Banco de sementes, no Ártico, ameaçado pelo aquecimento global


Desde 2008, o Ártico abriga um depósito construído para proteger as sementes mais preciosas do mundo (dos principais alimentos consumidos pela humanidade) de qualquer desastre na Terra. É o Global Seed Vaut, um banco global de sementes. Uma espécie de Arca de Noé de Sementes, considerado muito forte e resistente. Só que, na semana passada, esse depósito foi invadido pelas águas do degelo causado por temperaturas extraordinariamente quentes, em pleno inverno.

Nenhuma semente foi atingida porque a água jorrou pelo túnel de entrada e, devido à temperatura local (18 graus negativos), transformou-se rapidamente em gelo e não avançou, o que manteve as sementes seguras. E, rapidamente, a equipe que lá trabalha tratou de varrer o gelo para fora.

Mas o que aconteceu é muito preocupante. Primeiro, porque coloca o projeto em risco já que a abóboda de rocha se mostrou bastante vulnerável. Segundo porque confirma, mais uma vez, que o planeta está esquentando e o aquecimento global continua avançando.

O aumento das temperaturas no Ártico, no final do ano mais quente já registrado, provocou fusão e fortes chuvas, quando a neve caiu, colocando o banco em risco. O final de 2016 viu temperaturas médias acima de 7 graus centígrados acima do normal em Spitsbergen, empurrando o permafrost acima do ponto de fusão. Segundo o Instituto Metereológico da Noruega, o Ártico e o arquipélago de Svalbard em especial – ao qual pertence a ilha norueguesa de Spitsbergen onde está instalado o banco – em especial têm aquecido mais rápido do que o resto do mundo. A velocidade com que isso tem acontecido é espantosa.

O banco de sementes foi concebido como um congelador hiper resistente enterrado em uma montanha no interior do Círculo Ártico, e já abriga quase um milhão de pacotes de sementes, cada uma representando uma variedade de uma colheita importante para nossa sobrevivência.

Quando foi criado, os cientistas imaginavam que “enterrar” esse banco no permafrost profundo (permafrost é o nome do solo da região do Ártico feito de terra, gelo e rochas, permanentemente congelados) seria garantia de proteção contra qualquer desastre natural ou provocado pelo homem. Ingenuidade? Prepotência? Falta de visão? E agora?

O acidente coloca em questão a capacidade de o banco poder cumprir sua função como salvação da humanidade em caso de catástrofes graves. A ideia dos cientistas era de que o banco pudesse se manter sem a ajuda de seres humanos.

Agora, o banco está sendo monitorado 24 horas para que se possa chegar a uma conclusão mais exata sobre sua resistência e eficiência. E o que pode ser feito para minimizar futuros riscos. A equipe está fazendo a impermeabilização do túnel de 100 metros de comprimento, que leva às sementes, e cavando trincheiras na montanha para canalizar a água de fusão e a chuva e levá-la para longe do depósito. Eles também instalaram bombas para expulsar a água (e o gelo) mais rapidamente, em caso de outra inundação.

O jeito é encontrar soluções para garantir a segurança total do banco de sementes. Afinal, ele foi feito para durar uma eternidade.

Leia também:
Pianista italiano Ludovico Einaudi compõe e toca contra a exploração do Ártico 
Derretimento de neve no Ártico mata aves migratórias nos trópicos 

Foto: Mari Tefre/Divulgação/Flickr

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta