Baía Urbana: a exuberância da vida marinha na Baía da Guanabara em belíssimo documentário

De tanto ouvir falar da poluição da Baía da Guanabaraque é gravíssima, sim, e, por isso, deu o que falar nos Jogos Olímpicos -, dá pra acreditar que ainda há vida, beleza e riqueza em suas profundezas? Pois há. Foi o que vi – absolutamente encantada, já confesso – ao assistir Baía Urbana, o mais recente documentário do biólogo, fotógrafo e cineasta  Ricardo Gomes, do Instituto Mar Urbano.

Depois de participar de uma convenção da ONU e de alguns encontros no exterior, o filme tem estreia nacional hoje, 27 de setembro, em sessão especial na prévia da programação do festival FilmAmbiente, com direito a bate papo o diretor (no Espaço Itaú de Cinema, às 20h30, em Botafogo). E, claro, o documentário já faz parte do festival que será realizado em novembro, também no Rio de Janeiro.

O segundo filme do ativista Ricardo Gomes – o primeiro foi Mar Urbano, de 2014 – nasceu realizado justamente por causa dos comentários depreciativos sobre a baía na época dos Jogos Olímpicos. “A ideia veio naquele momento pré-olímpico em que o mundo inteiro falava que a Baía da Guanabara estava morta. Fizeram dezenas de sepultamentos simbólicos da baía, mas isso não ajudava a mudar sua realidade”, explica o diretor.

“Quando um doente morre no hospital, você enterra, mas quando ele ainda tem chance de sobreviver, você faz tudo que pode pra ele voltar à vida, não é isso? E a minha ideia era mergulhar na baia e mostrar vida, fazer as pessoas acreditarem que é possível reverter a situação da baía”, diz Gomes, que completa orgulhoso: “No mundo inteiro, diziam que a baía estava morta e eu provei que ela está viva. Isso virou uma grande notícia e algumas pessoas compreenderam que há muita vida lá. Todos se surpreendem quando veem a beleza dessa biodiversidade! É como se existisse uma floresta amazônica submersa na Baía da Guanabara, que nunca tinha vista. É a primeira vez que ela é filmada e isso está transformando o imaginário do carioca, o inconsciente das pessoas”.

Gomes sempre cita uma frase do lendário Jacques Cousteau, dita há uns 60 anos atrás, que pauta sua trajetória e o trabalho que desenvolve, de coração, com o mar: “Cousteau dizia que o homem só preserva o que conhece. Ao mostrar essa vida resiliente na Baía de Guanabara, o filme dá motivos para que os cariocas reconquistem e amem sua baia”.

Pra lá de exuberante

Assim, o documentário Baía Urbana nos leva a um mergulho mágico – mas também muito didático e facílimo de entender – nessas águas que, como tantas outras pelo Brasil afora, sofrem com a falta de estrutura para tratar o esgoto, com a pesca predatória e a sanha consumista que cada vez mais domina o século XXI e despeja resíduos nos mares, sem falar dos impactos das mudanças climáticas: aquecimento e acidificação da água.

Ele apresenta lindezas – cores, movimentos, animais e plantas incríveis – que é difícil acreditar que existam por lá. É muita poesia. Hipnotizada pelas imagens e pelo que o músico e compositor Pedro Luiz conta (ele é quem narra o filme), me peguei diversas vezes com um sorriso delicioso no rosto, absorvida por tanta exuberância, pela cadência das narrativas, pela qualidade da obra. Em tempo: a trilha sonora também é de Pedro Luiz e inclui um reggae muito bacana que ele criou para explicar o processo de acidificação, e que encantou a todos no lançamento do documentário na convenção da ONU.


Fiquei apaixonada pelas raias (acima, a raia Tuiuiu)a Guanabara é a baía com maior diversidade de raias no mundo, há sete espécies lá, que estão ameaçadas de extinção! -, lulas, pelos polvos, tubarões, cavalos marinhos (são lindos!!!), ouriços, corais, esponjas, botos, tartarugas e pela infinidade e variedade de peixes – mais de 50 espécies nadam ali! O lindão abaixo é o peixe voador.


O documentário apresenta cada espécie em detalhes e ainda revela algumas curiosidades. Você sabia que o monstro Alien, no cinema, foi inspirado na moreia (o bicho engraçado, abaixo), que tem mandíbula dupla? Aprendi tanta coisa bacana!! Uma delícia aula de biologia marinha.

Também me encantei com as histórias dos pescadores que vivem dessas águas, com a existência da esplêndida reserva de Guapimirim, uma floresta de mangues recuperada da devastação, com os depoimentos dos pesquisadores que estudam a baía e seus bichos e também convivem com ela nas horas de lazer, como o ecoeconomista Cadu Young, que veleja na baía e se diz guanabarino, não carioca, nem niteroiense.

Tanta riqueza se torna ainda mais imprescindível quado Gomes conta o que o aquecimento global – consequência de nossas ações – está provocando nos oceanos, mares e na baía, e que tudo aquilo que vemos na tela está ameaçado. Dá um nó no peito. Como diz Cousteau, a gente não cuida do que não conhece. E dá vontade de sair correndo para fazer tudo pela Baía de Guanabara.

Por tudo isso, o filme é um registro importantíssimo dessa baía tão maltratada – mas que resiste, inacreditavelmente resiliente e exuberante -, que deve ser assistido não só pelos cariocas, mas por todos os brasileiros.

Exibições especiais no Brasil e pelo mundo

O documentário está dando os primeiros passos em sua jornada – numa ótima fase de exibição em festivais e pequenos encontros -, por isso, sua exibição em circuito comercial ainda demora um pouquinho.

A primeira exibição do filme aconteceu em 2 de junho deste ano, no Festival Internacional de Cinema de Direitos Humanos, de Buenos Aires. No mesmo mês, ele foi apresentado durante a Conferência Internacional sobre Oceanos da ONU – que é apoiadora institucional do documentário, por intermédio do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e do Centro Rio+ (administrado pelo PNUD). Também foi exibido na Universidade de Columbia, em NY.

Durante um ano e meio, Baía Urbana participará de festivais de cinema ambiental pelo mundo. Em 16 de outubro, será exibido no Cine Eco 2017 – Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, em Portugal, o mais antigo dessa categoria na Europa.

Em novembro, além de participar do FilmAmbiente, no Rio de Janeiro (como já comentei), ele deve abrir o 1º. Seminário Nacional de Combate ao Lixo no Mar, que será promovido pelo Ministério do Meio Ambiente entre os dias 6 e 8.

Esta semana, Gomes esteve no Instituto de Economia da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde apresentou parte do documentário e participou de debate. “Conversamos sobre como o audiovisual pode ajudar na conscientização da população. Conhecer a vida que está debaixo d’água, é importante para a preservação da vida marinha”.

Aliás, preservar a vida sob a água é o 14º. Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS14) da ONU. Por isso, o PNUD tornou-se parceiro do filme de Gomes. “Baía Urbana representa bem a bandeira desse ODS, por isso o Pnud o elegeu para exemplificar esse tema em suas ações pelo mundo. A ideia é exibi-lo nas comunidades dos países em que a instituição atua – são 166!”.

Em breve, o documentário prosseguirá em seu circuito universitário, com uma passagem pela UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Depois, será a vez das crianças das escolas estaduais e municipais assistirem a essa preciosidade, e outras oportunidades virão. Há muito o que fazer com Baia Urbana, por aí. E isto é só o começo.

Agora, fique com o trailler, que revela uma pequena parte da beleza e da riqueza que a baía guarda em suas águas, todos os dias, e que pode se tornar ainda mais abundante. Em seguida, assista ao trailler de Mar Urbano, primeiro documentário realizado por Gomes, fruto de 15 anos de filmagens nas praias de Copacabana e Ipanema, acompanhando cinco mergulhadores: um Rio de Janeiro que o carioca também não conhecia. Maravilhoso!

Fotos: Reproduções do vídeo

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Deixe uma resposta