Bebedouros para beija-flores: origem, mitos e verdades

Algumas invenções alteraram os rumos da humanidade, outras tornaram tudo mais simples ou até mais divertido. Hoje, muitas delas transformaram tanto nossas vidas que se tornaram indispensáveis no dia a dia, mas, na maior parte das vezes, não sabemos como e quando foram inventadas.

No mundo dos apaixonados por aves, a curiosidade e o desejo de admirá-las abriu caminho para inovações que, aos poucos, revolucionaram a forma como as observamos.

Uma das mais populares – os famosos bebedouros artificiais para beija-flor -, poderia ter sido inspirada pela frase do poeta Mario Quintana: “O segredo é não cuidar das borboletas e, sim, cuidar do jardim para que elas venham até você”.

Origem

O primeiro registro histórico sobre a prática de alimentar beija-flores foi feito pelo renomado pesquisador John James Audubon em sua obra The Birds of America (Aves da América), de 1844. Na página 193 desse livro, Audubon declara: “Presenciei muitas destas aves sendo alimentadas através do uso de partes de flores posicionadas sobre recipientes com uma solução de água e açúcar”.

Quase um século depois, a revista The Wilson Bulletin publicou os resultados da pioneira pesquisa científica desenvolvida pela escritora e ornitóloga Aithea Sherman: Experiments in Feeding Hummingbirds During Seven Summers ou Experimentos para a Alimentação de Beija-flores Durante Sete Verões. Sherman provou que estas aves não apenas são capazes de reconhecer os bebedouros como fonte de alimento, como também de memorizar sua exata localização por anos.

Um dos passos mais importantes para a criação dos bebedouros foi dado pelo naturalista Roger Tory Peterson, ao publicar na Revista Audubon, de 1936, um guia do tipo “faça você mesmo” com instruções sobre como construir um bebedouro para beija-flores. Foi exatamente esta publicação que impulsionou o interesse de empreendedores e conservacionistas para a criação de bebedouros e, onze anos depois, surgiriam os primeiros anúncios para a venda dos mesmos, em revistas especializadas.

Mas foi somente graças a Laurence Webster e Margaret Bodine que os modelos de bebedouros, como conhecemos hoje, foram criados e popularizados.

Os primeiros modelos produzidos pelo casal de norte-americanos eram feitos em uma única peça de vidro e chamaram a atenção de milhares de leitores da revista National Geographic, em 1947, após a publicação de uma série de fotos de Harold Edgerton, nas quais os beija-flores apareciam se alimentando em bebedouros. Veja como eram, no vídeo abaixo:

Mas a primeira venda de um dos famosos Webster Hanging Feeder ou Bebedouro de Pendurar de Webster aconteceu somente em 1950 e, é considerada um marco, não apenas da popularização do uso de bebedouros, mas do conceito de atrair aves.

A maior contribuição de Laurance e Margaret ao criar um bebedouro compacto, fácil de usar e de baixo custo foi tornar a sua utilização amplamente acessível a qualquer pessoa. Hoje, milhares de admiradores de beija-flores por todo o continente americano, do Canadá ao Brasil, utilizam garrafinhas inspiradas pelo modelo de Webster.

Mitos e verdades

– O açúcar comum pode fazer mal aos beija-flores? 
Esta ideia não passa de mito cultivado por empresas e lojas que lucram com a venda de produtos. O açúcar não faz mal algum aos beija-flores! Recentemente, os pesquisadores Chris Chen e Keneth Welch, da Universidade de Toronto, publicaram uma extensa pesquisa sobre o tema na revista científica Functional Ecology. Os resultados comprovaram que os beija-flores estão igualmente adaptados, tanto para queimar glucose quanto frutose, ou seja, são capazes de metabolizar facilmente o nosso açúcar comum.

– Como limpar os bebedouros?
Embora o açúcar não seja prejudicial aos beija-flores, bebedouros sujos propiciam o crescimento de fungos e bactérias prejudiciais à saúde das aves. Por este motivo, é indispensável limpá-los periodicamente.

Mas, atenção! Não use detergente ou cloro, já que ambos podem contaminar o bebedouro ou, pior, acelerar a liberação de BPA (composto químico tóxico presente na maioria dos plásticos usados em sua produção).

Inúmeras instituições de pesquisa e conservação de aves sugerem que a limpeza destes recipientes seja realizada apenas com vinagre branco, com o auxílio de uma esponja limpa e enxágue em água corrente. Simples!

– Quais as doses ideais para uma boa solução de água e açúcar?
Basta preparar solução composta de 1 porção de açúcar comum para 4 doses de água. E você pode preparar doses maiores uma vez que a solução pronta pode ser armazenada em um refrigerador por até duas semanas.

Mas nunca utilize açúcar mascavo, mel, sucos, adoçantes, compostos químicos ou néctar artificial! Além de fermentar rapidamente, todos estes produtos são nocivos aos beija-flores. Use apenas açúcar branco nas proporções recomendadas.

Além disso, para evitar fermentação, substitua a solução a cada dois dias e, lembre-se de jamais instalar os bebedouros sob o sol forte.

– Alimentar os beija-flores pode interferir no processo de polinização das flores?
Alguns pesquisadores argumentam que, ao disponibilizar bebedouros para os beija-flores, interferimos no processo natural de polinização, no qual polinizadores como essas aves são essenciais para a reprodução de algumas espécies de plantas nativas.

Entretanto, não existem evidências científicas que comprovem isto, ao contrário: em agosto deste ano a revista Journal of Ornithology publicou um estudo realizado no Brasil por um time internacional de cientistas – incluindo pesquisadores como Jeferson Bugoni e Marlies Sazima – e, não foi encontrado nenhum efeito prejudicial na reprodução das plantas.

– Qualquer pessoa pode construir um bebedouro para beija-flor?
Sim. Existem dezenas de manuais, vídeos e dicas, que ajudam na construção de bebedouros, disponíveis na internet. Na verdade, o que os beija-flores memorizam são os locais onde existe disponibilidade de alimento, uma vez memorizado as aves continuarão vindo mesmo que o bebedouro seja substituído por outro recipiente.

– Do que mais os beija-flores se alimentam?
Poucos sabem, mas pequenos insetos, larvas e até pequenas aranhas são parte essencial da dieta destas aves. Os insetos oferecem gorduras, proteínas e sais que os beija-flores não são capazes de adquirir ao se alimentar apenas de néctar ou soluções de água e açúcar. Por isso, para conseguir as doses diárias de proteínas ideais para uma dieta saudável, um beija-flor adulto precisa comer dúzias e dúzias de insetos por dia.

– Existem outras maneiras de atrair beija-flores?
Sim, além de bebedouros, uma diversidade de plantas de todos os tamanhos podem ser utilizadas para atrair estas aves. São indicadas para o cultivo em vasos a camarão e a maria-sem-vergonha e, em vasos suspensos, brinco-de-princesa, lanterna-japonesa e flor-de-maio. Outras plantas como russélia, odontonema, ixora-rei, assistásia, pentas e lantana são indicadas para o plantio direto no solo.

Existem ainda inúmeras trepadeiras que produzem flores como a lágrima-de-cristo, o clerodendro-vermelho, a escova-de-macaco-africana, a tecomária e o chapéu-chinês. Além de arbustos de grande porte como a grevílea, a caliandra e o malvavisco e muitas árvores como a eritrina, o suiná, a paineira, o ipê, o jacarandá, a espatódea, o bombáx e até o flamboyant.

Beija-flor-de-garganta-verde (Amazilia fimbriata) visitando flores de Lanterna-japonesa

Fotos: Sandro Von Matter e Paul Knaga

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

14 comentários em “Bebedouros para beija-flores: origem, mitos e verdades

    • 11 de novembro de 2015 em 2:34 AM
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      Muito obrigado pelos elogios Karlson,
      Continue acompanhando as minhas publicações aqui no Conexão Planeta.

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  • 9 de novembro de 2015 em 2:19 PM
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    Excelente artigo Sandro . Parabens

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    • 11 de novembro de 2015 em 2:33 AM
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      Olá Andrei,
      Super obrigado pela visita ao blog, é um honra receber um elogio seu. Um grande abraço.

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    • 11 de novembro de 2015 em 2:31 AM
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      Olá Gabriel,
      Obrigado pela sua visita, os relatos sobre a toxicidade da Spathodea campanulata disponíveis na literatura científica estão relacionados especificamente aos insetos, uma provável defesa química desenvolvida pela Spathodea com o objetivo de impedir que o pólen e o néctar sejam roubados por insetos antes da antese (florescência), reduzindo ou evitando a polinização por vertebrados (entre os quais os beija-flores e os morcegos); ou ainda, de evitar a ação de herbívoros em flores. Não existem relatos científicos que comprovem que a planta se prejudicial ao beija-flores.

      Os textos que você leu sobre os efeitos tóxicos da espécie foram possivelmente baseados no artigo [Trigo, J.R. & Santos, W.F. (2000) Insect mortality in Spathodea campanulata Beauv. (Bignoniaceae) flowers. Ver. Brasil. Biol. 60 (3):537-538.] que inclusive sugere que seja mais provável que as flores da Spathodea sejam nocivas às abelhas e inofensivas com relação aos beija-flores, cuja ação polinizadora é benéfica para a planta.

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      • 19 de dezembro de 2015 em 9:46 PM
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        Olá, Sandro.

        Aqui no meu quintal tem um pé de S. campanulata e quando floridos ficam cheios de beija-flores. Até Primolius maracana já parou por aqui. Com tamanho interesse nas flores, é difícil crer que ela faça mal para as aves.

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      • 17 de janeiro de 2016 em 9:25 PM
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        Olá Sandro,
        Ampliando a investigação para além da família Trochilidae (exclusiva das Américas), ao pesquisar a eventual ocorrência de possíveis efeitos danosos em outras aves consumidoras regulares do néctar da S. campanulata, da família Nectariniidae (sunbirds), da África (pátria da espatódea) e da família Meliphagidae (honeyeaters), das regiões biogeográficas australiana e oriental (onde a árvore foi introduzida), não encontrei qualquer observação, simples registro ou estudo científico relatando mortalidade ou efeitos adversos nas populações dessas aves!
        Por seu turno, existem também artigos científicos realizados na América Central* assegurando não haver registro de toxicidade do néctar da espatódea em morcegos, os principais polinizadores dessa árvore na região.
        Admitindo-se que o vegetal disponha de mecanismos de defesa para repelir os eventuais insetos pilhadores de suas flores antes da florescência** e considerando que seria um contrassenso biológico que a planta eliminasse seus potenciais polinizadores, o que se tem de concreto e cientificamente comprovado é que o néctar da Spathodea campanulata não é tóxico para seus polinizadores, sejam macacos, lêmures, morcegos ou aves.
        Mais um dos vários mitos que envolvem os beija-flores.
        Abs.
        Dagoberto Pinheiro das Chagas

        *…Flowers of S. campanulata in their original region, are pollinated by non-hovering birds (Gentry, 1974) and perhaps by lemurs (Sussman & Raven, 1978); in Panama, bats pollinated them (Ayensu, 1974). No record about the mortality of pollinators was verified.
        **Insect Mortality in Spathodea campanulata Beauv. (Bignoniaceae) Flowers, Trigo, J.R. and Santos, W.F. dos, Rev. Bras. Biol. Vol. 60 nº 3 São Carlos, Aug. 2000.

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        • 22 de janeiro de 2016 em 6:48 PM
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          Caro Dagoberto, é um prazer contar com seu depoimento por aqui,
          Seu depoimento é extremamente elucidativo e, acrescente informações importantes ao texto.
          Muito obrigado por compartilhar sua pesquisa comigo e com os demais leitores.
          Grande abraço

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  • 19 de janeiro de 2019 em 8:47 AM
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    Oi Sandro.
    Muito bacana a reportagem.
    Já ouvi dizer que uma vez colocado um bebedouro, você tem que manter aquele ritual. Pessoas que não tem rotina, ou viajam, podem até “matar” alguns espécimes. Isso porque um beija-flor pode viajar grandes distâncias até seu bebedouro, gastar toda a energia e não encontrar alimento para continuar sua jornada (caso o bebedouro esteja em uma área sem disponibilidade de recurso natural p beijaflores). Isso procede?

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  • 19 de janeiro de 2019 em 4:30 PM
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    Não são todas as flores que atraem todos os tipos de beija-flores, cada flor atrai uma espécie.
    No livro Beija-flores do Espirito Santo de “Augusto Ruschi” ele indica quais espécies florais atraem cada um deles, no seu livro, Aves do Brasil volumes 4 e 5 também, faz o mesmo. Cada beija-flor tem uma espécie de bico diferente por isso é difícil que algumas espécies frequentem bebedouros que quase só são frequentados por espécies de bicos mais retos. Augusto Ruschi foi o maior estudioso dos beija-flores no Brasil, assim como outras aves. Para quem gosta de beija-flores é bastante interessante ler suas obras e até visitar o museu doado por ele na cidade de Santa Tereza- Espirito santo. Ele foi designado “Patrono da Ecologia do Brasil” pela lei número 8.917/84 de julho de 1994, em 13 de julho de 1994. no governo do presidente Itamar Franco.
    Augusto Ruschi catalogou 5 novas espécies de beija-flores e outras 11 subespécies, catalogou 50 espécies de orquídeas também.

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