Voando por 2.200 km, sem uma única pausa

Post 19 - Blog Avoando (autor: Sandro Von Matter)

Em pleno ano olímpico, cientistas acabam de descobrir novos recordes para um dos maiores velocistas do mundo das aves, o pequeno e audacioso, beija-flor–de-pescoço-vermelho (Archilochus colubris).

Atingindo, no máximo, 9 cm de comprimento e, vivendo em média apenas sete anos, este beija-flor é conhecido por apresentar uma das maiores áreas de distribuição entre todas as espécies de beija-flores, habitando desde a América do Norte (onde se reproduz), até o México e alguns países da América Central como Belize, Honduras, Guatemala, El Salvador, Nicarágua e Panamá, nos quais passa a maior parte do inverno.

Sabe-se que, como a maioria dos beija-flores, esta ave se alimenta quase que exclusivamente de néctar e, para obter a energia necessária para realizar longos voos e manobras espetaculares, visita entre 1 mil e 2 mil flores por dia, preferencialmente flores vermelhas e, também, laranjas. Além do néctar, para complementar sua dieta os beija-flores capturam insetos em voo e roubam presas em teias de aranha.

Agora, a dupla de pesquisadores Theodore Zenzal e Frank R. Moore, acaba de realizar novas descobertas sobre a espécie, divulgadas no artigo Stopover biology of Ruby-throated Hummingbirds (Archilochus colubris) during autumn migrationpublicado este mês na revista científica The Auk, especializada em ornitologia.

Os resultados, simplesmente surpreendentes, comprovam que estas minúsculas aves são capazes de realizar voos de longa distância impressionantes, atingindo até 2.200 quilômetros, sem uma única pausa. Apenas para exemplificar, essa distância seria mais que o equivalente a uma viagem entre São Paulo e Pernambuco.

Alguém poderia imaginar o que é esta proeza para um ser humano? Uma viagem de 2 mil km, sem nenhuma pausa para dormir, fazer um lanchinho ou uma rápida ida ao banheiro?

É exatamente isso que muitas destas pequenas aves realizam e, não apenas uma vez na vida. A incrível migração destes beija-flores – que inclui um voo de 20 horas, ao longo de 800 quilômetros, sobre as agitadas águas do mar do Golfo do México – acontece todos os anos.

Curiosamente, os primeiros registros na história desta surpreendente travessia foram realizados por humildes pescadores de camarão. Na época tachados como bêbados e lunáticos, relataram que navegavam pelo Golfo quando, subitamente, foram visitados por dezenas de beija-flores em pleno mar aberto.

Para entender a dinâmica do processo migratório da espécie, os pesquisadores registraram a viagem de mais de 2.700 indivíduos da espécie, durante quatro anos de trabalho intenso, onde as aves foram cuidadosamente medidas, pesadas e receberam um pequeno anel de alumínio com identificação individual.

Mas o resultado mais interessante da pesquisa não está relacionado a travessia em si, mas à capacidade de aprendizado e planejamento estratégico por parte dessas aves. Os pesquisadores descobriram que os beija-flores que chegam primeiro e em melhores condições físicas, ao final desta emocionante jornada, não são os mais jovens, mas, sim, os mais velhos e mais experientes.

Segundo os cientistas, estes resultados sugerem que, o conhecimento adquirido ao longo da vida pelos beija-flores sobre trajeto, relevo, clima e, até mesmo, o uso das correntes de vento, é o grande segredo por trás desta que é uma das maiores odisseias do mundo animal.

Termino este post com a imagem de uma linda fêmea do beija-flor-de-pescoço-vermelho, visitando um girassol.

Archilochus_colubris_-_by_jeffreyw_-_002

Imagens: Wikimedia Commons

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

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