garantida até os dias de hoje, o baile é tocado com instrumentos construídos nas comunidades, com madeiras e materiais da natureza local. Viola, rabeca (como a da foto do fotógrafo Zig Koch, logo acima) e adufo – nome dado ao pandeiro na região – acompanham danças de pares e os famosos “batidos” tão característicos do fandango”, explica Lia.

Essa tradição corre solta por aí. Corre o risco de escapar para um passado que não volta. Corre na abertura do encontro em Antonina, em pleno tempo do Divino, com o levantamento do Mastro e a Alvorada na Praça Coronel Macedo, no centro histórico da pequena cidade.

A romaria vai passar pelas casas, mas na região sul do Brasil, mais exatamente no litoral do Paraná, em geral, ela pode seguir de barco, levando a bandeira vermelha com a pomba que representa a Santíssima Trindade, como nesta foto de André Magalhães.

Devotos e foliões correm por aí segurando a tradição na oração, na fé, na viola, na Folia de Reis, que também vai estar no evento.

Nessa tradição correm valores. Seres humanos e seus valores, como “a união entre os que compõem a comunidade, a experiência do homem com o sentido do divino, a partilha por meio da festa comunitária e o rito de passagem de um ano para o outro celebrado no agradecimento sincero e na promessa de continuar foliando Reis”, afirma Lia Marchi.

Seres humanos e suas crenças na verdade da natureza e na verdade do sobrenatural. Seres como Dona Águeda, a benzedeira de Rebouças, no interior do Paraná, que vai ministrar uma oficina sobre a utilização de plantas tradicionais no encontro. Tão linda ela na foto da Ângela Oskar.

Seres e suas brincadeiras. Seres como as crianças que adoram ser engolidas pela enorme Bernúncia, na brincadeira do Boi de Mamão, nesta foto de Priscilla Fiedler.

Seres e seus egos. Suas discórdias. Suas memórias. Há que preservá-las, para não serem engolidas pela implacável  discórdia. Que essa só ande ao lado delas na rima. E que a sina seja a vida em forma de raiz fincada em mais e mais corações sensíveis ao que a linguagem da tradição traduz  para a nossa rotina contemporânea  tecnológica e de transformações tão rápidas. Mal dá tempo de formar história! Tenho medo que estejamos criando a Bernúncia do esquecimento…

Mas, pelo menos, tem a nossa Páscoa para renovar a fé nos seres. E que ela venha assim fértil de arte pintada na casca frágil que oferece sutil proteção. Essa solidez porosa que evapora tradição ucraniana. No Encontro de Tradições,  Vilson Kotviski, vem de União da Vitória, interior do Paraná,  para ensinar a técnica milenar de colorir o símbolo da Páscoa.

Tudo de graça nesse encontro. Corre lá para respirar o ar da pracinha. Vai lá renovar os laços com a tradição. O seu futuro bem que merece essa voltinha no passado.

ENCONTRO DE TRADIÇÕES
Data
: 20, 21 e 22 de abril
Horário: quinta-feira a sábado, das 8h às 21h
Local: concentração de atividades na Praça Coronel Macedo – Centro Histórico de Antonina, PR
Atividades gratuitas
Mais informações no site do evento

Fotos: divulgação 

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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