Bagunça da árvore? Que ânsia!

bagunça de árvore

Com a filha no colo, ela abriu a porta de trás do carro, mas antes de amarrar a criança na cara cadeirinha, deu uma olhada rápida no capô e soltou o muxoxo com ar educativo: a árvore fez bagunça por aqui. A criança, eu e a árvore olhamos para ela com ar de enfado, tentando tirar do fundo da alma aquela compreensão dedicada à pobre ignorância mascarada de decidida informação conseguida em algum manual sobre ordem, sobre progresso ou sobre a gasolina do finado posto Esso ou outro atuante que venda o combustível para fazer rodar o mundo que se baseia no sucesso inconsequente da perfuração para retirar fósseis como se a eternidade fosse algo plasmado para ser constante e igual. Como se o planeta cansado não se exaurisse, não mudasse seus padrões de temperatura e pressão, imitando no macro, nós, micos exaustos depois de um suado ou atabalhoado trabalho.

Fiquei pensando que a tal bagunça das minúsculas folhas seria dispersa na primeira acelerada. Ela nem teria que ouvir do marido ou do próprio espelho que precisaria mandar polir o carro para tirar as manchas deixadas por uma frutinha qualquer ou por um certeiro e seco cocô de passarinho. Não vi nada disso naquele capô revestido de uma importância sem sentido. E provavelmente não verei, não a veremos, a mãe, deitada num gramado com a filha, aproveitando a sombra de uma árvore e observando o corpo de um pássaro que resolva cantar por lá. Note que falei corpo e não só o bico. Aliás, de onde eu estava deitada nem conseguia ver o bico, mas tive a certeza que era ele o dono do trinado pelo ritmo e movimento do bicho todinho. Sem chocolatinhos líquidos, por favor. Fiquei pensando que, ainda que a filha trombasse com um pássaro, talvez fosse instigada a alimentá-lo com uma porcaria dessas qualquer que enche a lancheira dela e da maioria das crianças sem voz.

Pensei muito na palavra bagunça. Pensei muito no tom de sutil desrespeito e falta de apreço usado por ela, a mãe. Pensei nas minhas bagunças. Pensei no meu conceito de bagunça. E conclui que tudo isso também passa pela questão valor e comodidade. E independe da idade. Quem sabe esteja sendo muito rígida com a mãe. Ela usou bagunça e não sujeira. Quem sabe a intenção fosse brincar ao chamar a árvore de bagunceira, embora, repito aqui, o tom tenha parecido ser bem outro.

De tom em tom vou me desencantando e encantando nos meus passeios. Gosto tanto quando estou observando alguma coisa ou assistindo a algum espetáculo e me nasce no pensamento ou na boca um “Nossa, gostei”. Ando muito chata (deve ser a amargura de ter que viver o que vem por aí no Brasil) e esse “Nossa, gostei” de forma global tem nascido cada vez menos. Então resolvi falar de cenas que ficaram reverberando em mim nesses últimos tempos.


Na peça CriÂnsia, da processo MultiArtes, com direção e texto de Adriano Esturilho, remontada em Curitiba: os atores de cócoras gemem. Os primeiros gemidos são de prazer. Transformam-se em gemidos de mãe durante a dor do parto. Tudo muito sutil. E aí nascem as crianças, representadas por aqueles recortes de papel (sabe?) em que as crianças estilizadas, como sombras, estão de mãos dadas. Essas crianças, leves são sopradas para o alto, largados ao vento. Quem sabe, na bagunça, possam encontrar as pequenas folhas ao cair no chão que, na peça, se apresenta como um quebra-cabeça com peças faltantes. Um chão que sempre pode faltar, uma ânsia que sempre pode nascer, uma lágrima que sempre pode escorrer ao sermos convidados a lembrar quando deixamos de ser crianças… Quando deixamos de acreditar, de deixar a imaginação voar livre. Quando enterramos nossos desejos?

Mesmo que inventemos belos enterros, como na peça Birds in the House, com direção e autoria do checo Peter Serge Butko, ainda assim são faltas, perdas, frustrações. O arco do violino corta as cordas da marionete, tocando seu despencar para o mundo dos mortos. Os dedos do ator tocam as cordas de uma harpa imaginária, ao velar outra marionete que jaz desacordada, desacorçoada, mas com toada que entra na casa batendo asas.

A toada do espetáculo Clake, do Circo Amarillo, de São Paulo, que integrou o Palco Giratório do Sesc, é a bagunça do cotidiano do trânsito paulista, tocada numa traquitana maluca montada pelos atores argentinos que agora vivem no Brasil. Gostei quando eles usaram uns tambores como parceiros para um jogo com bolinhas. Explico: o ator jogava a bolinha no tambor, fazendo música e jogo. O tambor maleável devolvia a bolinha puladora para o outro ator. E assim ficavam numa dança. Gostei de ver o objeto, além da função. Eles também usaram frigideiras para jogar um pingue-pongue de faminto por mais riso, por mais dignidade na cidade bagunçada pelos humanos nos seus carros bizarros, que não param pra olhar nem um João de barro.

ESPETÁCULO CRIÂNSIA
Data:
até 16/12
Horário: quinta a sábado, às 20h30 e aos domingos, ás 19h30
Local: TEUNI
Endereço: Praça Santos Andrade, s/n – Prédio História da UFPR

Fotos: divulgação e creative commons (abertura)

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Deixe uma resposta